Artigo de título no mínimo provocativo, ou pretensioso, publicado ontem na revista Science por Gary J. Nabel (pesquisador do National Institutes of Health, EUA), traz o tema “método científico” para discussão. O autor apresenta o “modelo científico clássico”, baseado na formulação de hipóteses e sua comprovação, e sugere modelo alternativo, o qual se fundamenta em “decisão, informação e teoria dos jogos”.
O modelo proposto por Nabel se fundamenta no refino da elaboração de hipóteses, de maneira a melhorar sua precisão. Muitas vezes hipóteses são reformuladas a partir da coleta de resultados experimentais, que levam a caminhos inesperados. Em outros casos, os dados obtidos podem anular completamente uma determinada hipótese. Sendo assim, para ser “bem formulada”, e apresentar certo grau de predição e acurácia, uma hipótese deveria ser bem fundamentada. Para isso, o autor sugere o emprego da “biologia de sistemas” (systems biology; expressão difícil de ser traduzida!), que provê um grande volume de dados experimentais, e permite a elaboração de hipóteses altamente refinadas. O autor explica que “o aumento da densidade de informações aumenta significativamente a maneira de se definir as coordenadas de uma hipótese que apresenta sua solução”. Também propõe que, utilizando este modelo, cientistas poderiam propor e testar hipóteses de maneira mais racional na elaboração de projetos de pesquisa a serem submetidos à avaliação por pares. Neste processo, a avaliação levaria em conta as hipóteses apresentadas segundo este modelo e o mérito das mesmas (hipóteses).
Segundo Nabel, os cientistas não se utilizam do modelo científico vigente para valorizar suas pesquisas. Questiona, de maneira direta, a real utilização do modelo da biologia de sistemas, dizendo que “se a biologia de sistemas não está conectada às questões científicas, não poderá levar a novas idéias fundamentais”. No caso da biologia de sistemas, esta não necessita ser direcionada por hipóteses, e sim encontrar uma resposta para uma questão específica. Argumenta que, embora os avanços tecnológicos tenham promovido progresso de uma maneira geral, a inovação tecnológica por si só não constitui a solução para avanços científicos. Questiona a utilização do modelo científico vigente, que se baseia na verificação experimental de hipóteses de acordo com uma determinada metodologia, a qual deve ser avaliada de maneira crítica, além do valor do problema apresentado quando da formulação da(s) hipótese(s), que deveriam ser viáveis e de alto impacto. Finaliza seu artigo dizendo que “a formulação de hipóteses pode gerar certo corpo de conhecimento, a partir do qual emergem novas idéias”, e que a utilização desta abordagem pode ajudar a consolidar fundamentos que levem à transformação das ciências médicas e biológicas (áreas de atuação de Nabel).
Opinião do autor deste blog: embora o artigo traga à discussão a utilização da tão em moda “biologia de sistemas”, as idéias apresentadas pelo autor não são realmente novas. Se levarmos em conta idéias que são realmente geniais, pode-se dizer que Einstein utilizou-se de um “modelo holístico” para buscar evidências para sua Teoria do Campo Unificado. Outros também desenvolveram abordagens similares, como por exemplo os autores da Moderna Síntese da Biologia, que unificou a taxonomia, a genética, a ecologia, a citologia, a embriologia, a paleontologia e a teoria da evolução. Apenas a coleta de dados não foi realizada de maneira sistemática e, eventualmente, de uma só vez, e direcionada para explicar um fenômeno específico. Mas a integração de informações interdisciplinares se mostra de extremo valor quando se quer formular hipóteses mais profundas para se encontrar generalizações válidas para um vasto conjunto de disciplinas.
Outros pontos válidos para uma discussão sobre o artigo de Nabel são: o real valor da inovação tecnológica para a solução dos problemas atuais, bem como a real utilização do modelo científico vigente (ou do proposto pelo autor) para a elaboração de propostas científicas. No meu ver, a inovação tecnológica, por si só, pode resultar em uma possível boa aplicação de recursos para pesquisa. Mas o retorno do investimento não é garantido, pois além do eventual sucesso do desenvolvimento de um determinado projeto, há que se assegurar a transferência do conhecimento gerado para o setor produtivo. Este é um ponto de gargalo no quadro atual do financiamento científico no Brasil.
Além disso, NADA garante que inovação tecnológica irá resultar na geração de conhecimento “de fronteira”. Na verdade, a história da ciência moderna abunda em exemplos de que grandes avanços tecnológicos, sim, resultaram de grandes descobertas de caráter fundamental. Por exemplo, a descoberta do LASER, também por Einstein.
Mal compreendido (?), o livro de Donald Stokes, “O quadrante de Pasteur”, ilustra muito bem a importância em se valorizar a pesquisa de caráter fundamental, básico. Muitas vezes tem-se a impressão que este livro serviu de modelo para a implementação de uma nova filosofia de financiamento da pesquisa no Brasil. Todavia, se consideram válidos, de maneira muito mais significativa, os quadrantes de Pasteur e de Edison. O quadrante de Bohr parece ter tido sua importância minimizada.
De qualquer maneira, o tema trazido à discussão por Nabel é extremamente interessante. Vale a pena ler o artigo. Quanto a adotar suas propostas… bom, isso é outra história.
O artigo de G. J. Nabel, The coordinates of Truth, Science, 2009, 326, pp. 53-54, pode ser obtido aqui (para os que têm acesso à assinatura da revista).
Categorias:ciência, educação, informação


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