A importância de fazer ciência

Nicolelis

Em entrevista à revista Caros Amigos, o neurocientista Miguel Nicolelis revela parte de seu trabalho, sua atuação no Brasil e de sua esperança em construir um Brasil melhor, principalmente para aqueles que mais necessitam. Trechos selecionados da entrevista são apresentados a seguir.

“Não temos a cultura da ação científica como patrimônio do país. Todo o mundo conhece Machado de Assis, artistas, jogadores, economistas. Não faz parte do nosso ethos enquanto cultura brasileira delinear o que a inteligência criou na ciência. O Santos Dumont é o maior cientista que o Brasil já criou, o maior neurocientista o maior inventor. E nunca foi para a escola, então foi quase que repudiado nos livros da história da ciência brasileira porque nunca teve diploma.”

“(…) Acredito que o cérebro cria o modelo do mundo, e ele só confirma ou nega esse modelo continuamente. (…) o cérebro tem um ponto de vista interno, dele, próprio, criado ao longo da nossa vida. Cada um de nós cria esse modelo do mundo. (…)Estou desenvolvendo essa teoria, explicando quais princípios regem a criação de um modelo interno do cérebro sobre o mundo. É como olhar o mundo do ponto de vista do cérebro (…) O cérebro é um agente ativo, não é um decodificador passivo, ele não é um computador. É um criador da realidade, da sua realidade. (…)Tenho batido de frente há quase quinze anos sugerindo que a unidade funcional do cérebro não é o neurônio, mas uma população de neurônios, que num momento vota por uma decisão, e depois eles se dissociam.”

cerebro

Léo Arcoverde (entrevistador): Quando surgiu a história do Instituto [Internacional de Neurociências em Natal]? Nicolelis: Sempre tive a idéia de voltar e fazer alguma coisa no Brasil. Era preciso demonstrar que alguém podia fazer ciência fora e trazer de volta. Comecei a ir para o Nordeste. Tinha a sensação que até o impacto era necessário para demonstrar para o Brasil quão fundamental a ciência é para o desenvolvimento não só econômico, mas principalmente educacional e social – os exemplos da Coréia, Taiwan: o que mudou esses países foi o redirecionamento do processo educacional. Era preciso ir para um lugar onde cientista nenhum iria e provar que o talento científico brasileiro existe em qualquer lugar, no Capão Redondo como em Macaíba. O que não existe é oportunidade para esse talento aflorar. Quer dizer, você não oferece ao potencial humano brasileiro nem o método nem as oportunidades para que o método seja aplicado. Para que as pessoas possam perseguir sua imaginação, porque ciência é isso, é ter uma idéia, achar que vai funcionar e ir atrás. Daí que você vê quem é cientista – não é diploma, não é passar na banca, não é ter título. É o cara que tem uma idéia criativa, aplica métodos rigorosos para testar e que persiste. Noventa por cento da ciência é persistência.”

IINN

“A ciência não é só para ser feita em universidade, ficar em prédio fechado, é para se abrir para o mundo.”

“Cheguei à conclusão que hoje no Brasil é difícil falar bem do Brasil. Existe uma cultura de se confundir o país com quem está no governo. E a gente não pode contar boas notícias. É uma coisa meio assustadora, não consigo entender. (…) O Brasil, de certa maneira, carrega hoje a responsabilidade de ser uma das poucas boas esperanças no mundo. De preservar seu ambiente, construir um país honesto, que cresça não à custa de outro, mas à custa do seu próprio trabalho, um país que tem uma democracia explodindo, não?”

“(…) conseguimos pegar mil crianças da rede pública, de escolas que as pessoas não davam esperança alguma, colocar em um ambiente de laboratório, de liberdade de criatividade e mostrar para elas que o céu era o limite. E quando vim falar com certas pessoas aqui em São Paulo, falaram: “Não vai sair nada.” Thiago Domenici (entrevistador): Pessoas do governo? Nicolelis: Não, cientistas: “Você está louco, não tem massa crítica, não vai sair do lugar”, e hoje você vê criança que antes queria ser jogador de futebol dizer que quer ser químico. Estão montando robô, outro programando chip aos 12 anos. (…) O primeiro sinal que o projeto estava funcionado é que os professores da rede pública começaram a comentar que estava até criando problema na escola, “seus alunos fazem muita pergunta”… Essas crianças têm perguntas que desafiam gente experimentada. Ensinar é isso, essa troca.”

Calvin

Marcos Zibordi (entrevistador): A comunidade científica criticou sua proposta, como se você estivesse descredibilizando a neurociência brasileira. Nicolelis: Nunca me preocupei com isso. Sou cria do pai da neurociência brasileira. Seria impossível, a não ser que eu perdesse o lóbulo préfrontal, esquecer de onde vim. Prova maior é que voltei, não precisava voltar. Esse negócio que não tem dinheiro, dinheiro tem, é só ir atrás e fazer algo que justifique o dinheiro. A única pessoa que levantou questões, quando interpelada para provar, fugiu da rinha. E tudo o que veio a público aqui foi feito de maneira aberta. O governo federal foi simpático à nossa causa? Claro. Por que não poderia ser?”

Marcos Zibordi (entrevistador): Se nós temos tanta dificuldade para patrocinar pesquisa, o que o senhor acha do fato de não se conferir o resultado final? Como funciona fora daqui? Nicolelis: Se você terminar um projeto de cinco anos e não produzir trabalhos, publicados em grandes revistas e com um selo de aprovação, sua carreira acabou. A seleção natural lá [nos EUA] é grande. Que é um dos problemas aqui: se financia tudo. Se falta dinheiro, teria que ter uma visão um pouco mais crítica. O que vamos financiar? Qual é nossa visão estratégica de ciência? O que o Brasil precisa? O que queremos desenvolver da inteligência nacional? Ciência é hoje uma questão de soberania nacional, uma questão estratégica da humanidade e uma contribuinte vital para a preservação da democracia no mundo. Porque se não ajudar a produzir comida, novas formas de energia, de curar doenças, a espécie acaba. A ciência está no vértice das decisões. O Brasil precisa de uma nova cultura universitária. Tem que abrir as portas das universidades para o Brasil. Precisa de uma nova visão acadêmica. Tudo isso tem que passar por uma discussão, e a sociedade precisa fazer essa discussão munida do conhecimento da informação. A ciência é uma questão estratégica, só que não recebe do ponto de vista político a devida relevância. A questão das células embrionárias não é religiosa, [é] uma questão técnica, também estratégica.”

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Moriti Neto (entrevistador): O governo George Bush é ultraconservador. A comunidade científica enfrentou dificuldades? Nicolelis: Estou há vinte anos nos Estados Unidos: é o período mais difícil e opressor que já passei na América. Você sente que não tem liberdade de manifestar sua opinião. E sinto que o Brasil caminha seriamente para impor restrições na nossa vida cotidiana que vêm de uma posição religiosa dogmática. Nos Estados Unidos é pior, ao ponto de certos professores serem repreendidos por falar em Darwin no departamento de biologia.”

charles-darwinMylton Severiano (entrevistador): O senhor vai repatriar outros cientistas, não? Sim, parte do projeto Natal é repatriar os cérebros. O Brasil tem 11 mil cientistas no exterior. São trinta anos de gente indo embora. Mas eu não acredito que o voltar ou existir seja necessariamente só físico. Fui fisicamente porque me disseram que não tinha futuro aqui, entendeu? Fui embora, mas o Brasil nunca foi embora de mim. Acho que muita gente que está fora que foi e aprendeu algo, algo genial, que poderia voltar e ajudar o país, o que a gente precisava é falar “volta, vem pra cá! Está na hora de construir o Brasil.”

Leia a íntegra da entrevista de Miguel Nicolelis à revista Caros Amigos aqui.

Veja também a sabatina de Nicolelis ao jornal Folha de S. Paulo, aqui.



Categorias:ciência, educação

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