Investigação sobre toxinas produzidas por Mycobacterium ulcerans, coordenada por Yoshito Kishi (Department of Chemistry and Chemical Biology, Harvard University), levou os autores a verificarem que ocorre variação na produção de estereoisômeros da toxina de acordo com a origem da micobactéria: se de água doce ou de água salgada.
Mycobacterium ulcerans é responsável por uma doença que causa necrose na pele, a úlcera de Buruli. (veja aqui e aqui) Dentre as micobactérias patogênicas, Mycobacterium ulcerans só é menos perigosa do que Mycobacterium tuberculosis (que causa a tuberculose) e Mycobacterium leprae (que causa hanseníase). As substâncias tóxicas de Mycobacterium ulcerans foram descobertas em 1999, e foram denominadas micolactonas A/B, uma mistura de duas substâncias em equilíbrio. Depois da descoberta inicial destas substâncias, substâncias parecidas foram descobertas a partir de Mycobacterium ulcerans isoladas de peixes e de sapos. Vários destes compostos tiveram suas estruturas confirmadas por sua síntese completa. Os estudos de Kishi levaram à descoberta de que a estereoquímica da cadeia ligada ao grande sistema cíclico pode variar entre as substâncias isoladas; no entanto, a estereoquímica das micolactonas A/B é sempre a mesma.
No caso da micolactona F, os autores decidiram investigar se a estereoquímica da cadeia lateral apresentava variação de acordo com sua origem: se isolada de fonte marinha ou de água doce. Assim, analisaram a micolactona F isolada de Mycobacterium marinum obtida de peixes de água salgada e de água doce. Os autores primeiro prepararam as duas substâncias por síntese completa, e desenvolveram um método para conseguir analisar as duas substâncias, utilizando cromatografia com coluna quiral (HPLC quiral). Como os dois estereoisômeros da micolactona F, designados micolactona F e dia-micolactona F, também sofrem isomerização em suas ligações duplas, os autores do estudo tiveram que induzir a isomerização sob ação da luz. Desta maneira, as duas toxinas produziram 3 substâncias diferentes cada uma, sendo que todas puderam ser analisadas por HPLC quiral. Após as análises das duas toxinas de origem marinha e de água doce, os autores observaram que aquela de origem marinha era somente a micolactona F e a de água doce somente a dia-micolactona F.
Os autores assinalam que a origem da variação da estereoquímica das micolactonas F ainda é desconhecida, mas que certamente deve estar sob regulação genética.
O artigo por H.-J. Kim, K. L. Jackson, Y. Kishi, H. R. Williamson, L. Mosi, P. L. C. Small, “Heterogeneity in the stereochemistry of mycolactones isolated from M. marinum: toxins produced by fresh vs. saltwater fish pathogens”, foi publicado on-line pela revista Chemical Communications (DOI: 10.1039/b917014f).
Comentário: que coragem de trabalhar com estas substâncias. Já pensaram se cair na mão? Kishi é um dos grandes químicos orgânicos de síntese. Realizou as primeiras sínteses completas da tetrodotoxina e da palitoxina, e muitas outras.
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