Cinco desafios em Ciência e Tecnologia

Artigo do presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Professor Marco Antonio Raupp, publicado na revista Scientific American – Brasil, traz à discussão temas relevantes em educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento. O artigo foi transcrito na íntegra a seguir. No fim, foram adicionados comentários do autor deste blog ao artigo do prof. Raupp.

Raupp

No último meio século, a atividade organizada de produção de conhecimento científico estabeleceu-se no país. No centro desse processo estiveram a reforma universitária, a institucionalizando a pós-graduação, e a estruturação de um sistema de apoio e financiamento à pesquisa e aos pesquisadores nas universidades e nos centros de pesquisa governamentais. Como indicador de resultados desse sistema, temos hoje que o Brasil participa com 2% da produção científica mundial – resultado significativo, pois mostra que o nosso sistema básico de produção de ciência está do “tamanho econômico do país”, já que esse índice é basicamente o mesmo da participação do PIB brasileiro no PIB mundial.

Estabelecida uma plataforma básica importante para a ciência e tecnologia (C&T), a responsabilidade de ampliação com qualidade e atenção às demandas e necessidades da sociedade e do desenvolvimento do país, pelo seu bom e pleno funcionamento, é grande. Implica o enfrentamento de desafios que merecerão dedicação e esforços iguais ou maiores que aqueles já empregados na construção do sistema básico. Apresento aqui cinco desses desafios, cuja superação é crucial para a saúde e o bom funcionamento do próprio sistema de C&T, para o reconhecimento de sua utilidade pela sociedade e para que as atividades dos cientistas contribuam para o equilíbrio social e regional do país.

O primeiro deles é a deficiente educação básica e média. A superação desse desafio requer o engajamento da comunidade científica. Não podemos nos furtar à participação, especialmente na questão do ensino das ciências e da matemática. As nossas melhores universidades devem priorizar a formação de bons professores, e em boa quantidade. Isso não vem ocorrendo. Pelo contrário, a formação de professores está sendo relegada àquelas instituições mais destituídas de condições e qualidades. Educação de qualidade é o mais importante requisito para a inclusão social.

ensino

A ampliação de vagas nas universidades públicas, sem perder a qualidade, é outro desafio. A vaga em instituição pública é a que de fato está aberta para os filhos da nova classe média, e o atendimento da demanda por profissionais de ensino superior e técnico é condição indispensável para o desenvolvimento do país.

A ciência brasileira está basicamente (cerca de 70%) localizada no Sudeste. Por razões estratégicas e de justiça federativa é uma situação que não pode perdurar, como um desafio para o planejamento estratégico e para as políticas de C&T. Temos de redirecionar investimentos federais e estimular fundações de amparo à pesquisa (Faps) locais, como já ocorre em alguns estados.

Em regiões como a Amazônia, o semiárido e a Plataforma Continental Marinha, o conhecimento científico é indispensável para uma intervenção econômica sustentável. É imperativa a atuação do sistema de ciência, tecnologia e inovação (C,T&I) nessas áreas. O aspecto estratégico impõe o desafio de equacionar devidamente essa questão como forma de amenizar dificuldades regionais.

semi-arido

Outro desafio está na necessidade de aproximação entre o sistema universitário e as atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) nas empresas. O Brasil já aprendeu a transformar recursos financeiros em conhecimento; agora, precisamos aprender a transformar conhecimento em riqueza. Além do estímulo à participação de pesquisadores em projetos de interesse da empresa, mecanismos como incubadoras de empresas nascentes nas universidades, parques tecnológicos congregando universidades, centros de pesquisas e empresas com interesse em tecnologia e inovação, podem ser estimulados por políticas públicas para criar pontes de cooperação, em benefício da economia nacional.

Finalmente, há o desafio de superar um gargalo que decorre do fato de a C&T ser atividade recente entre nós. Sendo transversal a todas as outras, sua superação é importante para a boa fluência das demais. Legislações desenvolvidas em outras épocas e situações, voltadas para outros propósitos são confrontadas e/ou questionadas sistematicamente pelas atividades demandadas pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país. São exemplos a coleta de material biológico de nossa biodiversidade, o uso de animais em experimentos científicos, a coleta e o uso de células-tronco embrionárias, as impropriedades legais na cooperação entre entidades científicas públicas e empresas privadas, o regime “ultrarrápido” nas importações de insumos científicos, e muitos outros.

celula-tronco

Alguns avanços estão ocorrendo, como a nova lei que regulamenta o uso de animais em pesquisa, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre células-tronco, a Lei de Inovação e a Lei do Bem. Mas entendemos que uma revisão geral para identificação de gargalos, incluindo um estudo sobre o status institucional das organizações de pesquisa e o regime de contratação de pessoal, entre outros, é absolutamente indispensável.

Marco Antonio Raupp é matemático, ex-diretor geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Comentários do autor deste blog:

O artigo do Professor Raupp é extremamente oportuno. Cabe algumas considerações sobre os cinco + 1 pontos levantados para discussão.

1. O primeiro deles é a deficiente educação básica e média – é evidente que a comunidade científica deve se engajar na formação de professores. Porém, tal engajamento, por si só, não garante que ocorram mudanças efetivas na formação dos alunos de 1º e 2º graus. Também é necessário que a carreira dos professores de alunos do ensino fundamental e médio seja muito mais valorizada. Que sejam oferecidas condições necessárias (de infra-estrutura e menor carga didática, por exemplo), muito melhores, para o trabalho de professores de 1º e 2º grau, de maneira a melhorar muito a formação dos alunos. Melhores salários, a implementação de um modelo de carreira nacional, que valorize a dedicação e o mérito, a reciclagem e a atualização de métodos pedagógicos, etc., etc., são de prima importância para que o ensino fundamental e médio possam efetivamente melhorar de qualidade.

2. A ampliação de vagas nas universidades públicas – novamente, o aumento do número de vagas nas universidades públicas não garante, necessariamente, que haverá um maior número de profissionais melhor qualificados para o mercado de trabalho. Na verdade, esta medida pode gerar efeitos contrários, uma vez que, sobrecarregando docentes universitários com atividades de ensino, estes diminuam suas atividades de pesquisa, que contribuem de maneira significativa para a melhoria e atualização do ensino universitário. É imprescindível que paralelamente ao aumento do número de vagas nas universidades públicas haja um investimento muito significativo em infra-estrutura destas universidades e na contratação de docentes plenamente qualificados para exercer a função de professor/pesquisador universitário.

infra-estrutura

3 – A ciência brasileira está basicamente (cerca de 70%) localizada no Sudeste. Por razões estratégicas e de justiça federativa é uma situação que não pode perdurar – o atual governo têm definido a destinação de recursos para pesquisa quando da abertura de editais específicos, o que é extremamente positivo. Todavia, é necessário se considerar que a concentração do desenvolvimento científico do Brasil na região sudeste decorre de fatores históricos. Não é possível se diminuir significativamente o investimento em ciência e tecnologia na região sudeste, por três razões simples: a) a região sudeste também faz parte do Brasil; b) a região sudeste contribui significativamente para a arrecadação de recursos para a União, e; c) a região sudeste ainda participa de forma positiva para a formação de quadros necessários para a expansão da ciência e tecnologia em outras áreas do Brasil. Sendo assim, é necessário que haja uma distribuição ponderada de recursos destinados aos investimentos em ciência e tecnologia nas diferentes regiões do país.

4 – Em regiões como a Amazônia, o semiárido e a Plataforma Continental Marinha, o conhecimento científico é indispensável para uma intervenção econômica sustentável – o autor deste blog concorda plenamente com esta proposta apresentada pelo Prof. Raupp.

5 – Outro desafio está na necessidade de aproximação entre o sistema universitário e as atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) nas empresas – é necessário avaliar este quesito com muita cautela. A universidade constitui o pólo de criação e desenvolvimento do saber, da forma mais diversa possível. Atualmente existe um forte componente direcionador por parte das agências de fomento para aplicação de recursos em inovação e desenvolvimento tecnológicos. Todavia, não é desejável se relegar a importância do desenvolvimento da ciência básica para segundo plano, sob pena de em pouco tempo a ciência do Brasil adquirir um forte caráter aplicado, e muito pouco caráter investigativo. É necessário que exista em equilíbrio na aplicação de recursos para a pesquisa, tanto de caráter básico quanto aplicado.

6 – Legislações desenvolvidas em outras épocas e situações, voltadas para outros propósitos são confrontadas e/ou questionadas sistematicamente pelas atividades demandadas pelo desenvolvimento científico e tecnológico do país – o Prof. Raupp aponta de maneira muito clara alguns dos inúmeros entraves burocráticos que a pesquisa científica e tecnológica enfrenta no Brasil. Quem perde com estes entraves é a sociedade e a economia brasileiras. Perdem os alunos, que não conseguem ter a melhor formação possível. Perde também a ciência do Brasil, que poderia apresentar maior competitividade. Enfim, perde a nação, como um todo.

O artigo do prof. Raupp é extremamente atual. Que sirva de ponto de partida para discussões muito mais extensas a aprofundadas sobre os inúmeros temas que apresenta. E que estas discussões possam levar a ações que conduzam, efetivamente, à mudanças e melhorias do desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.

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Categorias:ciência, educação, informação

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