Os primeiros resultados de um amplo estudo realizado em dez países da África sub-saariana (ou seja, África meridional, abaixo da região do Saara) revela que uma alta porcentagem de medicamentos utilizados no tratamento da malária é de qualidade muito inferior à necessária. E, por conseqüência, podem levar ao surgimento de linhagens resistentes do parasita causador da doença, o Plasmodium falciparum.
Os resultados foram divulgados pelo programa “Promovendo a Qualidade de Remédios (Promoting the Quality of Medicines Program), implementado pela Convenção da Farmacopéia Americana (US Pharmacopeial Convention), para três dos dez países avaliados: Madagascar, Senegal e Uganda. Tais resultados fazem parte de um programa mais amplo, denominado “Qualidade dos Antimaláricos na África Sub-saariana” (Quality of Antimalarials in Sub-Saharan Africa), conduzido em parceria com a Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, WHO). O estudo avaliou 491 medicamentos para o tratamento da malária, dos quais 197 foram avaliados em testes completos de controle de qualidade. A avaliação focalizou a análise de medicamentos tendo por princípio ativo a artemisinina (produto natural isolado da planta Artemisia annua, oriunda da China) em combinação com anti-maláricos sintéticos. Tais medicamentos são os de primeira linha, recomendados pela OMS para o tratamento da malária em pacientes de quadro clínico simples. Foram avaliados também medicamentos tendo por base sulfadoxina e pirimetamina, comumente empregados para o tratamento de mulheres com malária durante a gravidez. Amostras foram coletadas do público em geral, de órgãos reguladores e de mercados informais (pontos de venda). Foram encontradas inúmeras amostras de qualidade inferior, bem como amostras falsificadas, consideradas de alto risco para o tratamento da doença em países africanos, da Ásia e da América Latina. Tais medicamentos afetam severamente a saúde dos pacientes em promovem o surgimento de linhagens resistentes do parasita patogênico.
No caso da avaliação realizada, 44% das amostras do Senegal, 30% das amostras de Madagascar e 26% das amostras de Uganda demonstraram ser de qualidade muito inferior: apresentam baixas concentrações dos princípios ativos, não são adequadamente absorvidas pelo corpo e apresentam quantidades inaceitáveis de impurezas muitas vezes tóxicas para humanos. Dentre os medicamentos testados nos 3 países, 35% mostraram ser completamente insolúveis em condições fisiológicas e 29% mostraram apresentar um alto índice de contaminantes. Também se verificou que, quando medicamentos produzidos por determinada companhia farmacêutica apresentam falhas em um dos países, também apresentam nos outros, demonstrando que o problema NÃO É DURANTE A ETAPA DE DISTRIBUIÇÃO, E SIM DURANTE A FABRICAÇÃO DOS MEDICAMENTOS. Evidentemente, também foi constatado que medicamentos de pior qualidade são encontrados em regiões onde a fiscalização é deficiente. Em Uganda, por exemplo, a qualidade dos medicamentos encontrada em órgãos públicos é muito melhor do que os encontrados em instituições privadas.
O estudo alertou autoridades da OMS e de órgãos internacionais sobre o problema do tratamento de malária na África, e levou a tomar iniciativas enérgicas para melhorar tal quadro. Todavia, é de se considerar que tais medidas foram tomadas pelo fato que africanos imigrantes contaminados com P. falciparum resistente podem levar o parasita para países desenvolvidos e contaminar pessoas destes países, através da transmissão via mosquitos (principalmente Anopheles spp.).
O problema da qualidade dos medicamentos na África não é novo, e foi muito bem retratado no filme “O Jardineiro Fiel”, dirigido por Fernando Meirelles. O filme retrata a organização criminosa de uma indústria farmacêutica e representantes governamentais, que utilizam a população para testar um novo medicamento para o tratamento da tuberculose.
Desde o Renascimento na Europa que os povos da África foram continuamente dominados, explorados e aniquilados, primeiro na forma de escravos, depois suas riquezas naturais, e agora como cobaias humanas. Assim a “civilização ocidental” dá seu belo exemplo de como constrói sua história.
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