A postagem “produtos ‘naturais’ “, no blog 42, dá o que pensar. Obviamente que nem tudo o que é natural faz bem. Até água demais mata. Mas a história da postagem no blog 42 é mais complicada, pois se baseia em outra, “finalmente explicaram os ‘naturais “, do blog “nunca fui gorda”, que por sua vez remete à outra, “livro obrigatório”, no mesmo blog “nunca fui gorda”.
A autora do blog “nunca fui gorda”, a jornalista Francine Lima, menciona na postagem “finalmente explicaram os naturais” que
“(…) um dos propósitos é mostrar por que estamos tão errados quando acreditamos que “químico” é um adjetivo que confere uma qualidade ruim a algo que um dia foi natural e bom. Schwarcz quer que a gente entenda que tudo nesta vida é química, do funcionamento dos nossos corpos e mentes ao que comemos, ainda que seja a cenoura mais natureba colhida há cinco minutos no fundo do quintal.”
Muito esclarecedor. Mas a palavra “química”, tem diferentes conotações, dependendo do contexto. Pode ser algo ruim, como é comum em anúncios do tipo “shampoo sem química”, ou “pão sem química”. Porém, às vezes pode ser uma vantagem, como quando anunciada em cabeleireiros, “química em geral”. Porém, na maioria das vezes a palavra “química” leva o leigo a pensar em produtos artificiais. No caso de produtos alimentícios orgânicos, por exemplo, pode-se algumas vezes observar frases do tipo “sem produtos químicos”. Por exemplo, no Portal EcoDebate, pode-se verificar o seguinte texto:
“O Paraná é o segundo estado do Brasil com o maior índice de consumo de agrotóxicos, perdendo apenas para São Paulo. Ao mesmo tempo, ocupa igual colocação no ranking nacional como produtor de orgânicos, alimentos em cuja cadeia produtiva não entram agrotóxicos nem adubos químicos.”
Adubos “orgânicos” também são químicos, mas não são artificiais. Mas, os produtos artificiais são apenas “fabricados”, não são nocivos. São nocivos se mal utilizados. Muitos (se não a totalidade) dos adubos e agrotóxicos (ou defensivos agrícolas) foram testados em laboratório para verificar sua toxidez, e foram aprovados. O problema é o seu uso inadequado.
Outro exemplo: a aspirina. A aspirina é um analgésico cujo “princípio ativo” é o ácido acetil salicílico (AAS). Este é um medicamento “artificial”, sintetizado. Porém, a descoberta do AAS foi feita a partir do conhecimento popular sobre a árvore “chorão”, cuja casca era utilizada, muito tempo atrás, como analgésico. Químicos do século XIX obtiveram o ácido salicílico a partir do chorão. O ácido salicílico foi sintetizado e começou a ser utilizado como analgésico, mas demonstrou problemas causando gastrite e até úlcera nos pacientes. Sendo assim, os químicos da indústria Bayer desenvolveram o AAS, que é menos ácido do que o ácido salicílico. Atualmente, existe outra formulação do AAS, que é o acetil salicilato de sódio, ainda menos ácida, para pacientes com muita propensão a apresentar gastrite. No caso da aspirina, os químicos puderam “melhorar” o princípio ativo, o ácido salicílico, transformando-o no ácido acetil salicílico.
Mais um exemplo são os pigmentos para tingimento de tecidos. Até o fim do século XIX não se conheciam pigmentos sintéticos, apenas pigmentos naturais. Nesta época, um químico inglês, William Perkin, tentando descobrir um medicamento para tratar a malária sintetizou uma mistura de substâncias de intensa coloração roxa. Tão intensa que, mesmo diluída com muita água, a intensa coloração roxa persistia. Perkin então decidiu patentear sua preparação, com o objetivo de utilizá-la como pigmento para tecidos. O pigmento de cor roxa descoberto por Perkin, batizado de “mauve”, fez um enorme sucesso. Isso porque o único pigmento roxo que havia sido utilizado até então havia desaparecido da face da Terra séculos atrás: a púrpura do Tiro. Extraída de moluscos do gênero Murex, a púrpura do Tiro era considerado um pigmento para ser utilizado apenas por nobres e sacerdotes. Mesmo assim, a intensa exploração dos moluscos fez com que estes fossem extintos, e a cor roxa ficou praticamente inacessível para o tingimento de tecidos até a descoberta do “mauve” por Perkin. O incrível da história do pigmento “mauve” é que as estruturas dos compostos responsáveis pela cor roxa foram descobertas apenas em 2007! (veja aqui).


Finalmente, nem tudo o que é natural é saudável. Sócrates, o filósofo, que o diga. Foi obrigado a beber cicuta, extraída da planta Conium maculatum, e forçado a suicidar-se. Há cerca de 20 anos atrás, o consumo da planta denominada confrei (Symphytum officinale) levou algumas pessoas à morte, pelo fato das folhas conterem altas concentrações de substâncias extremamente tóxicas (alcalóides pirrolizidínicos).
Natural ou artificial, a química é sempre útil. O importante é bem conhecer as substâncias das quais se pretende utilizar, para os mais diversos fins. Afinal, a química encerra em si a essência dos processos celulares que mantém a vida, nas suas mais diversas formas. A química em si não constitui um problema – apenas produtos químicos mal utilizados.


Excelente artigo!