Mutações, Seleção Natural e Evolução

Monarcha castaneiventris

Notícia veiculada na edição deste domingo (05/06/09) no jornal Folha de S. Paulo relata investigação de pesquisadores da Universidade de Harvard que verificaram que, após sofrer mutação de um único gene, o pássaro Monarcha castaneiventris das Ilhas Salomão teve a coloração das penas ventrais alterada. Tal mudança foi suficiente para que indivíduos que não sofreram esta mutação parassem de se acasalar com as espécies mutadas. Esta mudança é a condição necessária para o surgimento de uma nova espécie.

Pássaros da ilha Makira, do arquipélago das Ilhas Salomon (Pacífico) apresentam coloração ventral alaranjada. Na Ilhota de Santa Ana, a menos de 10 km de makira, pássaros da mesma espécie apresentam coloração ventral preta. A análise do DNA das aves mostrou que uma mutação pontual em gene denominado MC1R, que modificou um único aminoácido de uma proteína, fez com que os pássaros de Santa Ana se tornassem pretos.

Observações similares foram registradas pelo mesmo grupo de pesquisa, coordenado pela bióloga Hopi Hoekstra, sobre um camundongo selvagem do gênero Peromyscus da Flórida (sul dos EUA). Os roedores de pelagem marrom tornaram-se quase brancos depois que colonizaram praias de areia branca na Flórida. No caso dos camundongos, no entanto, dois outros genes além do MC1R causaram a alteração em três etapas, ao longo de milhares de anos.

peromyscus

No caso dos pássaros das Ilhas Salomon, experimentos conduzidos pelo grupo de Jorge Uy, da Universidade de Siracusa (Nova York) mostraram que os pássaros de uma ilha não só não demonstram interesse sexual pelos da outra, como reconhecem seu aspecto e seu canto como os de uma espécie invasora e tendem a atacá-los. Uy e seu grupo afirmam que a cor da plumagem é responsável pelo reconhecimento.

Segundo Christopher Filardi, zoólogo do Museu Americano de História Natural e coautor do estudo, “Essas populações [de pássaros] estão em ilhas tão próximas que podem ser vistas uma pela outra. É uma distância pequena demais para implicar em especiação, a princípio. Alguma força está mantendo-as separadas”.

Essas mesmas aves, nas mesmas ilhas, foram observadas há 80 anos pelo zoólogo alemão Ernst Mayr (1904-2005). Mayr considerou os pássaros Monarcha castaneiventris um caso flagrante de especiação. Suas observações resultaram no conceito de biológico de espécie, adotado hoje pelos cientistas. De acordo com E. Mayr, espécies são conjuntos de indivíduos que cruzam entre si, mas que estão sexualmente isolados de grupos semelhantes. A definição de Mayr foi publicada em 1942, no livro “Sistemática e a Origem das Espécies”, que ajudou a resolver a questão que o próprio Charles Darwin deixara sem resposta: como surge a biodiversidade.

Mayr

Geralmente se imagina que a especiação só acontece após isolamento de indivíduos que permita o acúmulo de uma diferença genética significativa. Não é o caso dos pássaros das Ilhas Salomon. Embora haja cruzamentos eventuais entre pássaros de Makira e de Santa Ana, Filardi diz que os híbridos não se dão bem. “Eles são uma exceção que confirma a regra.” Como esses híbridos tendem a sobreviver e se reproduzir menos que as populações “puras”, com o tempo a tendência é que o fluxo gênico cesse de vez, e as populações das duas ilhas se tornem espécies distintas de fato.

A norte de Makira, uma outra ilha, Ugi, também é colonizada por papa-moscas pretos. Porém, para nova surpresa de Uy e seu grupo, as vias genéticas que levaram à mudança de cor em Ugi são diferentes. Tal fato sugere que diferentes mecanismos podem levar à formação de uma mesma espécie, em um processo extremamente dinâmico.

Tais fatos constituem exemplos contundentes de macroevolução através de processos de mutações acausais, que subsequentemente formam espécies através da seleção natural, como proposto por Darwin há 150 anos.

O trabalho com os pássaros das Ilhas Salomon foi divulgado na revista Science.



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