Cogumelos contra depressão

Em poucos dias, de 15 a 18 de abril, será iniciado o congresso MAPS’ 2010, em San José, na Califórnia, como tema “Psychedelic Science in the 21st Century”. Segundo notícia divulgada no jornal Folha de S. Paulo on-line de hoje,

(…) o encontro reunirá cientistas do mundo inteiro para discutir as possibilidades terapêuticas de alucinógenos contra problemas como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. As substâncias alucinógenas em discussão são as encontradas em vários tipos de cogumelos. O potencial terapêutico desses alcalóides, que têm efeitos parecidos com o do LSD, suscita a curiosidade de cientistas desde os anos 1950. Nos anos 60, o professor de Harvard Timothy Leary ficou famoso ao propor efeitos terapêuticos dos alucinógenos.

As pesquisas [com substâncias de cogumelos] foram interrompidas depois dos abusos cometidos naquela década. Os estudos atuais ocorrem em centros de excelência e universidades reconhecidamente sérias, como Johns Hopkins, Harvard, New York University e Universidade da Califórnia. Um deles, realizado na Johns Hopkins University, mostra que a psilocibina – princípio ativo de cogumelos sagrados usados em rituais indígenas – induz mudanças positivas no comportamento, no humor e nas atitudes, efeitos que duram meses após a ingestão da droga. A pesquisa envolveu 36 pessoas e usou um grupo controle, que ingeriu placebo. Depois de 14 meses, o grupo que tomou a droga relatou se sentir melhor e mais satisfeito com a vida. A mesma equipe de pesquisadores avalia o uso da droga em pacientes com depressão em tratamento contra o câncer.

Na Califórnia, pesquisadores relatam experiências de sucesso com o uso da psilocibina para aliviar a ansiedade de pacientes com doenças terminais. Segundo os autores, ela ajuda essas pessoas a enfrentar medo, pânico e depressão. Como as reações a esse tipo de droga variam de pessoa para pessoa, os pesquisadores estão desenvolvendo protocolos para controlar os efeitos com mais precisão e também têm observado, com exames de imagem, as mudanças no cérebro sob influência das drogas.



“Alguns cientistas têm se interessado em estudar essas drogas para casos que não respondem à medicação clássica”, diz a psiquiatra Camila Magalhães, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, de São Paulo, e coordenadora do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool. “Essas drogas propiciam experiências que a pessoa não tem com o uso da medicação. No entanto, há um risco muito grande de expor o indivíduo aos prejuízos que os alucinógenos podem causar.” A psiquiatra diz que “Não se sabe como a pessoa vai reagir. Em pessoas com predisposição, podem levar a distúrbios psiquiátricos”.

“É preciso avaliar muito bem o custo-benefício desse uso, o risco é muito grande”, concorda o toxicologista Anthony Wong, chefe do Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica), do Instituto da Criança do HC de São Paulo.

“A cocaína tem efeitos anestésicos e os opiáceos, analgésicos. Mas ainda não se conseguiu usar terapeuticamente nenhuma substância alucinógena”, afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo.

O uso de cogumelos alucinógenos ganhou notoriedade durante os anos 60-70, não somente com as experiências realizadas com LSD (a dietilamida do ácido lissérgico), mas também com a publicação de livros escritos por Carlos Castañeda sobre suas experiências com um índio do deserto de Sonora no México, Don Juan. Carlos Castañeda, brasileiro de origem, era antropólogo formado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles. Castañeda escreveu vários livros (mais de 10), mas o primeiro, “A Erva do Diabo”, foi aquele que ficou famoso pelo relato detalhado das experiências do autor com plantas alucinógenas do México. Um trecho do livro é transcrito a seguir.

Dom Juan utilizava, separadamente e em ocasiões diferentes, três plantas alucinógenas: o peiote (Lophophora williamsii), a datura (Datura inoxia syn. D. meteloides) e um cogumelo (possivelmente Psilocybe mexicana). Desde antes de seu contato com os europeus, os índios americanos já conheciam as propriedades alucinógenas dessas três plantas. Devido a suas propriedades, elas têm sido vastamente empregadas para o prazer, para curas, para a feitiçaria e para atingir um estado de êxtase. No contexto específico de seus ensinamentos, Dom Juan associava o uso da Datura inoxia e da Psilocybe mexicana para a aquisição do poder, um poder que ele denominava “aliado”. Associava o uso da Lophophora williamsii à aquisição da sabedoria, ou o conhecimento da maneira certa de viver.

Para Dom Juan, a importância dessas plantas residia em sua capacidade de provocar estados de uma percepção especial num ser humano. Assim, ele me levou a experimentar uma série desses estados com o objetivo de expor e dar validez a seu conhecimento. Eu os denominei “estados de realidade não comum”, significando uma realidade incomum, ao contrário da realidade da vida de todo dia. A distinção baseia-se no significado inerente dos estados da realidade não comum. No contexto do conhecimento de Dom Juan eram considerados reais, embora sua realidade fosse diferenciada da realidade comum.

Os relatos de Castañeda de suas experiências são extremamente detalhados. Justamente este ponto chama a atenção, uma vez que são estados muitas vezes confusos, delirantes, durante os quais o raciocínio não pode ser mantido de maneira coerente. O uso de substâncias como a psilocibina e outros alucinógenos pode ser extremamente interessante para se estudar processos neurológicos e se desenvolver novas formas de tratamento de doenças de fundo psicológico, como a depressão. Mas muita pesquisa deve ser desenvolvida antes que medicamentos com base nestes compostos venham a ser utilizados.



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