A “lógica” do argumento do “design inteligente” é muito clara. Em vez de buscar um conjunto de respostas com base no método científico, busca somente em promover a “inferência do design”: que tudo é projetado (“designed”) por um projetista (“designer”).
Michael Behe, um dos proponentes do Movimento do Design Inteligente (MDI), explica o “argumento do design” dizendo que “Se o designer é realmente Deus, logo existe uma boa razão para supor que os mecanismos do design irão para sempre permanecer desconhecidos” (M. Behe, Reply to my critics, Biology and Philosophy, 2001, vol. 16, 698). Esta é uma argumentação digna de encerrar qualquer discussão sobre este assunto, uma vez que parte da premissa que as razões para o design não podem ser conhecidas. Logo, não podem ser questionadas. Segundo William Dembski, outro membro do MDI, “(…) o design se manifesta como uma metáfora vazia (…) um princípio inquestionável desprovido de significado empírico”. (W. Dembski, Intelligent Design, páginas 78-79 e 187-210).
Proponentes do MDI argumentam que várias estruturas biológicas são complexas demais para terem origem em causas naturais, principalmente algumas sub-estruturas celulares, como o flagelo. Stephen Mayer, por exemplo, diz que o DNA se parece com um software de computador, ou com uma “forma avançada de nanotecnologia”, que deve ter tido um programador ou “designer”. Afirma que “sabemos, de acordo com nossas experiências, que sistemas que apresentam tais características invariavelmente têm origem em causas inteligentes”. Afirma ainda, segundo ele cientificamente, que “o design inteligente, o qual está além de qualquer explicação, justifica a origem de máquinas moleculares nas células”. Desta forma, conclui: “organismos vivos parecem projetados (“designed”) porque foram realmente projetados por um projetista (“designer”)” (Stephen C. Mayer, Not by chance, National Post, 1º de dezembro de 2005).
É desta forma que os membros do MDI apresentam sua tese para responder a questões científicas. O cerne ideológico do design inteligente jaz, assim, fora de qualquer questionamento científico, uma vez que não pode ser avaliado por evidências empíricas. Como afirma David Hume (1975), argumentar de tal forma é como “abraçar um princípio, o qual é incerto e sem propósito. É incerto porque o assunto permanece totalmente além da experiência humana. É sem propósito por que nosso conhecimento desta causa [o design], originária diretamente da natureza, não pode jamais, de acordo com o raciocínio lógico, voltar à esta causa com qualquer nova inferência”.
De acordo com Behe, evidências de “design inteligente” em sistemas biológicos são óbvias pelo fato de muitos componentes destes sistemas apresentarem o que chama de “complexidade irredutível”. Por “complexidade irredutível” Behe entende como sendo “sistemas biológicos constituídos por partes integradas que contribuem para o funcionamento destes sistemas como um todo”. Assim, “sistemas irredutivelmente complexos não podem se originar de modificações sucessivas de um sistema precursor, menos complexo, pois, se qualquer das partes [que formam o sistema] estiver faltando, estes não funcionarão. Sendo assim”, conclui, “é necessário um design inteligente para criar sistemas biológicos irredutivelmente complexos, e que sejam funcionais” (M. Behe, Darwin’s Black Box, página 39). Segundo Behe, exemplos de estruturas irredutivelmente complexas seriam o flagelo bacteriano, o olho humano, o cérebro humano e o DNA.
Para dar uma apelo científico à sua proposta, os membros do MDI não negam a teoria da evolução como um todo. Procuram apenas tentar enfraquecer a mesma, tentando ilustrar com alguns “exemplos irrefutáveis” de complexidade irredutível que, aparentemente, a teoria da evolução não pode explicar. Desta forma, cientistas são forçados a tentar encontrar explicações para tais “lacunas da teoria da evolução”. Se não podem explicar, a teoria da evolução está falha.
Dois pontos devem ser aqui ressaltados. Em primeiro lugar, nenhuma evidência empírica foi fornecida pelos proponentes do design inteligente que demonstre experimentalmente a “complexidade irredutível”. Logo, se esta não pode ser comprovada, não pode ser aceita como forma de refutar a teoria da evolução. Em segundo lugar, o fato de determinados fenômenos não poderem ser explicados não quer dizer, em absoluto, que necessitam de uma explicação sobrenatural (o “design” de um” designer”). A história comprova que este argumento é uma grande falácia. Por exemplo, durante a Idade Média, a Igreja Católica adotou a visão de Ptolomeu que a Terra era o centro do universo, uma vez que a própria Igreja não dispunha de outro argumento. Até que Galileu demonstrou que a Terra gira em torno do Sol (embora tenha sido condenado pela Igreja por afirmar isso). Até a época de Cristóvão Colombo se acreditava que a Terra era plana. Newton demonstrou leis de mecânica clássica que explicam o movimento dos corpos, de forma alheia a qualquer “vontade”. Porém, Newton achava que deus era necessário para manter os planetas em suas órbitas. Laplace mais tarde mostrou que mecanismos puramente naturais fariam este trabalho, utilizando deduções lógicas e matemáticas a partir das teorias do próprio Newton.
A estrutura da matéria por séculos permaneceu desconhecida e, por isso, seria de atributo divino. Até que cientistas como Lavoisier, John Dalton, Avogadro, Gay-Lussac, Berzelius, Cannizaro, Berthelot, Kekulé, Mendeleev, Boltzmann, Le Bel, Van’t Hoff, Thomson, Planck, Rutherford, Bohr, Schrödinger, de Broglie e Heisenberg mostraram que a estrutura da matéria não tem nada de divino. A utilização de “evidências sobrenaturais” para explicar o que não pode ser explicado faz parte de uma estratégia denominada de utilização do conceito de um “deus das lacunas”: se não existe explicação, a única explicação possível é sobrenatural.
Porém, Behe admitiu sua falha de argumentação lógica sobre o conceito de complexidade irredutível, explicando-a como sendo uma “assimetria” de seu argumento, que falha ao se ater a uma inferência primária: que a evolução não pode originar instâncias de “complexidade irredutível” (Behe, Reply to my critics, Biology and Philosophy, 2001, 16, 695). Em seu último livro, “The Edge of Evolution”, Behe abandonou o conceito de “complexidade irredutível” em favor de questionar a natureza aleatória das mutações que dão origem a mudanças no código genético, sujeitas à pressão seletiva que levam à seleção natural. Behe argumenta que tal variação aleatória não fornece variação suficiente para originar mudanças evolutivas significativas (mas justificariam apenas pequenas mudanças). Assim, seria necessário um projetista (“designer”) não especificado, atuando como um profissional de engenharia genética, que seria o orquestrador de tal processo que origina novas espécies. Todavia, tal argumento já foi colocado por terra há um bom tempo atrás após a realização de trabalhos de geneticistas matemáticos (como J. B. S. Haldane e Richard Lewontin), que estabeleceram que a taxa de mutações de ocorrência natural excede, em muito, a taxa necessária para que os processos de seleção natural originem a novas espécies.
Como delineado acima, a “lógica” do “argumento do design” não se sustenta, nem do ponto de vista lógico, nem epistemológico, nem científico.
Bibliografia consultada
Andrew J. Petto and Laurie R. Godfrey, Scientists Confront Creationism – Intelligent Design and Beyond, W. W. Norton & Co., 2007.
D. Hume, Enquiries Concerning Human Understanding and Concerning the Principles of Morals, Oxford University Press, 1975, página 142.
Dembski, Intelligent Design: The Bridge Between Science and Theology, Downers Grove, Illinois: InterVarsity press, 1999.
Ernst Mayr, What Evolution Is, Basic Books, New York, 2001.
J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.
John A. Paulos, Irreligion, Hill and Wang, New York, 2008.
Lynn Margulis and Dorion Sagan, What is Life?, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 2000.
M. Behe, Darwin’s Black Box, Free Press, New York, 1996.
Michael Shermer, Why Darwin Matters, Owl Books, , New York, 2006.
Niall Shanks, God, the Devil and Darwin, Oxford University Press, 2006.
Philip E. Johnson, “The Wedge of Truth: Splitting the Foundations of Naturalism, Downers Growe, Illinois, Intervarsity Press, 2000.
Categorias:ciência, educação, informação

Caro Roberto,
Gostei muito do seu blog, principalmente por suas respostas sempre argumentadas em literatura. Certamente, se nos encontrássemos em uma academia o senhor seria meu professor, devido sua vasta experiência e respeitável currículo. Por isso, é com todo respeito, que gostaria da sua permissão para continuarmos esta conversa sobre o TDI e Evolucionismo.
Partindo desta posição, onde meus argumentos possivelmente serão mais ignorantes de literatura do que os seus, gostaria de fazer-lhe uma pergunta:
Do ponto de vista evolucionista, como o senhor acredita que se desenvolveu o mecanismo biológico conhecido como sintese protéica?
Atenciosamente,
Hugo Hoffmann
Caro Hugo,
Tudo bom? Minha curiosidade é meu maior agente motivante, assim como a sua também. O mérito de nossa troca de idéias é mútuo.
Tua pergunta pode ter algumas respostas. Caso você queira conhecê-las todas, o livro “The Emergence of Life on Earth”, de Iris Fry (Rutgers University Press, 2000) relata a história do desenvolvimento das hipóteses, e suas verificações, sobre possíveis cenários do surgimento da vida na Terra.
Atualmente o modelo mais aceito para explicar a auto-replicação das primeiras moléculas biológicas é a do “mundo de RNA”. Como exemplo da validade desta hipótese, veja o artigo “Self-Sustained Replication of an RNA Enzyme”, Lincoln, T., & Joyce, G. (2009). Self-Sustained Replication of an RNA Enzyme Science, 323 (5918), 1229-1232 DOI: 10.1126/science.1167856.
O livro que eu mais gosto para explicar tais hipóteses é o de Christian de Duve (prêmio Nobel de medicina de 1974), “Singularities”. Neste livro de Duve fundamenta suas hipóteses levando em conta o valor (numérico) dos potenciais de reações de óxido/redução dos sistemas biológicos, pois estas podem ser agrupadas dentre aquelas que apresentam maior diferença de potencial redox para as que apresentam menor diferença de potencial redox. É um argumento extremamente elegante.
Partindo do pressuposto que o RNA já existia (esta é a premissa do modelo “mundo de RNA”, que, dentre os “polímeros biológicos”, o RNA foi o que surgiu antes), este pode ter atuado reagindo com aminoácidos, através de seu grupo fosfato, formando anidridos mistos fosfato-carboxilato, tal como o ATP (trifosfato de adenosina) exerce suas funções celulares atuais. Ao formar funções anidrido misto fosfato-carboxilato, o grupo ácido dos aminoácidos se torna extremamente ativado e mais suscetível para sofrer condensação com um bom nucleófilo, como o grupo amino de outro aminoácido. Mas, como realizar tais reações em meio aquoso e tão diluído, como os oceanos? Novamente, se aceita que determinadas regiões da Terra apresentariam maiores concentrações de tais moléculas, em função das características ambientais: cercanias de vulcões e de ventos hidrotermais, lugares onde há calor e emanação de grandes quantidades de enxofre, pois o enxofre é um átomo muito especial nas reações biológicas (pode atuar tanto como nucleófilo como grupo abandonador em reações de condensação e de substituição). Perto de vulcões e de ventos hidrotermais pode ter ocorrido um acúmulo de moléculas “pré-biológicas” que, devido às condições ambientais, foram reagindo entre si, dando origem a moléculas cada vez mais complexas.
No caso específico dos polipeptídeos, de Duve indica que
“ (…) optimization of the code occurred very early in the development of protein synthesis, at a stage when the process was still dominated by RNA molecules and the synthesized proteins were still very short and few in number” (página 105).
“(…) the first proteins must have appeared long before the genetic code had achieved its present structure and must have played a key role in the selective process whereby this structure was attained” (página 106).
“(…)The first proteins were almost certainly very short. If the first RNA genes were on the order of 75 nucleotides long, their translation products would, at the most, have been 25 amino acids long, possibly even shorter if, as can be expected, the molecules were not translated over their whole length. It thus appears that protein molecules this short can display enzyme-like catalytic activities” (página 106).
“(…) the maximum length of an RNA molecule is probably set by the fidelity of its replication. In line with this requirement, the pace-setting event in protein evolution could well have been the progressive improvement in the accuracy of the replicating catalyst, presumably a protein enzyme that replaced the primitive replicase. Given this condition, longer RNAs could survive repeated replication, leading to longer proteins, among which, presumably, more efficient enzymes would be present, enough for selection to favor the protocells in which the changes took place. Thus, proteins would have climbed from one level of complexity to another, bootstrapped, so to speak, by the progress achieved by one of them, RNA replicase” (páginas 106-107).
Neste livro, “Singularities”, de Duve dedica um capítulo inteiro ao surgimento da síntese de polipeptídeos.
Mas, e os experimentos? Inúmeros. O livro de Pier Luisi Luigi, “The Emergence of Life – From chemical Origins to Synthetic Biology” (Cambridge University Press, 2006) traz uma revisão enorme sobre os recentes avanços nesta área. A revista científica “Journal of Molecular Evolution” é especializada neste assunto.
Para exemplos mais específicos, no que se refere à síntese de proteínas [moléculas contendo aminoácidos com massa molecular acima de 5.000 unidades de massa atômica], esta é extremamente complicada em meio aquoso, mesmo em condições laboratoriais “artificiais” (mas, veja um exemplo de como isso pode ser realizado: Nisanth N. Nair, Eduard Schreiner, and Dominik Marx, Peptide Synthesis in Aqueous Environments: The Role of Extreme Conditions on Amino Acid Activation, Journal of the American Chemical Society, volume 130, páginas 14148-14160, 2008).
No artigo de André Brack, “From Interstellar Amino Acids to Prebiotic Catalytic Peptides: A Review, revista “Chemistry and Biodiversity”, de 2008 (páginas 665-679)” este relata estudos nos quais se formaram peptídeos em meio aquoso e condições pré-bióticas (referências: H. Yanagawa, K. Kojima, M. Ito, N. Handa, Journal of Molecular Evolution, volume 30, página 31, 1990; M. Ito, N. Handa, H. Yanagawa, Journal of Molecular Evolution, volume 31, página 187). Experimentos de síntese pré-biótica na presença de minerais, tais como em argilas, rochas e sedimentos, também foram realizados e levaram à formação de peptídeos com até 56 aminoácidos, ou seja, proteínas (referências: M. Paecht-Horowitz, J. Berger, A. Katchalsky, Nature, volume 228, página 636, 1970; J. T. Warden, J. J. McCullough, R. M. Lemmon, M. Calvin, Journal of Molecular Evolution, volume 4, página 189, 1974; M. Paecht-Horowitz, F. R. Eirich, Origin of Life and Evolution of Biosphere, volume 18, página 359, 1988). O artigo de Brack é uma revisão bastante completa (15 páginas), e inclui tópicos tais como “Prebiotic Production of Amino Acids”, “Prebiotic Condensation of Amino Acids to Peptides”, “Thermostable and Enantioselective Peptides”, “Prebiotic Catalytic Peptides” e “Peptides and Self-Replication”.
o livro e bom e atraente gostei muito ler valeu os pensamentos escritos