Artigo publicado no último número da revista “Pesquisa FAPESP” ressalta a importância do domínio da língua inglesa para o sucesso na aceitação de trabalhos científicos em revistas internacionais. O artigo, intitulado “A barreira do idioma”, apresenta os resultados da tese de doutorado defendida por Sonia Maria Ramos de Vasconcelos, do Programa de Educação, Gestão e Difusão em Biociências do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A leitura do artigo é obrigatória, pois deve levar à reflexão sobre a importância do domínio da língua inglesa na redação de artigos científicos.
Aparentemente um bom conhecimento da língua inglesa parece ser negligenciado por boa parte da comunidade científica brasileira, pois o resultado da pesquisa indica que “entre os que haviam publicado um a dois artigos em periódicos internacionais em inglês no período de 2001 e 2004, 53% declararam bom desempenho no idioma escrito e apenas 7,8% informaram ter pouca competência. Na faixa dos que publicaram mais de 50 papers, 91,8% declararam–se totalmente proficientes – e nenhum afirmou ter pouca habilidade na língua escrita.” Levando-se em conta que a média da produção científica em química no Brasil é de aproximadamente 2,5 artigos/ano, isso significaria que pouco mais de 50% da comunidade acadêmica da química no Brasil apresenta boa proficiência em inglês.
Segundo o artigo da revista “Pesquisa FAPESP”, a falta de proficiência pode ser desastrosa para a publicação de artigos científicos, mesmo que os trabalhos apresentem bons resultados experimentais e análises dos dados. Editores de revistas científicas foram consultados pela pesquisadora, e disseram que perdem muito tempo tendo que corrigir erros lingüísticos de autores que não têm o inglês como sua língua materna, que tendem a ter seus trabalhos mais facilmente rejeitados.
Mais grave, porém, é o fato de editores terem assinalado a falta de estrutura lógica nos trabalhos científicos submetidos à publicação. Avaliações realizadas com pesquisadores e alunos de pós-graduação verificaram que muitos não conseguem descobrir qual é o propósito do artigo. Os resultados obtidos da tese de Sonia Maria Ramos de Vasconcelos foram muito elogiados. O projeto foi premiado em 2007 pela Eugene Garfield Foundation em cooperação com a Chemical Heritage Foundation. Os resultados foram discutidos num recente workshop da Associação Brasileira de Editores Científicos (Abec). O doutorado de Sonia Vasconcelos corrobora trabalhos anteriores, desenvolvidos por Rogério Meneghini e Abel Packer publicado na revista EMBO Reports em 2007.
O artigo ressalta ainda a necessidade de se reforçar, ainda mais, a necessidade de se exigir uma real proficiência em inglês dos alunos de pós-graduação. Aparentemente, o atual sistema de avaliação de proficiência não vem cumprindo seu papel, uma vez que os alunos aprendem apenas o inglês coloquial, do dia-a-dia, mas não o inglês científico.
Levando-se em conta que o ensino de inglês no ensino médio e universitério é muitas vezes relegado a segundo plano, os resultados desta pesquisa não surpreendem. Não somente é falha a formação de base em língua inglesa dos estudantes brasileiros, como também a redação em português. Se os estudantes não sabem como elaborar um bom texto científico em português, como poderão fazê-lo em inglês? Seria realmente importante que professores e pesquisadores universitários se interessassem em elaborar estratégias para minimizar tais deficiências. Muitos cursos de graduação, outros que de letras e lingüística, já oferecem cursos complementares de português dirigidos para a elaboração de textos científicos. Além disso, é extremamente importante que os alunos aprendam como funciona o método científico, em termos de estrutura lógica e argumentativa. A leitura de textos científicos deve ser obrigatória, mesmo para alunos que não pretendam seguir carreira acadêmica, para que adquiram uma sólida formação profissional. Tanto professores como alunos devem perceber que não basta “fazer o mínimo” para que se ensine ou aprenda apenas o necessário. O necessário é muito pouco. É preciso formar profissionais com espírito crítico aguçado, de maneira a exercer suas atividades com criatividade e competência. E, atualmente, para muitas áreas de atuação profissional o bem conhecimento do inglês é um pré-requisito fundamental.
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