Jacarandás e jacarandás

Atualmente o controle de qualidade de madeiras nobres é de especial importância, tendo em vista o desaparecimento de algumas espécies de árvores que foram continuamente exploradas para fins comerciais. Tal é o caso do jacarandá da Bahia (Dalbergia nigra), cuja belíssima madeira é utilizada na confecção de móveis, pisos e instrumentos musicais. Pelo fato de existirem várias espécies de jacarandás (plantas do gênero Dalbergia, mas também de outros gêneros), o controle de qualidade da madeira destas espécies pode ser útil para a sua preservação.

A distinção destas espécies costuma ser feita pela análise anatômica da madeira. Porém, a distinção anatômica entre D. nigra e D. spruceana (jacarandá do Pará) não é trivial. Técnicas de classificação estatística aliada à análise anatômica podem indicar madeiras que não são de D. nigra, mas não permite distinguir amostras de D. spruceana, D. stevensoonii e D. tucurensis.

Outras maneiras para se distinguir D. nigra e D. spruceana incluem medidas de densidade da madeira, bem como diferenças na fluorescência de extratos destas plantas. A fluorescência destes extratos se deve à presença de substâncias fenólicas, como isoflavonas, flavonóides e pterocarpanas. Dentre estas, a caviunina (1) foi isolada de D. nigra por Gottlieb e Magalhães em 1961.

A análise detalhada do cerne da madeira de D. nigra e D. spruceana utilizando HPLC-UV-HRESIMS permitiu a distinção entre estas duas espécies de acordo com seus perfis químicos, reflexo da ocorrência de diferentes tipos de derivados fenólicos. Porém, os perfis químicos de diferentes amostras de D. nigra ou D. spruceana mostraram não ser idênticos. O que permite distuinguir entre estas duas espécies é que a dalnigrina (2), um novo neoflavonóide, só foi detectada em D. nigra, enquanto que a pseudobaptigenina (3) pôde ser detectada em várias espécies de Dalbergia, mas não em D. nigra.

Análises por HPLC-APCIMS realizadas com amostras de madeira confiscadas também indicaram a presença de kuhlmanina (4), com tempo de retenção muito próximo da dalnigrina, mas não a presença desta última, o que permitiu verificar que tais amostras não eram de D. nigra. Subsequentemente, 88 amostras de espécies de Dalbergia foram analisadas, e só se observou a presença de dalnigrina (2) em D. nigra (12 amostras). A presença de pseudobaptigenina pôde ser detectada em D. cearensis (1 amostra), D. frutescens (1 amostra), talvez em D. granadillo (1 amostra da Nicarágua), talvez D. miscolobium (1 amostra do Brasil), D. spruceana (8 amostras do Brasil), D. stevensonii (2 amostras do Belize) e D. tucurensis (1 amostra da Guatemala). A escolha da técnica de HPLC-APCIMS (Atmosphere Pressure Chemical Ionization) mostrou ser melhor, por fornecer respostas mais seletivas para compostos fenólicos.

Onze amostras de madeira retidas na Agência Alfandegária do Reino Unido foram então analisadas, algumas destinadas para a confecção de violões. Só uma das amostras mostrou conter dalnigrina. Tais análises podem ser realizadas com apenas 3 mg de raspas do cerne de Dalbergia spp. Portanto, o método de análise desenvolvido é aceitável e confiável para a identificação de D. nigra, uma espécie de jacarandá considerada em extinção.

O. R. Gottlieb, M. T. Magalhães, Chemistry of Brazilian Leguminosae.II.1 Isolation and structure of caviunin. Journal of Organic Chemistry, 1961, 26, 2449-2453.

ResearchBlogging.orgKite, G., Green, P., Veitch, N., Groves, M., Gasson, P., & Simmonds, M. (2010). Dalnigrin, a neoflavonoid marker for the identification of Brazilian rosewood (Dalbergia nigra) in CITES enforcement Phytochemistry DOI: 10.1016/j.phytochem.2010.04.011



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