Butantan, e as palavras fora de hora

O incêndio que destruiu boa parte do acervo de material biológico preservado do Butantan, exaustivamente coberto pela mídia, suscitou algumas reações pessoais no mínimo exageradas. Dois comentários agressivos foram feitos por Isaías Raw, ex-diretor do Butantan, e por Paulo Vanzolini, ex-diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Segundo reportagem dos jornalistas Ricardo Mioto e Reinaldo José Lopes, do jornal Folha de São Paulo, Isaías Raw declarou que

“O Butantan fez bem em deixar em segundo plano sua coleção biológica”. Raw afirmou que a pesquisa realizada no acervo destruído pelo incêndio no sábado era de “quinta categoria”, e defendeu a política de priorizar a fabricação de vacinas. “Aquilo [o acervo] é uma bobagem medieval. Você acha que a função do Butantan é cuidar de cobra guardada em álcool ou fazer a vacina para as crianças?”, disse. Para ele, “não dá para cuidar das duas coisas”. Declarou ainda que “Se eles não receberam dinheiro é porque não mereciam. Eu recebo todo dinheiro que eu peço. A Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] deu aquele prédio. Eles fizeram uma merda naquele prédio. Nem compraram o alarme para incêndio, alarme para incêndio você compra na esquina hoje.” Segundo Raw, foi um erro colocar os animais em álcool. “Isso é burrice, é para pegar fogo.”

Pesquisadores do Butantan também foram ouvidos pela reportagem da Folha de São Paulo, e reclamam que, durante a gestão da Raw, entre 1985 e 2009, a pesquisa com animais teria passado a ser vista como algo de pouca importância e recebido poucos recursos da Fundação Butantan, organização social gestora do instituto, que é do governo do Estado. Raw teria “pegado birra” dos que trabalhavam junto ao acervo, por considerá-los improdutivos.

Raw renunciou à presidência da Fundação Butantan no ano passado. O Ministério Público investigava um esquema de desvio de verbas públicas que envolvia mais de R$ 35 milhões. Antes da renúncia, Raw já tinha sido afastado preventivamente. Não existiam, porém, evidências de que ele tivesse se beneficiado do dinheiro. Raw continua como cientista do instituto, mas mas é presença constante na Fundação Butantan.

Já o zoólogo Paulo Vanzolini aproveitou para jogar mais lenha na fogueira, declarando à reportagem da Folha de S. Paulo que “Não quero falar mal de colega, mas [o que Raw diz] é verdade. Desde o começo é uma herpetologia [estudo de répteis e anfíbios] de segundo grau”, diz Paulo Vanzolini, 86, o mais importante zoólogo brasileiro vivo, segundo a Folha. “O Butantan nunca foi vanguarda cientificamente.” Vanzolini ainda assinalou “Agora, isso não tem nada a ver com o valor da coleção. A coleção era independente do valor científico dos cientistas. Ela tinha grande valor científico, tinha 80 mil bichos.”

Leia a reportagem completa do jornal Folha de S. Paulo, aqui. Leia também reportagem do jornal O Estado de São Paulo, com cartas públicas de Raw, bem como de pesquisadores do Instituto Butantan.

O Dr. Isaías Raw gosta de polemizar. Anos atrás, quando foi lançado o programa PROBEM da Amazônia,  Raw escreveu artigo para o Jornal da Ciência dizendo que a etnofarmacologia era uma grande bobagem e que o uso de fitofármacos era uma grande enganação. No mesmo artigo, defendeu ainda o uso de síntese combinatória para o desenvolvimento de medicamentos. Veja aqui o texto do Jornal da Ciência. Desde então, o acheflan ganhou o mercado e vários compostos isolados de diferentes espécies da biodiversidade brasileira por grupos de pesquisa brasileiros foram patenteados para serem licenciados para indústrias de cosméticos e farmacêuticas do Brasil.

As declarações dos Drs. Isaías Raw e Paulo Vanzolini, eminentes cientistas brasileiros, não contribuem, em absolutamente nada, para discutir o problema da preservação de coleções biológicas no Brasil, que é precária em quase todas as instituições que mantém este tipo de acervo. Em vez de polemizar com declarações totalmente dispensáveis, Raw e Vanzolini podem contribuir decisivamente para encabeçar uma ação em favor da melhoria das condições de preservação de coleções de animais do Brasil.

Segundo outra reportagem do jornal Folha de S. Paulo, aparentemente houve falhas também no planejamento da manutenção das instalações físicas do prédio do acervo., uma vez que a utilização de verbas para a infra-estrutura não contemplaram a manutenção destas instalações. Neste sentido, ações positivas foram encabeçadas pela FAPESP, BNDES e pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, que se prontificaram a contribuir para a construção de um novo prédio, com modernas instalações anti-incêndio, para abrigar o acervo herpetológico do Butantan.

Leia também o texto “Vacinas são prioritárias“, de Atila Iamarino, autor do blog “Rainha Vermelha”.



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4 respostas

  1. É isso aí, Roberto!

    É no mínimo preocupante que pesquisadores do calibre de Raw e Vanzolini, que inclusive fazem parte dos altos escalões de institutos de pesquisa, façam declarações estapafúrdias, desdenhosas e desprovidas de sentido em relação à pesquisa que se desenvolve no Brasil a duras penas.

    Mais positivo seria esses senhores lamentarem o ocorrido, apontando-o como um alerta, e fazer uso de seu prestígio junto aos órgãos de fomento para incentivar ações de melhorias efetivas das condições da pesquisa em vários institutos do País, que é precaríssima.

    Mas não. Atirar pedra é sempre mais fácil…

  2. Mas esse triste episódio fez brotar uma coisa boa: dia 21 foi lançada a campanha “Eu Amo o Butantan”: http://www.euamoobutantan.com.br/, utilizando Mídias Sociais (blog e Twitter – @euamoobutantan) como ferramentas de dispersão e mobilização em prol do Instituto Butantan. É desse tipo de atitude que nossos institutos de pesquisa precisam, e não de palavras acachapantes fora de hora.

    Toda força e sucesso para essa iniciativa!

  3. E uma boa notícia: Espécimes importantes escapam de incêndio no Instituto Butantan – http://bit.ly/9AudbG

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