Quais os critérios escolhidos por cientistas para citar uns, e não outros, trabalhos científicos quando elaboram seus artigos? Aparentemente, pouco claros, para dizer o mínimo. Artigo publicado no Journal of the American Society for Information, Science and Technology por María del Mar Camacho Miñano e Manuel Núñez Níckel, da Universidad Complutense de Madrid e UC3M, discute tais aspectos.
As citações “são tudo” na avaliação de pesquisas e pesquisadores. Os critérios de relevância científica estão atualmente fortemente embasados no número de citações que um determinado autor possui, no seu índice h (índice h = número de trabalhos publicados com o mesmo número de citações. Ou seja, se um pesquisador possui 10 trabalhos publicados, o 1º com 1000 citações, o segundo com 500, o terceiro com 465, o quarto com 322, o quinto com 300, o sexto com 198, o sétimo com 51, o oitavo com 31 o nono com 17 e o décimo com 10, seu índice h é 10) e no fator de impacto das revistas em que publica (que são determinados pelas citações que tais revistas recebem). Eventualmente, consideram-se também outros fatores na avaliação do trabalho dos pesquisadores: quantos alunos de mestrado e doutorado formou, onde seus ex-alunos trabalham, se ganhou prêmios, etc. As implicações da avaliação dos pesquisadores são várias: obtenção de financiamento para pesquisa, reconhecimento, progressão na carreira, melhor classificação no quadro geral de pesquisadores na área em que atua, e, até mesmo, maior facilidade em publicar em revistas de melhor qualidade científica.
O problema apontado por Miñano e Níckel é que nem sempre autores de trabalhos científicos utilizam critérios “adequados” para selecionar quais referências bibliográficas citar em seus artigos. Em vez de selecionar tais referências de acordo com sua importância para substanciar o trabalho em elaboração, muitas vezes os artigos citados são “escolhidos a dedo”. Isto leva a uma “discriminação escondida”, segundo os autores, difícil de ser detectada. Mas nem tanto.
Segundo Miñano e Níckel, tal discriminação pode ser resumida a três aspectos: características pessoais dos autores de um determinado trabalho (sexo, raça, onde obtiveram o doutorado, afiliação profissional prévia, se algum dos autores toma parte no corpo editorial de alguma revista, etc.); características do artigo a ser citado (metodologia empregada, número de páginas, se é uma contribuição original ou uma revisão bibliográfica), e; em qual revista o artigo a ser citado foi publicado (revistas com maiores fatores de impacto tendem a ser mais citadas).
Tal comportamento “pouco profissional” parece até mesmo ser estimulado por editores e revisores, que reforçam a necessidade de que sejam citados trabalhos da própria revista para a qual determinado artigo foi submetido para publicação. Segundo Miñano e Níckel, a justificativa de editores seria: se nossa revista não é interessante que seja citada, por que o artigo foi submetido para a nossa revista?
Uma possível solução para se evitar tal problema é que os editores notifiquem os revisores (aqueles que avaliam os artigos submetidos para publicação) sobre a ocorrência de tais problemas, advertindo que trabalhos relevantes para substanciar o artigo sob avaliação devem ser necessariamente citados. Resta saber se os próprios editores teriam interesse em eventualmente “abrir mão” que artigos de sua própria revista fossem citados. De qualquer maneira, autores devem estar sempre atentos para citar artigos que sejam realmente importantes, de maneira a fornecer subsídios adequados para o seu próprio trabalho ser avaliado.
De acordo com Miñano e Níckel, o comportamento “amoral” em se citar trabalhos pouco importantes, ou de nenhuma importância, é bastante comum. Núñez Níckel afirma que “a ciência raramente é altruística, mas na maioria das vezes egoística.” E assinala que determinadas áreas de pesquisa estão sujeitas à degeneração ou estagnação em decorrência de tal comportamento por parte de cientistas.
Infelizmente, no que se refere às citações, tudo é possível, e quase nada controlável. Até cerca de 10-15 anos atrás, quando tais índices (h, de número de citações, de fator de impacto das revistas) ainda inexistiam, o “fazer científico” parecia ser menos tendencioso. Porém, não é possível se voltar no tempo, mas apenas refletir sobre o presente para, pelo menos, tentar se vislumbrar um futuro um pouco mais nobre para a ciência.
Referências
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Camacho-Miñano, M., & Núñez-Nickel, M. (2009). The multilayered nature of reference selection Journal of the American Society for Information Science and Technology, 60 (4), 754-777 DOI: 10.1002/asi.21018
MacRoberts, M., & MacRoberts, B. (2009). Problems of citation analysis: A study of uncited and seldom-cited influences Journal of the American Society for Information Science and Technology DOI: 10.1002/asi.21228
Categorias:ciência, educação, informação
Roberto
Muito boa a sua resenha sobre este estudo. Como vc ficou sabendo desse paper??
(feliz natal !)
Marcelo
ps: Voltei ao meu tenha predileto, a fraude. Mas nao tenho a sua paciencia para fazer um post tao bem elaborado.
Caro Marcelo,
Fiquei sabendo pela assinatura dos RSS feeds do ScienceDaily. Muito bom, eles divulgam muitos trabalhos científicos interessantes (mas menos do que o EurekAlert, que divulga MUITOS todos os dias).
Feliz natal para você e sua família também.
Roberto.