Os dentes das galinhas

Stephen Jay Gould é, antes de tudo, um bom escritor. Tivesse sido um romancista, teria ganho alguns prêmios. O seu livro “A galinha e seus dentes” reúne 30 ensaios publicados no início dos anos 1980 que não perderam sua atualidade. Gould aborda problemas tão diversos quanto a pseudo-ciência, bizarrices do mundo biológico, a evolução (no sentido de variação e mudança) das ideias no universo conceitual científico, e, como não poderia deixar de ser, aspectos diferentes da teoria de Darwin.

Após ler “Vida Maravilhosa” (Wonderful Life), “Lance de Dados” (que tradução bizarra para “Full House”!) e “Ever Since Darwin” (em inglês mesmo), “A galinha e seus dentes” me fez consolidar uma imagem de Gould como autor que escreve sobre ciência como poucos – talvez tão bem, ou melhor, do que Carl Sagan. Gould consegue escrever de maneira tão leve e engraçada que cativa o leitor, levando-nos a descobrir fatos a partir de histórias anedóticas, com as quais inicia seus textos e a partir das quais elabora seus argumentos.

Ele discorre sobre os mais variados assuntos com muita destreza e conhecimento, tornando claro que deve ter lido um bocado, quando não pesquisado mais do que apenas o suficiente, para fazer com que o leitor reflita. Em diferentes capítulos questiona a eventual “perfeição da natureza”, mostrando que esta está muito longe de ser perfeita, organizada ou que apresenta propósitos bem definidos (em “Grandes peixes, pequenos peixes”, “Natureza amoral”, “O anel de guano”, “A diminuição filogênica do chocolate Hershey”, “O cinturão de um asteróide”, “Riquezas aleatórias”, “Oh morte!, onde está sua vitória?”, “O que é a zebra”, “Como zebraram a zebra?”). Afirma, sem dó nem piedade, que “a natureza não contém mensagens morais que se enquadrem nos termos humanos” e que “Se a natureza é amoral, então a evolução não nos pode ensinar qualquer teoria ética”. Discorre ainda sobre filosofia (“O propósito de Hutton”), trazendo à luz fatos e concepções próprias de personagens da história talvez pouco conhecidos como Cuvier, Agassiz, a paixão de Darwin por minhocas, Trofim D. Lysenko e Nikolai I. Vavilov (pesquisadores da Academia Lênin de Ciências Agrícolas). Além de curiosidades sobre as hienas, genes, dentes de galinhas, patas de cavalos e zebras. Sua longa e cuidadosa pesquisa sobre o envolvimento de Teilhard de Chardin na farsa do “Homem de Piltdown” é tema de dois (dos melhores) capítulos do livro, nos quais o primeiro narra suas descobertas e no segundo apresenta uma pequena seleção de cartas que recebeu de leitores sobre a publicação do primeiro ensaio.

Também critica o antropocentrismo doentio da espécie humana, que parece acreditar, continuamente, que a natureza, o mundo e o universo foram criados, e existem, para que os humanos possam exercer sua supremacia biológica e intelectual. E como tal arrogância pode, inclusive, levar a um mau uso da ciência, para justificar propósitos nem um pouco edificantes (em “A ciência e a imigração humana” e “A política do recenseamento”).

Mas sobretudo é um crítico contumaz, com refinada elegância, da pseudo-ciência criacionista, a qual já se fazia cada vez mais presente nos EUA, e manifesta seu descrédito absoluto em qualquer hipótese ou proposta que sustentem argumentos falaciosos para justificar o injustificável. Termina seu livro com um ensaio sobre moluscos bivalves e fatos duvidosos, em que conclui:

“(…) casos singulares são frágeis e os fatos consistentes correspondem a padrões difundidos na natureza, não sendo peculiaridades individuais. A maioria das “histórias clássicas” da ciência é errônea.

A necessidade de distinguir os fatos consistentes (padrões difundidos) entre as duvidosas alegações factuais (casos singulares com documentação pouco confiável) nunca se tornou tão evidente para mim como no presente debate entre evolucionistas e os assim chamados “criacionistas científicos”. O fato da evolução é tão robusto quanto qualquer reivindicação científica. Sua robustez reside no padrão difundido e detectado por várias disciplinas – por exemplo, as idades da Terra e da vida de acordo com o confirmado pela astronomia e geologia e o padrão de imperfeição dos organismos, como um registro da história da descendência física.

Contra isso os criacionistas usam uma abordagem destrutiva. Eles não apresentam nenhuma alternativa comprovável, mas disparam uma salva de críticas retóricas, sob forma de alegações factuais duvidosas e desconexas – um pot pourri (literalmente, um pote podre, neste caso) de bobagens que logra muita gente, porque se mascara de fato e tira vantagem do falso prestígio de supostamente resultar de uma observação pura.

As alegações individuais são facilmente refutáveis com um pouco de pesquisa. Os próprios criacionistas foram forçados a recuar em relação aos tópicos mais embaraçosos. O notável criacionista Henry Morris, por exemplo, muitas vezes citou as supostas pegadas de dinossauros e humanos juntas nas pedras do rio Peluxy, no Texas. Já o criacionista Leonard Brand atribui algumas das pegadas “humanas” à erosão e outras a dinossauros de patas com três dedos. E acrescenta: “Sabemos que havia um sujeito, durante a Depressão, que entalhava trilhas”.

Cada vez que implodimos um “fato” criacionista, dois mais são inventados para ocupar seu lugar. Hércules finalmente matou a hidra, um animal com uma tendência similar de proliferar depois de sua parcial destruição. Podemos negar aos criacionistas toda e qualquer respeitabilidade intelectual (embora infelizmente não algum apelo popular), lembrando que os fatos consistentes são formados por padrões largamente difundidos e a coerência e estrutura é a marca dos argumentos vigorosos e das teorias saudáveis. Itens individuais são relacionados permanecem duvidosos, até formarem um padrão que torne confiável a documentação individual (…).

(…) Se finalizo com otimismo comedido, faço isso com o propósito de que enfoquemos a segunda frase do que pode ser a mais famosa assertiva de Darwin (em Descent of Man): ‘Os fatos falsos são altamente danosos para o progresso da ciência, pois eles frequentemente duram muito; mas as visões falsas, se respaldadas por alguma evidência, causam pouco dano, pois todo mundo se deleita em provar sua falsidade’.”

Stephen J. Gould – “A galinha e seus dentes e outras reflexões sobre história natural”, editora Paz e Terra, 1992. Tradução: David Dana.



Categorias:ciência, educação, evolução

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