Camundongos produzem morfina.

A morfina é um dos mais antigos constituintes químicos vegetais que se conhece. É obtida do ópio, que por sua vez é preparado a partir do látex da papoula (Papaver somniferum). A morfina foi pela primeira vez isolada como substância química em 1804, e já em 1817 começou a ser comercializada como analgésico (para suprimir a dor). Porém, a estrutura química da morfina só foi estabelecida em 1925.

A heroína, considerada uma das drogas mais “pesadas” que se conhece, é a diacetilmorfina, um produto sintético preparado a partir da morfina. A heroína vicia em doses extremamente baixas. A morfina também causa dependência química, e por isso só é utilizada no tratamento de doentes terminais de câncer, que podem sofrer de muitas dores.

Pois bem, até recentemente se achava que a morfina e seus derivados (como a codeína) só eram encontrados em plantas. Porém, pesquisadores dos EUA e da Alemanha descobriram que camundongos produzem sua própria morfina. Os pesquisadores prepararam a tetrahidropapaverolina marcada com deutério (um dos isótopos do hidrogênio, de 2 unidades de massa atômica), e forneceram esta substância a camundongos. Depois de algum tempo, fizeram a análise da urina dos camundongos e detectaram morfina “marcada” com deutério. Ou seja, desta forma os autores indicaram que os camundongos provavelmente biossintetizam morfina, de maneira muito parecida como esta é produzida em plantas.

Não se sabe ainda qual a real função da morfina para os camundongos. Mas sempre achei surpreendente de saber que o corpo humano têm receptores para as substâncias da maconha, os canabinóides. É bem possível que os humanos também biossintetizem a morfina. Para quê, boa pergunta.

ResearchBlogging.orgGrobe, N., Lamshoft, M., Orth, R., Drager, B., Kutchan, T., Zenk, M., & Spiteller, M. (2010). Urinary excretion of morphine and biosynthetic precursors in mice Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (18), 8147-8152 DOI: 10.1073/pnas.1003423107



Categorias:ciência, educação, informação, química

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5 respostas

    • Pô, Marcelo, assim não vale. Você me pegou e eu nem tinha terminado de postar…

      Muito obrigado pelo comentário. É o que eu também acho.

      Resta saber se produzimos mesmo e, se sim, como adquirimos esta capacidade ao longo da evolução.

  1. Oi Roberto, eu li este paper e fiquei muito intrigado. De fato, ainda sabemos muito pouco sobre a fisiologia opióide e mais surpresas virão. Vou add seu blog em minha lista de blogs científicos, confere lá: http://neuropapers.blogspot.com
    abraço

    • Caro Alexandre,

      Tudo bom? Muito obrigado por seu comentário. Visitei teu blog e achei bem bacana. Específico de tua área de atuação, né? Excelente. Divulgação científica é importantíssima.

      Achei esta história da morfina simplesmente incrível. Como que camundongos podem ter adquirido uma regulação gênica para a biossíntese deste alcalóide?

  2. Ola Berlinck,
    Tinha visto o titulo do artigo mas nao tinha dado muita atenção!
    Agora com a sua mensagem fui ler o artigo!
    Como funcionariam os recptores opióides? Se for possivel fazer alguma conexao, quem sabe encontramos alguma explicação?

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