Outra notícia publicada no número de junho/2009 da revista Chemistry World relata estudos realizados por pesquisadores ingleses com a espuma produzida por sapos para proteger a prole recém-nascida. A espuma é produzida quando a fêmea-sapo libera seus ovos com um líquido, o qual é literalmente “batido” com os pés do sapo-macho enquanto este libera seus espermatozóides. O resultado é uma espuma protetora dos ovos que tem quase a consistência de claras-em-neve, e que pode permanecer com esta consistência por até 1 semana.
Os pesquisadores conseguiram caracterizar as proteínas que constituem a espuma, denominadas de ranaspuminas (do latim “rana”, sapo), e estabelecer as características necessárias para que a espuma seja estável em função das características surfactantes (detergentes) das proteínas. Estas mostraram ser da família das lectinas, comuns em muitas plantas, mas também em animais, e se agregam com carboidratos. Além disso, tais proteínas são antimicrobianas e detém a ação de predadores. Os pesquisadores verificaram que tais proteínas apresentam parte de sua estrutura tridimensional desestruturada, tal como a β-caseína do leite.
Outras proteínas surfactantes investigadas pelo mesmo time de pesquisadores são aquelas constituintes da espuma azul do sapo Polypedates leoumomystax. Esta proteína presenta dois resíduos similares a indofenóis, que complexam zinco, levando à formação da espuma azulada. Ainda não foi possível se estabelecer qual a real função da coloração azul nesta espuma.

Os estudos realizados pelos pesquisadores ingleses estimularam pesquisadores de outros países a realizarem estudos análogos. Pesquisa realizada sob a coordenação da Profa. Vania Maria Maciel Melo, do Centro de Ciências da Universidade Federal do Ceará, levou à desoberta de proteínas biossurfactantes de sapos do nordeste do Brasil. Todavia, a estrutura primária destas proteínas (a estrutura primária de proteínas se refere à sequência em que os aminoácidos estão interligados) é diferente da estrutura primária observada nas proteínas estudadas pelo grupo inglês.
Pesquisadores chilenos sob a coordenação do Dr. Juan Carlos Castilla, da Universidade de Santiago, descobriu que uma ascídia (um invertebrado marinho), Pyura praeputialis, também produz espuma para proteger sua prole. O grupo chileno verificou o mesmo fenômeno com uma espécie de molusco e uma espécie de estrêla-do-mar. Todavia, as “espumas marinhas” não são constituídas por proteínas, e sim por polissacarídeos.
Se estes estudos levarão à descoberta de potenciais aplicações destas espumas, tal fato é ainda uma incógnita. Cabe assinalar o comentário feito por Timothy Wess, especialista em biofísica na University of Cardiff (Reino Unido):
“Tenho acompanhado o desenvolvimento destas pesquisas na interface entre zoologia reprodutiva e química de proteínas, que poderá resultar em avanços para a biomedicina. Independentemente deste desenvolvimento ocorrer ou não, tais estudos demonstram ser importante financiar a pesquisa orientada pela curiosidade. Tudo isso é fascinante, e, considerando-se a possibilidade de combinar novas estruturas protéicas, novos intercruzamentos e cromóforos, melhor ainda.”
O artigo da revista Chemistry World contém as referências científicas dos estudos realizados com espumas de animais.

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