É melhor não mexer com formigas – elas podem se exasperar. E isso realmente acontece entre formigas de um mesmo formigueiro para disputar parceiros, bem como entre formigas de diferentes espécies. O estudo, realizado pelo grupo de pesquisa coordenado pelo Prof. Neil D. Tsutsui (Department of Environmental Science, University of California, Berkeley, EUA), descobriu quais são as substâncias químicas que participam como “sinalizadores de comportamentos sociais” entre formigas de formigueiros diferentes e de um mesmo formigueiro. O estudo foi realizado com formigas da espécie argentina Linepithema humile. Embora de origem argentina, esta espécie é atualmente encontrada na Austrália, Japão e Estados Unidos. Na Califórnia, esta espécie é especialmente agressiva contra formigas nativas e causa distúrbios ecológicos relacionados a culturas agrícolas e declínio da população de uma espécie de salamandra que se alimenta de formigas da espécie nativa dos EUA.
Em seu habitat natural, indivíduos da espécie L. humile são agressivos entre indivíduos da mesma espécie quando estão em competição por alimento. Os formigueiros tendem a ser pequenos. No entanto, uma vez que invadem território alheio, se transformam em um verdadeiro exército para expulsar outras espécies competidoras. Este comportamento teria base genética, segundo Neil Tsutsui. “O que impressiona mais”, segundo o pesquisador, “é que indivíduos da mesma espécie, mas que habitam territórios diferentes, podem se reconhecer”, fato que foi comprovado após realizar estudos com indivíduos da mesma espécie de San Diego e de São Francisco (California, EUA), cidades distantes de mais de 900 km.
Os pesquisadores conseguiram identificar as substâncias responsáveis pela “comunicação química” entre indivíduos de L. humile como sendo hidrocarbonetos de cadeia longa similares aos encontrados em cutículas de plantas. Após a identificação os autores sintetizaram os hidrocarbonetos para realizar testes comportamentais com as formigas.
Quando aplicaram as substâncias em alguns indivíduos, outras formigas não tratadas apresentaram comportamento extremamente agressivo contra as tratadas. O nível de agressividade aumentou com o aumento da concentração dos hidrocarbonetos, e também quando estes foram aplicados na forma de misturas. Os resultados podem fornecer subsídios para posteriores estudos sobre o comportamento social de formigas, e também para o eventual desenvolvimento de formicidas.O artigo de autoria de Miriam Brandt, Ellen van Wilgenburg, Robert Sulc, Kenneth J Shea and Neil D. Tsutsui, “The scent of supercolonies: the discovery, synthesis and behavioural verification of ant colony recognition cues” publicado na revista BMC Biology 2009, 7:71 de acesso livre, pode ser baixado aqui.
Formigas podem ser terríveis. Muitas produzem e acumulam ácido fórmico (daí o nome do ácido, HCO2H). Mas muitas outras produzem e acumulam peptídeos e alcalóides. Por exemplo, as solenopsinas da formiga do fogo (Solenopsis invicta) ou as tetraponerinas da espécie Tetraponera sp., nativa da Papua Nove Guiné.
Atualização em 31/10/2009: artigo de revisão sobre este assunto, de autoria de Stephen Martin e Falko Drijfhout, foi disponibilizado on-line pela revista Journal of Chemical Ecology em 29/10/2009. Veja aqui.
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