O que é o Movimento do Design Inteligente

O Movimento do Design Inteligente (MDI) é um movimento de ideologia criacionista, que nasceu nos EUA na década de 80, depois que a limitação do ensino da teoria da evolução nas escolas foi finalmente abolida pelo congresso norte-americano. Esta limitação surgiu em 1920, depois do julgamento de Scopes, quando um professor de ciências foi condenado por ensinar a teoria da evolução em sala de aula. Ao longo de 40 anos o ensino da teoria da evolução foi abandonado nos EUA, até que, quando do lançamento da nave Sputnik pela União Soviética em 1957, a sociedade americana “acordou” e percebeu que um eventual atraso do desenvolvimento da ciência poderia ser desastroso para o país. O ensino da teoria da evolução foi re-introduzido, e o ensino do criacionismo foi banido em 1983.

Com a proibição do ensino do criacionismo em aulas de ciências, setores extremamente conservadores dos EUA se organizaram e criaram o Discovery Institute em Seattle (estado de Washington), de onde surgiu o Centro para a Renovação da Ciência e Cultura. Este deu origem ao MDI, cujo objetivo é questionar e atacar a filosofia naturalista sobre a qual se fundamenta a ciência, a filosofia, a cultura e a política atuais, para substituí-la por uma ideologia cristã fundamentalista. De acordo com William A. Dembski, um dos proponentes do MDI, “Naturalismo é doença. Projeto Inteligente é a cura.” (Dembski, Intelligent Design, página 120).

O Movimento do Design Inteligente (MDI) surgiu de um encontro realizado na Southern Methodist University em 1992. A este encontro compareceram aqueles que fundariam o movimento: Phillip E. Johnson, Michael Behe, Stephen Meyer e William Dembski. Behe apresentou ao grupo a idéia que seria a semente original da ideologia do MDI: seu conceito de complexidade irredutível.

No verão de 1995, o grupo realizou a conferência “The Death of Materialism and the Renewal of Culture,” (“A Morte do Materialismo e a Renovação da Cultura”), que serviu de base para a fundação do Centro para a Renovação da Ciência e Cultura no ano seguinte. Johnson publicou outro livro, “Reason in the Balance: The Case Against Naturalism in Science, Law and Education (A Razão em Avaliação: O Caso contra o Naturalismo na Ciência, Direito e Educação), no qual se posicionou claramente contra o naturalismo metodológico. O Centro para a Renovação da Ciência e Cultura (CRSC, Centre for Renewal of Science and Culture) se deu com a formação do “núcleo duro” do Movimento do Design Inteligente: Stephen Meyer, John G. West, Jr., William Dembski, Michael Behe, Jonathan Wells, Paul Nelson e Phillip Johnson.

Em 1996, Michael Behe publicou seu livro “A Caixa Preta de Darwin”, em que apresenta seu argumento em favor do design inteligente: determinadas estruturas celulares ou processos bioquímicos seriam por demais complexos para serem resultado da evolução através da seleção natural. Tais estruturas, ou processos, são por Behe designados como “irredutivelmente complexos” e, por isso, devem ser “fruto de um design inteligente”.

Neste mesmo ano (1996) foi realizada a conferência “Mera Criação”, organizada por este grupo, na Biola University (California), com o apoio dos Ministérios dos Líderes Cristãos. O encontro reuniu um grupo de pessoas que rejeitam o naturalismo científico e promulgam uma ideologia fundamentada no criacionismo, denominada de “Intelligent Design” (Projeto Inteligente, ou Desenho Inteligente, ou Design Inteligente).

Subsequentemente foi lançado o periódico “Origins & Design”, editado por Paul Nelson. Em fevereiro de 1997, realizou-se a conferência “Naturalism, Theism, and the Scientific Enterprise” na Universidade do Texas. Como resultado, William Dembski editou o livro “Mere Creation: Science, Faith and Intelligent Design (“Mera Criação: Ciência, Fé e Projeto Inteligente”), contendo as apresentações do evento. No mesmo ano, Johnson, em seu novo livro, “Defeating Darwinism by Opening Minds” (“Aniquiliando o Darwinismo pela Abertura de Mentes”) expõe abertamente a estratégia estabelecida pelo MDI: A Cunha (The Wedge). O capítulo 6 deste livro, “The Wedge: A Strategy for Truth” (A Cunha: Uma Estratégia para a Verdade), apresenta tal estratégia como sendo uma maneira de enfiar uma cunha em uma tora de árvore:

“We call our strategy ‘the wedge.’ A log is a seeming solid object, but a wedge can eventually split it by penetrating a crack and gradually widening the split. In this case the ideology of scientific materialism is the apparently solid log.” (“Denominamos nossa estratégia de ‘a cunha’. Uma tora de madeira é um objeto que parece ser muito sólido, mas uma cunha pode eventualmente ser enfiada na tora através de uma fenda e aumentando o tamanho desta. Neste caso, a ideologia do materialismo científico seria a tora de madeira aparentemente sólida”).

A forma de execução da “estratégia da cunha” (“The Wedge”) caiu na internet em 1999 (em inglês, veja aqui).

O objetivo do MDI é estabelecer um movimento anti-evolucionário unificado, através da manipulação da opinião pública. O MDI não é um movimento “inocente”: recebeu apoio de pessoas como os ex-presidentes dos EUA Ronald Reagan e George W. Bush. A criação do Discovery Institute teve apoio de Reagan. Hoje o CRSC é conhecido como Centre for Science and Culture (Centro para a Ciência e Cultura), que instiga o setor conservador da sociedade americana a questionar a teoria da evolução e o ensino desta.

De acordo com a estratégia “a cunha”, o ataque à Teoria da Evolução é apenas a ponta fina da cunha. O lado maior da cunha representa um objetivo extremamente ambicioso, de sobrepujar completamente a concepção naturalista em que a sociedade contemporânea se baseia, e começou a adotar há cerca de 500 anos durante o Renascimento. O documento “The Wedge” deixa claro quais são as intenções e objetivos do MDI: “estabelecer a ‘teoria do design’ na vida religiosa, cultural, moral e política, de tal forma a substituir a filosofia vigente da cultura moderna pela nova ‘filosofia do design inteligente’” (Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth”, página 13). O que pode parecer um documento feito por adolescentes como uma brincadeira de mau gosto é algo muito sério: o documento “The Wedge” apresenta sua estratégia a longo prazo, mostrando seus objetivos a serem conquistados em qüinqüênios, com claras indicações que a intenção é impingir preceitos teológicos, culturais e morais na sociedade atual, muito mais do que apenas discutir conceitos científicos.

O Movimento do Design Inteligente objetiva atacar o naturalismo, primeiramente com relação à ciência, mas tendo por fim atingir toda a cultura atual. Segundo William Dembski, “embora as escrituras pareçam ter sido questionadas pelos fatos revelados pela ciência naturalista, aqueles que adotam o princípio da ‘visão de deus’ terão, por vezes, que se confrontar com a ‘perplexidade’. Esta se baseia em reconhecer nossas limitações de entendimento, e faz com que possamos nos prevenir de assumir que as escrituras estavam erradas”. Segundo suas próprias palavras “The choice is then up to us, which perspective we are going to trust” (“A escolha é de cada um de nós, de qual perspectiva iremos confiar”). (W. A. Dembski, The problem of error in Scripture, in Dembski and Richards Eds., Unapologetic Apologetics, página 94; ver também http://www.discovery.org/a/457). O objetivo final do MDI através da “Estratégia da Cunha”, não é apenas dominar as ciências naturais, e sim dominar a ciência social, a cultura, a filosofia, a moralidade e a vida pública.

Bibliografia consultada

Barbara Forrest, The Wedge at Work: How Intelligent Design Creationism Is Wedging Its Way into the Cultural and Academic Mainstream, in Intelligent Design Creationism and Its Critics, R. T. Pennock, ed., MIT Press, 2001, capítulo 1.

Barbara Forrest and Paul R. Gross, Creationism’s Trojan Horse: The Wedge of Intelligent Design, Oxford University Press, New York, 2004.

Dembski, Intelligent Design: The Bridge Between Science and Theology, Downers Grove, Illinois: InterVarsity press, 1999.

Eugenie C. Scott and Glenn Branch, Not in Our Classrooms, Beacon Press, Boston, 2006.

J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.

Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth: Splitting the Foundations of Naturalism, Downers Growe, Illinois, Intervarsity Press, 2000.

Robert T. Pennock, Creationism and Intelligent Design, Annu. Rev. Genomics Hum. Genet., 2003, 4, 143-63.



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42 respostas

  1. Li o livro de MICHAEL BEHE, “A CAIXA PRETA DE DARWIN”, e não há nele nenhuma menção à religião, nem à maluquice dos criacionistas. Há sim, provas, jamais contestadas, de que a evolução não se deu por pequenas mutações aleatórias. É preciso deixar claro que nunca foi pretensão de BEHE explicar como se deu a evolução. Ele apenas provou como ela não ocorreu. Não foi refutado.

    O pretensioso fundamentalista agnóstico Richard Dawkins usa biomorfos criados por ele em computador para demonstrar suas teses. Um programa que faz desenhos que “evoluem”. Ridículo. Ele nada sabe sobre biologia molecular. Seus exemplos são todos com animais grandes, elaborados para iludir a grande platéia de leigos.

    É lamentável que haja tanto fundamentalismo dos dois lados atrapalhando o desenvolvimento de uma questão puramente científica.

    Houvesse coragem da comunidade científica de examinar os argumentos de BEHE, a teoria da evolução já teria sucumbido. Hoje em dia, metade dos cientistas já acredita que a vida se originou fora da Terra. A evolução pode ter sido forjada por ETs. Por acaso é que não foi.

    Marco Polo

    • Caro Marco,
      Antes de mais nada, obrigado pelo comentário.
      Acho que você está enganado. As hipóteses de Behe foram refutadas muitas vezes. Para citar alguns exemplos, veja os textos:
      Blackstone, N. W., Argumentum ad Ignorantiam, The Quarterly Review in Biology, 1997, vol. 72, páginas 445-447.
      Kauffman, S., The Origins of Order: Self Organization and Selection in Evolution, Oxford University Press, 1993.
      Shermer, M., Why Darwin Matters, Owl Books, 2006.
      Miller, K. P., Only a Theory, Viking, New York, 2008.
      Veja também aqui (http://bit.ly/aeT4nY) e aqui (http://bit.ly/bVucm9).

      Você se refere ao livro de Dawkins “A Escalada o Monte Improvável”, suponho? Modelos de simulação de formação de teias de aranha não são de autoria de Dawkins, e sim de Fritz Wollrath, Lorraine Lin, Donald Edmonds e Sam Zschokke. Outro modelo foi criado por Peter Fuchs e Thiemo Krink. São modelos que simulam o comportamento de aranhas na construção de suas teias, utilizando de algoritmos. Realmente, são modelos muito interessantes, que ilustram como a evolução pode ocorrer gradualmente. E porque estes modelos são ridículos? Modelos computacionais são utilizados hoje em dia para muitas coisas: entender melhor a estrutura de moléculas, visualizar a interação entre fármacos e receptores, simular condições climáticas, entre outros. Em geral, funcionam muito bem. Porque você acha de Dawkins não sabe nada sobre biologia molecular?

      Concordo com você: qualquer fundamentalismo que impeça a discussão de uma questão puramente científica deve ser execrado.

      Os argumentos de Behe foram examinados várias vezes, como mencionei acima. Você tem alguma referência para indicar que metade dos cientistas acreditam que a vida se originou fora da Terra? Você teria também alguma evidência de que a evolução pudesse ter sido forjada por ETs?

      cordialmente,
      Roberto

    • Tentar jogar a explicação da vida para fora do planeta Terra não responde a pergunta, pois não passa de hipótese. Não há comprovação empírica, pelo simples fato também de que nestes outros planetas poderia se fazer a mesma coisa, ou seja, “jogando” sempre a explicação da vida para planetas terceiros. A melhor explicação no meu é o projeto do universo e da vida ter sido feito por alguém exterior ao mundo natural.

      • Caro Glécio,

        O problema da tua última frase é que também não existe comprovação empírica da realização deste “projeto” por “alguém exterior ao mundo natural”.

        cordialmente,
        Roberto

  2. Afirmar que CRIACIONISMO é a mesma “coisa” que DESIGN INTELIGENTE é demonstrar ignorância e desconhecimento de ambas as teorias, que por sinal, assim como a TEORIA de Darwin, são apenas hipóteses sem efeito de lei, embasadas, ambas, por evidências. Qualquer cientista idôneo e livre de conceitos prévios concorda que ambas teorias possuem evidências que permitem que seus idealizadores a defendam.

    Fazer ciência está acima de qualquer teoria, pois a ciência é busca pelo conhecimento da verdade, mesmo que esta verdade seja relativa ou temporária até que mais ciência nos mostre isso. Seguindo este raciocínio, a ciência não pode ser utilizada como veículo comercial de defesa desta ou daquela teoria, mas o contrário. É a ferramenta mais valiosa que o ser humano encontrou para deixar de lado o “misticismo” e o “achismo”, mas infelizmente, dentro de TODAS as teorias existem defensores que praticam este último, não podemos negar. Muito críticos ou até mesmo defensores ignorantes prestam um desserviço a estas teorias, pois gastam seu tempo em publicações de nível de evidência baixíssimo.

    Ademais, fico triste ao ver teorias que primeiro são postuladas e depois os cientistas defensores das mesmas saem feito loucos correndo atrás de evidências que a confirmem. Que tipo de confiança podemos depositar em ciência desenvolvida desta forma? O interessante no livro de Behe é que ele não fez este caminho inverso, mas primeiro encontrou as evidências e depois formulou a TDI, ao qual tem deixado muito evolucionista horas-extras a fio em seus laboratórios buscando “achar” evidências contrárias.

    Atenciosamente,

    Hugo Hoffmann
    Biólogo

    • Caro Hugo,

      Antes de mais nada, obrigado pelo comentário.

      Criacionismo e design inteligente são a mesma coisa. Só que o segundo está melhor disfarçado por uma “aura” pseudo-científica. Nenhuma das duas é uma teoria, muito menos uma teoria científica, de acordo com a definição destas. Nenhuma das duas apresenta evidências ou fatos que as demonstrem, ou foram comprovadas com dados experimentais. Logo, não são teorias.
      A ciência é formada por teorias científicas, todas comprovadas, como a teoria da relatividade, a teoria da mecânica quântica, a teoria da evolução, e muitas outras.

      Quanto à sua menção de que “teorias que primeiro são postuladas e depois os cientistas defensores das mesmas saem feito loucos correndo atrás de evidências que a confirmem”, foi exatamente assim que a hipótese pseudo-científica “design inteligente” foi formulada. Behe não encontrou evidência nenhuma que confirmasse sua hipótese. Tanto que em seu último livro, “The Edge of Evolution”, Behe deixou de lado sua principal hipótese, a da “complexidade irredutível, e deu muito mais ênfase na natureza aleatória das mutações.

      Como biólogo, você certamente deve ter estudado o livro de Mark Ridley, “Evolução”, considerado o melhor livro-texto sobre este assunto. Ridley não menciona Behe uma única vez. Além de Ridley, Ernst Mayr também não menciona Behe uma única vez em seu escolástico “O que é evolução”, tampouco Stephen Jay Gould em sua obra magna “The Structure of Evolutionary Theory”. O conceito “design inteligente” é inútil para explicar algo para o qual não se encontrou nenhuma evidência, fato ou prova experimental.

      cordialmente,
      Roberto

      • Caro Roberto, após ler o 1º livro de Behe, ficou muito claro pra mim que ele não estava propondo teoria nenhuma. Ele só demonstrou que a evolução não pode ter ocorrido por pequenas mudanças aleatórias. Apresentou evidências de que é mais provável o planejamento do que o acaso para o funcionamento da engrenagem de diversos processos vitais. Ele não se aventurou a especular de onde veio o planejamento. Gostaria muito de ler o segundo livro dele, mas vou esperar sair em português.

        Houve os que tentaram refutá-lo, porém sem densidade, com argumentos fracos. Li um artigo sobre
        essas tentativas, que não foram muitas. Quanto ao Dawkins, os biomorfos não são modelos de teias de aranha. São desenhos que, segundo ele, evoluem como os bichos. Ele próprio fez um programa no micro para simular biomorfos. Acho que esses modelos não são úteis para nada, mas servem ao propósito ilusionista do estilo Dawkins. As pessoas precisam ver alguma coisa. Como não dá pra ver a especiação, ele mostra os desenhinhos.

        As coisas vivas são de uma complexidade brutal. Não são comparáveis a moléculas, a um computador e muito menos a desenhinhos de um modelo de computador. Se fosse possível medir a probabilidade da primeira célula ter resultado de acaso, seria algo próximo de zero. Já um bicho grande, uma nova espécie, quantas gerações seriam necessárias à base de pequenas mudanças aleatórias, por seleção natural? Milhares, milhões, bilhões de anos?

        Acho que foi no livro de John Horgan que vi a afirmação de que metade dos cientistas já acreditam que a vida veio do espaço. A Exobiologia. Ele tem 2 livros excelentes, que recomendo a qualquer interessado em ciência. No primeiro, entrevistou todos os cientistas de ponta. Ele era editor da Scientific American. O livro mostra muitos detalhes da psicologia dos grandes cientistas. Fica-se com a impressão de que a motivação de muitas crenças deles tem menos a ver com ciência e mais com sentimentos mundanos, como vaidade, um filme visto na juventude, coisas bem frugais. A ciência não é tão cartesiana como se pode imaginar. Um amigo que trabalhou 12 anos no CERN me confirmou essa impressão.

        Obviamente, não há evidência nenhuma de que somos resultado do laboratório de ETs. Porém, prefiro acreditar no mais provável, do que no menos provável. Sendo o acaso uma probabilidade praticamente nula, e havendo evidências de uma inteligência na montagem da máquina viva, a navalha de Occam pende para os ETs. O próprio Paul Davies, um físico agnóstico e grande divulgador da ciência, chegou à conclusão de que não é muito diferente acreditar no criador ou nas teorias metafísicas dos físicos para a criação do Universo.

        Muito grato pelas referências de leitura e pela sua atenção. Quando estiver mais folgado, vou ler. Atualmente, estou lendo “Isto é biologia” do Ernst Mayr. (Sou economista. Acho que minha área só perde para a psicologia, em termos de crenças sobrenaturais).

        Um abraço, Marco Polo

      • Oi Marco, tudo bom?

        Me desculpe, Behe não demonstrou nada. Como você mesmo verificou, “ficou muito claro pra mim que ele não estava propondo teoria nenhuma”, Behe apenas sugeriu, ou formulou uma hipótese. Mas não demonstrou coisa alguma, nem apresentou evidências. Ele apenas sugere uma outra forma de interpretar os fatos, que necessita de um “design inteligente” para a sua “complexidade irredutível”. Quando você diz que “Ele não se aventurou a especular de onde veio o planejamento”, Behe não precisou fazer isso. Uma vez que ele sugeriu o planejamento, fica necessariamente implícito o planejador, percebe?

        Não sei qual artigo que você leu sobre as refutações a Behe. Eu li alguns livros, além de artigos, como os que eu te indiquei em meu comentário anterior, e outros. Não sei que desenhos de Dawkins são estes dos quais você fala. Se puder me indicar uma referência…. Sobre especiação, o capítulo sobre este assunto, do livro “Evolução” de Mark Ridley (editora Artmed), é uma excelente introdução.

        O termo “complexidade” é passível de muitas interpretações, mas não significa “impossibilidade alguma de ter surgido através de processos naturais”. A partir do momento que o fluxo de energia do Sol para a Terra é contínuo, tal energia permite a organização da matéria, que por sua vez pode gerar complexidade através de processos de emergência (o processo é um pouco mais complicado do que isso, mas pode ser assim reduzido de maneira simples). Mesmo que a probabilidade da primeira molécula biológica ter surgido ser muito pequena, tal probabilidade existe. E se existe, pode ter ocorrido. E se pode ter ocorrido, muitas outras coisas podem ter ocorrido. O fato de não podermos explicar como isso aconteceu HOJE não significa que necessitemos, de qualquer maneira, invocar um “designer” que realize um “design inteligente”. Na verdade, a única coisa que precisamos é pesquisa, cada vez mais, para entender como isso aconteceu. E, podes crer, tem muita gente trabalhando nisso. Apenas para citar a referência mais recente que vi (mas ainda não li) sobre este assunto: Meierhenrich, Filippi, Meinert et al., “Self-Assembly of Amphiphiles into Cell-like Vesicles: A primitive Cell in the Laboratory”, Angewandte Chemie International Edition, 2010, Volume 49, , páfginas 3738 – 3750. Pois é, tudo indica que a evolução na Terra dispôs de cerca de 3,5 a 4,0 bilhões de anos para acontecer. É bastante tempo.

        O livro “O fim da ciência”, de John Horgan, é muito bom (estou lendo). Mas não conheço seu outro, “Misticismo Racional”, que foi muito elogiado. Você está absolutamente certo em dizer que “muitas crenças deles tem menos a ver com ciência e mais com sentimentos mundanos, como vaidade, um filme visto na juventude, coisas bem frugais”. Também concordo que a ciência não é tão cartesiana assim. Mas, mesmo assim, é muito difícil convencer cientistas apenas com uma idéia bonita, que parece ser razoável. É preciso um pouco mais do que isso.

        Prefiro não comentar seu último parágrafo por razões pessoais, uma vez que você diz “prefiro acreditar no mais provável, do que no menos provável”, embora a probabilidade que você menciona seja difícil de ser calculada. Mas respeito sua preferência. O livro de Mayr é excelente. Li-o em inglês.
        Cordialmente,
        Roberto

  3. Caro Roberto,

    Parabenizo-lhe pelo seu blog e pelo espaço aberto a discussões científicas. Com todo respeito ao senhor e ao seus anos de experiência a mais do que os meus, mas sinto-me na necessidade de prolongar este assunto, tendo em vista a discrepância conceitual e analisando algumas de suas afirmações no seu argumento-resposta ao meu comentário, abaixo:

    PONTO 01: “disfarçado por uma “aura” pseudo-científica”??
    Uma afirmação um tanto “espiritual” para um cientista. Não acredito em “aura”, me desculpe. Mas o Design Inteligente não tem nada de pseudo, pois possui em suas bases a ciência experimental através de metodologia passível de replicações, disponível para eu e você realizá-las em nossos respectivos laboratórios.

    PONTO 02: “A ciência é formada por teorias científicas, todas comprovadas como (…) a teoria da evolução”

    Vamos analisar o conceito da TDI:
    O design inteligente refere-se a um programa de investigação científica formada por uma comunidade de cientistas, filósofos e outros estudiosos que buscam evidências de design na natureza. A teoria do design inteligente sustenta que certas características do universo e dos seres vivos são melhor explicadas por uma causa inteligente, não é um processo direcionado como a seleção natural. Através do estudo e análise dos componentes de um sistema, um teórico do design é capaz de determinar se várias estruturas naturais são o produto do acaso, a lei natural, design inteligente, ou alguma combinação dos dois. Tal pesquisa é realizada através da observação dos tipos de informação produzida quando agir de agentes inteligentes. Os cientistas então tentar encontrar objetos que possuem os mesmos tipos de propriedades informacional. O Design Inteligente tem aplicado estes métodos científicos para detectar design em estruturas biológicas irredutivelmente complexas, o conteúdo de informação complexa e especificada do DNA, o que sustenta a vida arquitetura física do universo, ea origem geologicamente rápido da diversidade biológica no registro fóssil durante o Cambriano explosão de cerca de 530 milhões de anos atrás.

    PONTO 03: “deixou de lado sua principal hipótese, a da “complexidade irredutível, e deu muito mais ênfase na natureza aleatória das mutações”

    Eu li o livro e a afirmação do senhor é falaciosa, pois o livro pretende complementar os conceitos já estabelecidos e não se trata de uma retratação.

    PONTO 04: “O conceito “design inteligente” é inútil para explicar algo para o qual não se encontrou nenhuma evidência, fato ou prova experimental”

    A teoria do design inteligente é simplesmente um esforço para detectar empiricamente se o design “aparente” na natureza reconhecido por praticamente todos os biólogos é design genuíno (o produto de uma causa inteligente) ou é simplesmente o produto de um processo direcionado como a natural seleção agindo sobre as variações aleatórias. Criacionismo normalmente começa com um texto religioso e tenta ver como as descobertas da ciência pode ser reconciliado com ele. Design Inteligente começa com a evidência empírica da natureza e procura saber o que se podem tirar conclusões a partir dessa evidência. Ao contrário do criacionismo, a teoria científica do design inteligente não pretende que a biologia moderna pode identificar se a causa inteligente detectadas através da ciência é sobrenatural.

    Os honestos críticos do design inteligente reconhecer a diferença entre o design inteligente e do criacionismo. Universidade de Wisconsin, historiador da ciência Ronald Numbers é crítico do design inteligente, ainda de acordo com a Associated Press, ele “concorda com o rótulo criacionista é impreciso quando se trata do movimento [ID] design inteligente”. Por que, então, fazer alguns darwinistas continuam tentando confundir o design inteligente com o criacionismo? Segundo o Dr. Numbers, é porque eles acham que essas alegações são “o caminho mais fácil para desacreditar o design inteligente.”

    Em outras palavras, a acusação de que o design inteligente é “criacionismo” é uma estratégia retórica por parte dos darwinistas que desejam deslegitimar teoria do design sem realmente resolver o mérito do seu caso.

    DESIGN INTELIGENTE é uma Teoria composta por todo rigor científico:

    O método científico é geralmente descrito como um processo de quatro etapas que envolvem: observações, hipóteses, experimentação e conclusão. O Design Inteligente começa com a observação de que agentes inteligentes produzir informação complexa e especificada (CSI). Os teóricos do Design supõem que se um objeto natural foi concebido, ele irá conter altos níveis de CSI. Os cientistas, em seguida, realizam testes experimentais em objetos naturais para determinar se eles contêm o complexo e as informações especificadas. Uma forma facilmente testável de CSI é a complexidade irredutível, o que pode ser descoberto por engenharia reversa experimentalmente estruturas biológicas para ver se eles exigem todas as suas peças a funcionar. Quando os investigadores ID encontram complexidade irredutível na biologia, eles concluem que tais estruturas foram projetadas.

    Sugiro a leitura do livro “Signature in the cell” do Ph.D., Stephen C. Meyer.

    Cordialmente,
    Hugo Hoffmann

    • Caro Hugo,
      “Aura”, entre aspas, com o significado de “simpatia pública, aplauso geral; aceitação, popularidade” (Dicionario Houaiss da Língua Portuguesa).
      Quando diz que “Através do estudo e análise dos componentes de um sistema, um teórico do design é capaz de determinar se várias estruturas naturais são o produto do acaso, a lei natural, design inteligente, ou alguma combinação dos dois”(a ênfase é minha), tal afirmação é realmente surpreendente. Como é possível se determinar quando uma estrutura é produto de acaso, do design inteligente, ou de alguma combinação dos dois? Quais são os “tipos de informação produzida”? Quais são os “tipos de propriedades informacionais”? Quais são os métodos científicos utilizados? “O conteúdo de informação complexa e especificada do DNA” não deriva de um design inteligente, e sim de um processo biológico natural chamado evolução. O que é “vida arquitetura física do universo”?
      Realmente, não se trata de uma retratação, e sim do abandono da ênfase da sua proposta de “complexidade irredutível”, como ele próprio assumiu. Behe admitiu sua falha de argumentação lógica sobre o conceito de complexidade irredutível, explicando-a como sendo uma “assimetria” de seu argumento, que falha ao se ater a uma inferência primária: que a evolução não pode originar instâncias de “complexidade irredutível” (Behe, Reply to my critics, Biology and Philosophy, 2001, 16, 695).
      Aprecio sua honestidade argumentativa em dizer que “A teoria do design inteligente é simplesmente um esforço para detectar empiricamente, etc.”. Qualquer esforço é digno. Mas não o torna válido. Para que seja válido é necessário que seja comprovado experimentalmente por muitas vezes (repetidamente). Mas, me explique: como “a teoria científica do design inteligente não pretende que a biologia moderna pode identificar se a causa inteligente detectadas através da ciência é sobrenatural”? Para que haja inteligência é necessário um sujeito inteligente. Ou seja, um design pressupõe um designer.
      Hugo, a partir do momento em que se pressupõe um propósito (design inteligente), necessariamente tal argumento se configura em criacionismo, pois traz no seu âmago um objetivo final, teleológico. Não é possível sustentar tal argumento sem que haja uma intenção, ou seja, um sujeito agente que possa promover, ou realizar, o design inteligente, de alguma forma. Logo, tal argumento é criacionista. Em maior ou menor medida, mas é. O problema da “intensidade criacionista” é interessante: quanto é ser pouco, médio ou muito criacionista? Esta não é uma estratégia retórica, e sim uma questão de argumentação lógica.
      William Dembski só conseguiu “demonstrar” seu conceito de Informação complexa especificada 4 vezes. Somente 4 vezes, e não mais do que isso. Mas não conseguiu comprová-la experimentalmente. (veja em R. Dorit, “Biological Complexity”, no livro “Scientists Confront Creationism – Intelligent Design and Beyond”, W.W. Norton & Company, 2007, páginas, 231-249).
      Os nomes são bonitos, não é mesmo? Informação complexa especificada, engenharia reversa, complexidade irredutível. O problema é que não existe comprovação experimental nenhuma para estas propostas. Nenhuma. Logo, não é uma teoria, strictu sensu. São apenas propostas, hipóteses, que pressupõem, necessariamente, um designer. Sem designer não há design. Como disse o próprio Stephen Mayer, do qual você recomenda o livro, “organismos vivos parecem projetados (“designed”) porque foram realmente projetados por um projetista (“designer”)” (Stephen C. Mayer, Not by chance, National Post, 1º de dezembro de 2005).

  4. Roberto,

    Mesmo como historiador da ciência em formação, sou suspeito para comentar aqui este seu artigo, mesmo porque no meu blog eu não dou espaço para comentários por razões ali há muito expressadas.

    Você sabe que não existem teorias científicas surgidas num vazio socio-cultural. O darwinismo surgiu no espaço socio-cultural de uma Inglaterra e Europa mais do que propensas a aceitar a evolução como explicação para a origem e evolução da vida.

    Você sabe também que o darwinismo tem um movimento político que iniciou com Huxley et al criando o X Club e de publicações científicas como a Nature. Isto é, dominando-se a academia fica mais fácil promover uma teoria como a de Darwin.

    Existem implicações de subjetivismo teísta na TDI? Existem, mas a TDI, como teoria científica minimalista — existem sinais de inteligência que são empiricamente detectados na natureza — não depende disso para sua plausibilidade científica. Nós temos exemplo de um modelo científico cosmológico — o Big Bang que, por suas implicações teístas ficou engavetado na Academia por três décadas por causa dos rumores de anjos na epistemologia. Nem por isso o Big Bang deixou de vir a ser o modelo científico consensual (detesto esta palavra) na comunidade científica.

    Uma leitura mais atenta do Origem das Espécies de Darwin mostra que sua teoria é uma teoria histórica. A TDI, não se surpreenda, utiliza o mesmo modo teórico de Darwin. Leia o mais novo livro de Stephen Meyer — Signature in the Cell, e veja porque a TDI tem as mesmas características epistemológicas.

    Quanto ao aspecto de movimento político da TDI, a ciência tem dentro de si várias correntes de engajamento político. Razão? Somos animais políticos, e quem não fizer política em ciência não vai dar em lugar nenhum.

    Nós da TDI somente deixaremos o cenário do debate científico quando nossa teoria for falsificada em um contexto de justificação teórica.

    Um abraço fraterno,

    Enézio

    • Oi Enézio, comento seus comentários

      Mesmo como historiador da ciência em formação, sou suspeito para comentar aqui este seu artigo, mesmo porque no meu blog eu não dou espaço para comentários por razões ali há muito expressadas.

      Sem problemas. O duro, como você sabe, são os comentários que não acrescentam nada à discussão propriamente dita.

      Você sabe que não existem teorias científicas surgidas num vazio socio-cultural. O darwinismo surgiu no espaço socio-cultural de uma Inglaterra e Europa mais do que propensas a aceitar a evolução como explicação para a origem e evolução da vida.

      As teorias científicas surgem, sempre, em um momento histórico, no qual se insere o contexto sócio-cultural, estou plenamente de acordo. Quanto a dizer que a Inglaterra e a Europa estavam mais do que propensas a aceitar a evolução, esta é, talvez, uma perspectiva um pouco otimista demais, como você bem sabe. Além disso, Darwin (e Wallace) não propuseram nada para explicar a origem da vida.

      Você sabe também que o darwinismo tem um movimento político que iniciou com Huxley et al criando o X Club e de publicações científicas como a Nature. Isto é, dominando-se a academia fica mais fácil promover uma teoria como a de Darwin.

      Eu realmente desconheço tais fatos. Se você puder ser um pouco mais explícito e explicar melhor tais pontos, seria ótimo. Qualquer literatura sobre este assunto eu também agradeceria.

      Existem implicações de subjetivismo teísta na TDI? Existem, mas a TDI, como teoria científica minimalista — existem sinais de inteligência que são empiricamente detectados na natureza — não depende disso para sua plausibilidade científica. Nós temos exemplo de um modelo científico cosmológico — o Big Bang que, por suas implicações teístas ficou engavetado na Academia por três décadas por causa dos rumores de anjos na epistemologia. Nem por isso o Big Bang deixou de vir a ser o modelo científico consensual (detesto esta palavra) na comunidade científica.

      Suas primeiras 2 frases permitem várias interpretações. Se fosse possível explicar melhor, inclusive para os leitores leigos no assunto, eu agradeceria muito. Também desconheço, sinceramente, as implicações teístas do Big Bang. “Modelo científico consensual” eu diria que é uma expressão meio forte. Talvez seja justificativa (modelo não é muito adequado) que melhor explica a origem do universo até agora, com a análise dos dados coletados ao longo de quase 1 século por astrônomos, físicos e outros pesquisadores. Mas existem outras possíveis explicações, menos bem aceitas.

      Uma leitura mais atenta do Origem das Espécies de Darwin mostra que sua teoria é uma teoria histórica. A TDI, não se surpreenda, utiliza o mesmo modo teórico de Darwin. Leia o mais novo livro de Stephen Meyer — Signature in the Cell, e veja porque a TDI tem as mesmas características epistemológicas.

      A teoria da evolução, como proposta por Darwin, não é uma teoria histórica. É uma teoria científica. Esta é a primeira vez que vejo a menção da teoria da evolução como uma teoria histórica. O DI não é uma teoria científica por vários motivos, discutidos por muitos, alguns dos quais apresento aqui no blog.

      Quanto ao aspecto de movimento político da TDI, a ciência tem dentro de si várias correntes de engajamento político. Razão? Somos animais políticos, e quem não fizer política em ciência não vai dar em lugar nenhum.

      Se esta é sua opinião, prefiro não comentá-la.

      Nós da TDI somente deixaremos o cenário do debate científico quando nossa teoria for falsificada em um contexto de justificação teórica.

      Como você sabe, isso já foi feito, várias vezes. Um dos bons argumentos já apresentados para demonstrar a falta de justificação teórica do DI é o longo artigo de Emil Zuckerkandl, “Intelligent design and biological complexity”, Gene, 2006, volume 385, páginas 2–18. Quem se interessar em ter uma cópia deste artigo, posso enviar. É só solicitar aqui nos comentários.

      Cordialmente, Roberto

  5. 1- Permita-me colocar uma questão popperiana à chamada evolução neo-darwiniana. O senhor diz que “…o conteúdo de informação complexa e especificada do DNA não deriva de um design inteligente, e sim de um processo biológico natural chamado evolução”.O que precisaria acontecer, exatamente, para que o senhor admitisse que o processo não é “natural”, no sentido de implicar em alguma influência de tipo teleológico?
    2 – Por que o design inteligente implicaria em “criacionismo”. E os tais ETs que tanta gente boa aprecia?
    3 – Qual é o problema de ser “criacionista”, desde que isto não implique em literalismo bíblico extremado? No que isto contraria a “ciência”?

    • Caro Patrick,
      Antes de mais nada, obrigado pelo comentário. Respondendo ás tuas perguntas:

      1. Ah, esta pergunta quem tem que me responder é você 🙂

      2. Porque é um argumento teleológico, que requer uma justificativa teísta (veja aqui, por exemplo: http://www2.unesp.br/revista/?p=893). Bom, o fato de ser gente boa não garante que os ETs existam.

      3. Nenhum problema em ser criacionista, se este for o seu desejo. Mas os argumentos criacionistas não são científicos e, por isso, não podem ser utilizados para explicar o mundo natural.

  6. Você disse que passamos a adotar o naturalismo “500 anos durante o renascimento”. Na verdade o renascimento foi um precursor. Há evidências de contato de Copérnico com os humanistas renascentistas (fonte: Science: A History de John Gribbin). A correção aqui é que a renascença foi seguida pelo Esclarecimento (iluminismo). Então seriam 500 anos a partir do renascimento, e não durante. John Gribbin escolhe, arbitrariamente, o ano de 1543 para a fundação da ciência ocidental, porque foi o ano em que foi publicado De Revolutionibus de Copérnico e De Humani Corporis Fabrica de Vesalius.

  7. Oi Roberto

    Parabens pelo post e pela incomensurável paciência com os comentaristas. Aproveitando a deixa gostaria de uma cópia do artigo mencionado: “Intelligent design and biological complexity”, Gene, 2006, volume 385, páginas 2–18.
    E apenas comentando a pergunta 1 do Patrick acima, penso que a questão está invertida. Deveria ser o que é que, na natureza, não pode ser “explicado” como resultado de alguma influência de tipo teleológico?
    Este é o problema do DI. Não há uma definição clara do que seria “design” e “inteligente”, de modo que se pudesse diferenciar na natureza, com precisão o que é produto de design do que não é. O conceito de compexidade irredutivel não faz isso, ele apenas diz que tal ou qual estrutura não pode ser resultado da seleção natural. Na verdade é uma tentativa de falsificação da evolução, não a afirmação de uma explicação alternativa. Behe tenta, se me permitem a metáfora futebolística, ganhar por W.O.

    []’s

  8. O Marco Polo lá em cima está se referindo não ao “Escalada do Monte Improvavel” mas ao “O Relojoeiro Cego” (The Blind Watchmaker), que é onde aparece o programa de geração de biomorfos. Livro que, está claro, o Marco quase com certeza não leu, ou se leu não entendeu do que se trata. Sugiro uma primeira leitura ou uma releitura mais cuidadosa, conforme o caso.
    Digo isso porque o comentário dele está tão fora de esquadro que não sei nem o que dizer. Se alguém quiser criticar Dawkins, em especial com insinuações de ignorância em biologia molecular, deve antes fazer o dever de casa, para então criticar com propriedade.

    []’s

    • Caro Gato,
      Obrigado pelo comentário.
      Corretíssimo quanto à menção ao “Relojoeiro Cego”. As figuras são as do capítulo 3, “Acumulação de pequenas mudanças” (Companhia das Letras, 2003). Concordo com você: é preciso ler com cuidado para observar que o argumento de Dawkins é, realmente, muito bom.

  9. Em meio a tantos comentários tão bem suportados por teorias e supostas “teorias”, gostaria de como leigo levantar alguns pontos:

    Será que, no fundo, a motivação desse movimento DI, não seria uma questão psicológica, de um ser humano não aceitar que sua existência se deu ao “acaso” de “zilhões” de combinações “aleatórias”? Que para se sentir “importante” é necessário, para tais pessoas, explicar sua existência como um projeto inteligente, especificado e gerido por um criador?

    Não seria, a grosso modo, o que uma criança sente quando descobre que os pais não planejaram tê-la, que foi um “descuido”, ou uma concepção ao acaso durante uma festa?

    Tirando esse lado psicológico dos meus levantamentos, pergunto sobre DI.

    Se há um criador na geração de novas espécies, e “estruturas biológicas de complexidade irredutível”. Como se daria essa interferência ? Ele aparece e “injeta” tais estruturas em seres vivos aqui na terra ? Nunca foi visto ? Lança do espaço ? Através do que ?

    Do meu baixo conhecimento em biologia, sei que tais estruturas citadas como de complexidade irredutíveis, existem há, pelo menos, milhões de anos. Então como imaginar um criador inteligente que viva tanto tempo para observar os resultados de suas experiências biológicas na Terra ? E mais, porque não teria dado continuidade às criações ?? Tanto tempo sem nenhuma nova estrutura complexa, inteligente ? Se deu por satisfeito ? Não houve descendentes ?

    Bom, pelo menos para mim, essa história de Designer só poderia ser “explicada” como o próprio deus pregado pelas religiões. Então pra mim não tem nenhuma validade como ciência. Está mais para uma “modernização” das “explicações” religiosas que estão cada vez menos tragáveis até por quem não tem tanto acesso ao conhecimento.

    Ficaria muito grato se conseguissem me dar algumas respostas.

  10. Mais uma questão que esqueci de colocar:

    Ao contrário da teoria de Darwin, essa história de Designer Inteligente cai numa espiral insustentável, pois quanto mais se buscar a origem mais inteligente e complexo deverá ser o criador do criador… Então estou pensando absurdamente, ou por essa “lógica” estaríamos, na verdade num processo de Involução?

  11. Prezado Roberto,

    Obrigado pela atenção mas por que teria eu que responder minha própria pergunta? Se a afirmação teleológica não é falseável tampouco é a afimação contrária que a nega a priori. Se for assim o naturalismo não é mais científico que o criacionismo. Em outras palavras: a afirmação neo-darwinista de que as mutações ocorrem “por acaso” (não sei se ela faz mesmo parte do neo-darwinismo) seria tão pouco científica quanto a de que o processo é guiado teleologicamente. Quanto à questão dos ETs eu quis apenas dizer que uma adesão ao design inteligente não implica necessariamente em adesão ao teísmo. Acreditar em Ets não é acreditar em Deus e ouvi dizer que alguns naturalistas de prestígio, o que incluiria o próprio Richard Dawkins, não seria hostil à idéia dos “deuses astronautas”. Por outro lado, adeptos do design inteligente como Michael Behe defendem a idéia de que poderia haver critérios científicos de identificação de ação teleólogica. O exemplo clássico seria a tentativa de identificar vida extraterrestre através da captação de ondas de rádio com determinado padrão de complexidade.

    Atenciosamente,

    Clifford.

    • Caro Patrick,

      OK, quando você afirma que “Se a afirmação teleológica não é falseável tampouco é a afimação contrária que a nega a priori. Se for assim o naturalismo não é mais científico que o criacionismo. Em outras palavras: a afirmação neo-darwinista de que as mutações ocorrem “por acaso” (não sei se ela faz mesmo parte do neo-darwinismo) seria tão pouco científica quanto a de que o processo é guiado teleologicamente.” a afirmação (naturalista) contrária é falseável, pois é possível se falsificar dados e a interpretação de dados (naturais) que explicam a evolução. Mas como se pode falsificar os propósitos teleológicos? Como saber quais são os exatos propósitos de um designer?

      Também quando você afirma que “Quanto à questão dos ETs eu quis apenas dizer que uma adesão ao design inteligente não implica necessariamente em adesão ao teísmo.” Não? Então, como é que surge um “design inteligente”?

      Quanto à sua afirmativa que “Acreditar em Ets não é acreditar em Deus e ouvi dizer que alguns naturalistas de prestígio, o que incluiria o próprio Richard Dawkins, não seria hostil à idéia dos “deuses astronautas”.” Realmente, acreditar em ETs não é acreditar em Deus. Mas eu gostaria que você me fornecesse uma referência bibliográfica que dê suporte à última parte de sua frase.

      Também, a afirmação de que “poderia haver critérios científicos de identificação de ação teleólogica.” Quais seriam estes critérios? A partir de que ponto um fenômeno, um ser biológico, uma estrutura celular é ou não fruto de um design inteligente? Dembski tentou explicar isso utilizando seu argumento de informação complexa especificada. Não conseguiu, pois forneceu apenas 4 exemplos que funcionam de acordo com seu esquema de “filtros” (veja em R. Dorit, “Biological Complexity”, no livro “Scientists Confront Creationism – Intelligent Design and Beyond”, W.W. Norton & Company, 2007, páginas, 231-249).

      Finalmente, quando você diz que “O exemplo clássico seria a tentativa de identificar vida extraterrestre através da captação de ondas de rádio com determinado padrão de complexidade.” A partir de que momento este padrão seria complexo o suficiente para confirmar a origem extra-terrestre de ondas de rádio? Na série “Cosmos”, de Carl Sagan, em um dos episódios Sagan menciona que há vários anos astrônomos detectaram um padrão repetitivo de pulsos de ondas eletromagnéticas. Estudando o fenômeno, descobriram os pulsares.

  12. Caro Alan,

    Não vejo qualquer problema em existir um criador complexo. Evidentemente a regressão de criaturas cada vez mais complexas teria que parar em um criador inicial de máxima complexidade. É verdade que em nosso universo observamos uma passagem progressiva da simplicidade para a complexidade mas esta passagem longe de diminuir a probabibilidade de existir um criador complexo aumenta-a, até onde consigo enxergar, enormemente. O surgimento de complexidade é improvável e quanto maior é a complexidade maior é a probabilidade, ao contrário do que parece pensar Richard Dawkins em “Deus, um Delírio”, de que a causa seja também complexa. A transformação de um pedaço de papel em um delicado origami clama por ação inteligente pois seria extremamente improvável que o papel pudesse adquirir aquela forma pela ação de forças aleatórias. Se o papel mantivesse, ao contrário, uma forma simples ou pelo menos estável ao longo do tempo poderíamos supor que ele sempre foi assim e que não haveria necessidade de invocar uma causa inteligente para explicar tal fenômeno. O aumento progressivo da complexidade do universo longe, portanto, de colocar em xeque a existência de um criador inteligente parece-me, ao contrário, conforme afirmei no começo do texto, confirmá-la fortemente.

  13. Patrick

    Se você

    “não vê problema num criador complexo”

    isso significa que ‘complexidade’ em si não é um problema em especial, não é? Mas se a existência de complexidade, e em particular a complexidade viva, não é um problema em especial, então ela tampouco precisa de alguma expilcação especial, muito menos uma que invoque magia (sobrenatural) não é?
    Se, por outro lado, como para Dawkins e quase todo mundo incluindo os criacionistas, a complexidade viva não pode simplesmente existir, pois tal existência seria muito improvável em princípio (todos os argumentos do DIstas se baseiam na estonteante improbabilidade dos sistemas vivos serem como são por meios naturais, etc.), então ela é algo que demanda um tipo especial de explicação.

    Para os criacionistas a “explicação” é deus, o supremo designer, e aí o ponto que Dawkins coloca é que, se o que se busca explicar é a complexidade viva, não faz sentido invocar como “explicação” algo ainda mais complexo. Isso é substituir uma improbabilidade por outra maior, um mistério por outro ainda maior, e insolúvel por definição. E como você mesmo reconhece

    em nosso universo observamos uma passagem progressiva da simplicidade para a complexidade

    Isso significa que inteligencia complexa capaz de produzir design só aparece tarde na história evolutiva, logo não pode precede-la, que é justamente o que Dawkins argumenta.

  14. Roberto

    Sobre Dembski, Wesley, E. e Shalit, J., publicaram um excelente paper: Information Theory, Evolutionary Computation, and Dembski’s “Complex Specified Information” que critica extensivamente a sua “obra”.

    Entre outros pontos eles destacam que apesar de Dembski alegar que o CSI é um conceito matemático ele não dá nenhuma demonstração matemática de aplicações do conceito. Dembski afirma que coisas como os “números de 16 dígito dos cartões VISA”, “números de telefone”, “a sequência correspondendo a um soneto de Shakesperare”, “DNA”, entre outros, possuem CSI, mas nunca demonstra isso matematicamente.

    Eles concluem o paper lançando 8 desafios aos advogados do DI:
    1. Publicar uma definição rigorosa matemática do CSI e prova da “Lei de Conservação da Informação” em periódico peer-reviewed;
    2. Fornecer evidencia real para as alegações do CSI;
    3. Aplicar o CSI para identificar agenciamento humano onde não seja previamente conhecido, confirmando o achado independentemente;
    4. Distinguir acaso e design em arqueoastronomia;
    5. Aplicar o CSI em arqueologia;
    6. Fornecer uma explicação mais detalhada do CSI em Biologia;
    7. Usar o CSI para classificar a complexidade da comunicação animal;
    8. Aplicar o CSI em questões na cognição animal;

    O paper de Welsbery e Shalit é de 2003, será preciso dizer que 7 (sete) anos depois nenhum umzinho que seja advogado do Di apareceu para responder a algum dos desafios?

    • Caro Gato,

      A referência que indiquei, R. Dorit, “Biological Complexity”, no livro “Scientists Confront Creationism – Intelligent Design and Beyond”, W.W. Norton & Company, 2007, páginas, 231-249, é justamente uma apreciação do artigo de Welsbery e Shalit.

  15. Prezado Gato,

    Suponha que você ache um relógio na rua. Você estaria proibido de atribuir a sua fabricação a um engenheiro inteligente apenas porque o engenheiro teria que ser mais complexo que o relógio?

    A complexidade em si não é de fato improvável e efeitos complexos aumentam a probabilidade de que haja causas complexas. O que é improvável é o surgimento de efeitos complexos a partir de elementos simples e de causas simples. Não é improvável que engenheiros possam dar origem a relógios mas que relógios, quem sabe através de um processo de mutações aleatórias e seleção natural (perdoe-me a brincadeira), possam dar origem a engenheiros.

    O fato de o relógio, assim como nosso universo, adquirir complexidade progressiva na medida em que é fabricado não prova de maneira alguma que o “relojoeiro” é “cego” mas, pelo contrário, aumenta a probabilidade de que ele não o seja.

  16. Caro Patrick

    Com todo o respeito acho que você está fazendo uma confusão dos diabos.

    Você pegou a analogia do relojoeiro de Paley (1802) e a virou de ponta cabeça.

    Paley faz uma comparação, um contraste entre o que é produto de engenho/design (o relógio), e o que não é (as rochas). Pois enquanto as rochas simplesmente existem (segundo Paley), não sendo produto de engenho, o relógio não existe simplesmente, ele tem que ser necessariamente o produto de um relojoeiro. Paley está fazendo uma analogia entre o relógio e as coisas vivas. Da mesma forma que um relógio, para existir requer um relojoeiro, as coisas vivas também demandariam um Relojoeiro Especial (deus). Porque? Porque assim como o relógio, as coisas vivas são complexas, em contraste com as rochas, que são simples, pois sendo simples, sua existência não é improvável, podendo ser obra unicamente do acaso, enquanto relógios e seres vivos, não podem ser obra do acaso, por complexos, logo improváveis.

    Então quando você diz que

    complexidade em si não é de fato improvável

    ou temos compreensões muito diferentes acerca do que é “complexidade” e “improbabilidade”, ou o que você está dizendo é puro nonsense. Do seu próprio ponto de vista inclusive, pois se um relógio não é improvável por complexo, então pode ser obra do puro acaso não necessitanto de um relojoeiro”, afinal.

    Agora, e é aqui que a analogia original de Paley se mostra limitada, nós já sabemos de antemão, de forma independente: o que é um relógio, qual seu propósito, quem o fez, como o fez. Da mesma forma que arqueólogos quando idenificam um sítio, já sabem de antemão que os artefatos encontrados são “produto de inteligência”.

    A segunda grande falha na analogia é quje bactérias (ou qualquer oujtro organismo FTM) não são relógios, não são comparáveis a relógios, pois relógios tem que ser construidos, montados, um a um, peça por peça. Seres vivos não são assim. Seres vivos fazem uma coisa chamada reprodução. E como ao contrário, relógios não se reproduzem, não tem mutações, não formam “populações” que competem pelos recursos limitados do ambiente, logo não sofrem seleção natural, portanto não se modificam no tempo. Isto é, não evoluem (os relógios).

    Sobre ser improvável que efeitos complexos surjam a partir de elementos e causas simples, trata-se de uma afirmação demonstravelmente falsa. Sabe o clima? Pois é, o clima é um sistema altamente complexo, que se forma à partir de elementos e causas simples. E no entanto, há não muito tempo, parcela significativa da humanidade atribuía o clima aos humores e idiossincrasias dos deuses. Você de via pensar nisso.

    []’s

  17. Este negócio de ter que ficar falando “Gato” é complicado. É uma estratégia retórica para desmoralizar o interlocutor a priori? (rs). Vamos lá…
    Desculpe-me, meu caro pré-cambriano (o pseudônimo é gato pré-cambriano não é isto?), mas penso que quem está fazendo confusão é você e explico de que tipo. Trata-se de uma confusão de categorias. “Improbabilidade” é uma categoria que se aplica a acontecimentos, nunca a propriedades de objetos. “Complexidade” é uma propriedade de certos objetos. Não se pode dizer, portanto, que ela é, em si, mais ou menos provável. A rigor, uma vez que a reconheçamos como a propriedade de certos objetos, a sua improbabilidade é sempre nula visto que ela é um fato. Quando as pessoas afirmam que a complexidade é improvável elas estão usando uma expressão linguística compactada que quer dizer, na verdade, que certos acontecimentos que resultam no surgimento de objetos complexos é improvável. Não tem sentido dizer, por exemplo, que um relógio ou um quebra-cabeças é improvável. É improvável, por outro lado, que se possa montar estes objetos dentro de um tempo razoável através de tentativas aleatórias de encaixe.
    Quanto a analogia de Paley, eu não estava defendendo-a (na verdade nem estava pensando nela), mas apenas criticando o raciocínio absurdo e auto-contraditório com que Dawkins tenta provar a improbabilidade da existência de Deus.
    Dawkins começa nos falando de um projetista de relógios e nos pergunta se não seria tentador usar “a mesma lógica” para “aranhas” e “pessoas” em relação a Deus. Depois nos diz que a analogia é inválida pois um projetista destes últimos objetos teria que ser mais complexo que seus projetos e, portanto, mais “improvável”. Ora, se isto fosse verdade para o par “Deus” e “pessoas” não haveria nenhum motivo (ou pelo menos Dawkins não o explicita) para que não o fosse também para o par “engenheiros” e “relógios”. A conclusão, deveras cômica, que se infere do “raciocínio” de Dawkins é que quanto mais nos depararmos com objetos complexos, sejam relógios ou naves espaciais, menos autorizados estamos a atribuí-los a causas inteligentes. Afinal de contas: quanto mais complexo o objeto, mais complexo o seu suposto criador e, portanto, “improvável” na expressão de Dawkins.
    Finalmente, com relação ao clima, embora eu desconheça o assunto, parece-me implausível que o tipo de “complexidade” envolvida seja o mesmo encontrado em máquinas ou seres vivos. O clima parece-me “complexo” apenas pela multiplicidade de elementos envolvidos enquanto que em máquinas e seres vivos haveria uma espécie de harmonia das partes para a consecução de uma ou mais finalidades. Seria a diferença detectada por Fred Hoyle entre o furacão e o 747 plenamente funcional (que jamais poderia resultar da passagem daquele por um ferro velho), ou entre uma música e um conjunto de notas musicais numeroso mas inteiramente caótico. Corrija-me quanto a isto, por favor, se eu estiver errado.

    Atenciosamente,

    Clifford.

  18. Aonde se lê: “… que certos acontecimentos que resultam no surgimento de objetos complexos é improvável”, leia-se, por favor, “são improváveis”.

  19. Patrick

    Meu caro, Gato Precambriano é o nome do meu blogue, nome que tem uma razão de ser. Lamento que você se sinta embaraçado, mas sem ofensa, realmente não acho que seu embaraço seja problema meu. Contudo, pode ficar à vontade, chame de Precambriano, ou GPC, como se sentir mais confortável.
    Olha, eu reli meus comentários e não acho que eu esteja confundindo categorias não. Concordo quando diz que:

    Quando as pessoas afirmam que a complexidade é improvável elas estão usando uma expressão linguística compactada que quer dizer, na verdade, que certos acontecimentos que resultam no surgimento de objetos complexos é improvável.

    Agora, penso que nossa divergência, se há, está em que você quase chegou no ponto com Dawkins:

    Ora, se isto fosse verdade para o par “Deus” e “pessoas” não haveria nenhum motivo (ou pelo menos Dawkins não o explicita) para que não o fosse também para o par “engenheiros” e “relógios”.

    Essa é precisamente a questão. Engenheiros são mais complexos que os relógios que fazem, logo são ainda mais improváveis, no mesmo sentido em que relógios são improváveis. Ou seja, os engenheiros são uma explicação para os relógios, mas os próprios engenheiros demandam uma explicação, pois engenheiros, por complexos e improváveis não existem por acaso. Só que nós já sabemos de antemão que engenheiros em primeiro lugar, e o que explica a existência deles. Sabemos que engenheiros pertencem a uma espécie particular de macacos bípedes sem pelos, que só começaram (vindos de primórdios muitíssimo mais simples) a participar da festa (que já dura 4,567 bilhões de anos) há meros 200 mil anos. Sabemos, além disso, que só nos últimos séculos desse período é que podemos falar em engenheiros mais ou menos como os entendemos hoje. E que, além disso tudo, é necessário um longo tempo de crescimento, maturação e formação, até que um dos macacos bípedes sem pelos possa ser considerado engenheiro, e faça relógios que funcionem. Daí que, se engenheiros são tão complexos e improváveis, pois leva um tempo enorme para fazer um, eles não existem simplesmente, mas tem uma história, então o que dizer de algo que é necessáriamente maior, mais antigo, e mais complexo que os engenheiros? Esse algo tãopouco poderia simplesmente existir, pois isso seria muitíssimo mais improvável. Esse é o raciocíno de Dawkins pelo que entendo, e não vejo nada de cômico nele.
    Quando você diz que:

    A conclusão, deveras cômica, que se infere do “raciocínio” de Dawkins é que quanto mais nos depararmos com objetos complexos, sejam relógios ou naves espaciais, menos autorizados estamos a atribuí-los a causas inteligentes. Afinal de contas: quanto mais complexo o objeto, mais complexo o seu suposto criador e, portanto, “improvável” na expressão de Dawkins.

    O que acho cômico aqui é que você continua fazendo uma analogia equivocada, como se sequer analogia fosse. Como eu já disse, relógios e naves espaciais não são comparáveis a organismos vivos. Relógios e naves espaciais não fazem sexo, e não se reproduzem. Eles são fabricados, algo que nós já sabemos de antemão de forma independente. Se você quer alegar que seres vivos são fabricados, assim como os relógios, ou que o foram na origem por um Grande Engenheiro, não basta apontar para a complexidade dos seres vivos, e dizer que se trata de obra do GE, se você não mostrar antes, evidências independentes de que há Um Grande Engenheiro para começar.
    Vale repetir, para ficar bem claro: todas as analogias entre seres vivos e artefatos, sejam relógios ou caças F-22, como forma de inferir a existência de um “engenheiro” para os primeiros, assim como há para os últimos, são falaciosas na medida em que ignoram o fato crucial de que nós já sabemos, de antemão e de forma independente, que relógios e caças são projetados e construidos, e que existem projetistas e construtores de caças e relógios.
    Hoyle foi um grande astrofísico que defendeu até o fim um Modelo Cosmológico equivocado (foi ele que cunhou o termo Big Bang com intenções de chacota), e meteu os pés pelas mãos ao tratar da origem da vida na Terra, a qual ele acreditava ter vindo do espaço em cometas, ao criar o argumento do Tornado no Ferro-Velho, que é tão equivocado que ficou conhecido como A Falácia de Hoyle. No mais eu não disse que a complexidade do clima era igual à complexidade dos seres vivos, ou do mesmo “tipo” (aliás a complexidade de máquinas não é do mesmo “tipo” da dos seres vivos tãopouco), há diferentes níveis e “tipos” de complexidade na natureza. O que eu destaquei é que o clima é um exemplo de complexidade que surge de processos simples, ao contrário do que você parece crer. A Evolução é outro exemplo.

    []’s

  20. Caro GPC,

    Em primeiro lugar é obvio que eu não acredito realmente que você tenha colocado o nome “Gato” para embaraçar o interlocutor. Não foi uma censura moral e sim uma inocente piada!!! Daí o “rs”. Esqueçamos isto como um mero mal-entendido e vamos, portanto, ao que interessa.
    Você começa por dizer que concorda comigo em que a improbabilidade é uma categoria que se aplica a acontecimentos. Nós concordamos também em que acontecimentos complexos dado um estado inicial qualquer são mais improváveis que acontecimentos simples. O surgimento de um origami, por exemplo, é mais improvável que o surgimento de uma folha de papel lisa até mesmo porque pressupõe a existência desta. A causa do origami, por sua vez, também pode ser considerada um acontecimento e, dada a situação antes da sua ocorrência, ter sua probabilidade avaliada . A causa inicial que dá origem a todos os acontecimentos não é porém um acontecimento, ela é a própria condição inicial que permite o surgimento de qualquer acontecimento e cuja improbabilidade é, portanto, nula. Uma vez admitida a existência desta primeira causa o que nós podemos nos perguntar é se, dados os seus efeitos, é razoável supor que ela é complexa. Deus, portanto, considerado enquanto causa inicial de todos os acontecimentos, pode ser avaliado como simples ou complexo, jamais como provável ou improvável.
    Por tudo o que podemos observar, entretanto, em relações de causa e efeito efetivamente observáveis, efeitos complexos são melhor explicados por causas complexas que por causas simples. Ou seja: a medida em que aumenta a complexidade dos efeitos se torna menos provável que eles possam ser explicado por causas simples (estamos falando obviamente de complexidade harmônica, tal qual a encontrada por Fred Hoyle no 747, e não da complexidade caótica do tempo). Quando os arqueólogos encontram, por exemplo, artefatos complexos, atribuem automaticamente a sua fabricação a sociedades complexas e quanto maior a complexidade dos artefatos mais razoável é inferir que as sociedades que as produziram sejam proporcionalmente complexas.
    Se levássemos, porém, o argumento de Dawkins a sério, as coisas não funcionariam assim. A medida em que aumentasse a complexidade dos efeitos diminuiria a probabilidade de que eles fossem produzidos por causas complexas pois as causas, por complexas, seriam mais improváveis que os próprios efeitos e não poderiam ser aduzidas como explicação. Os arqueólogos estariam, assim, proibidos de explicar artefatos complexos por referência a sociedades complexas pois os sr.Dawkins lhes faria a “temível” objeção: “tais sociedades teriam que ser muito complexas, mais complexas até que os próprios artefatos que vocês querem explicar por meio delas, e como complexidade é igual a improbabilidade é muito improvável que elas possam ter existido”.
    Uma outra maneira de mostrar que o argumento de Dawkins é absurdo e falacioso é considerá-lo em conjunto com o argumento de Paley. Paley nos diz que efeitos simples não são evidência probabilística de causas complexas. Você certamente concorda com Paley sobre isto, não é? Pois bem, se Dawkins estivesse certo, efeitos complexos também não poderiam ser evidência probabilística de causas complexas. Em outras palavras: nada no universo poderia contar como evidência probabilística de causas complexas e estaríamos em plena cegueira, não digo “anti-científica” mas “anti-empírica”. A princípio parece-me que ninguém “acredita” nisso realmente e que se “acreditasse de verdade” não poderia distinguir entre a ação de entes complexos e não complexos, entre a ação humana e a ação de uma pedra.

    Atenciosamente,

    Clifford.

  21. Caro Patrick

    Eu receio que nossa conversa esteja se esgotando, pois você me parece estar dando voltas
    em torno do mesmo ponto, e evitando enfrentar a questão à qual já me referi mais de uma
    vez, que é o fato de que nós já sabemos de antemão, de forma independente, que pessoas
    existem, que tem inteligência, e a usam para manufaturar folhas de papel, confeccionar
    peças de origami, fazer potes de cerâmica, pinturas e construir aeronaves. Nós já sabemos
    antes de começar que pessoas existem e fazem todas essas coisas. A probabilidade da
    existência de seres humanos, não está em discussão, pois já sabemos que humanos
    existem independentemente do fato deles construírem coisas, e das coisas que eles
    constroem, logo seu argumento é inválido.
    Arqueólogos não saem por aí ao léu procurando por “sinais de inteligência”, isso é ridículo.
    Nenhum arqueólogo em sã consciência chega para um colega numa escavação e,
    exibindo um pedaço de cerâmica diz:- ‘olhe! Achei algo que exibe informação complexa
    especificada’;- ‘Ah, isso certamente possui origem inteligente’; -‘inteligência?! Uau! Quem
    poderia imaginar?”. NINGUÉM faz isso.
    Seu argumento também não se sustenta em outro aspecto, você parte do pressuposto de
    que há uma causa inicial que dispensa explicações ela própria, só que essa é justamente a
    questão em disputa, logo você está fazendo uma tautologia.
    Você, como muitos críticos de Dawkins, inclusive ateus, me parece não ter levado na devida
    conta o princípio do qual ele parte, que é supor que a existência de Deus pode ser
    investigada científicamente. Ele parte deste princípio, seu livro não faz nenhum sentido fora
    desse contexto, e é por isso que ele não diz que Deus não existe, mas sim que sua
    existência é muito improvável, pois sempre é possível que apareçam evidências (supondo
    que haja acordo acerca do que seriam tais evidências, é claro) que corroborem sua
    existência (Deus sempre poderia resolver se manifestar de forma cabal, clara, não ambígua, de tal
    modo que até Dawkins e P.Z. Myers seriam forçados a dizer algo como: ‘I was wrong. HE
    exists. He sucks.’). De modo que o que ele está fazendo não é uma discussão metafísica,
    filosófica. É claro que pode-se critica-lo justamente por isso, mas aí a crítica deve se voltar a
    esse pressuposto, pois Deus pertenceria aos domínios da metafísica, não da Ciência, etc.,
    mas não ao argumento em si, pois o argumento só faz sentido dado o pressuposto.

    []’s

    P.S.: Sem querer te cortar ou fugir da discussão, eu estou achando que nossa conversa está cada vez mais se afastando do tópico, de modo que não devo prosseguir aqui. Estou preparando um post sobre esse argumento do Dawkins, para publicar mais cedo ou mais tarde no meu blogue, de modo que se você quiser poderemos continuar a conversa lá eventualmente. Ok? Até.

  22. E´um questão fácil de resolver, basta verificar pra onde as evidências tem apontado após 150 anos de darwinismo!

    • Oi Waldo,

      Correção: após 150 de Teoria da Evolução. Afinal, Wallace tem seu crédito nesta história, e outroa também.

      Para onde as evidências têm apontado? Para a evolução através da seleção natural, óbvio!

      abraço,
      Roberto

      • Microevolução sim, mas macroevolução, não! A proposta de Darwin era explicar a origem das espécies e não mudança de características por meio natural ao longo do tempo.

      • Oi Waldo,

        Acho que você está enganado. Afinal de contas, se não ocorresse macroevolução como poderíamos explicar a abundância de formas transicionais encontradas no registro fóssil? Por exemplo, a forma transicional entre peixes e anfíbios, Tiktaalik roseae, descoberta em 2004. Esta forma transicional explica perfeitamente a (macro)evolução entre peixes como Eusthenopteron foordi e o tetrápode Acanthostega gunnari. Outro exemplo é no caso de répteis -> pássaros: Compsognathus (dinossauro) -> Archaopterix (forma transicional) -> pássaros que não voam (avestruzes, emas, kiwis, etc). Ainda outro exemplo são as formas transicionais encontradas entre mamíferos terrestres e baleias, pois as baleias derivam dos primeiros: Indohyus -> Pakicetus -> Ambulocetus -> Rodhocetus -> Dorudon -> Balena.

        E por aí vai.

        Abraço,
        Roberto

  23. A discussão acima me fez lembrar do que afirmou o sacerdote anglicano Alan Richardson (1905-1975), em seu livro ‘Apologética cristã’: “A fé é a categoria-chave da epistemologia”.

    Com isso, quero dizer que o fazer científico necessariamente carrega pressupostos filosóficos (como o naturalismo, o teísmo, o deísmo), os quais por natureza não são verificáveis empiricamente, “cientificamente”.

    Abraços,

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