O valor das coleções biológicas – I

“Coleções científicas biológicas representam o legado que deixamos às gerações futuras sobre o conhecimento da biodiversidade e de sua evolução. Os animais, plantas e microorganismos depositados não são apenas animais mortos colecionados por pesquisadores sádicos. Cada exemplar é acompanhado por extensa quantidade de informações a respeito do local da coleta, tipo de habitat e data da coleta que permitem a realização de pesquisas sobre evolução, biogeografia, mudanças climáticas, entre outras. Em muitas coleções biológicas no mundo existem exemplares de plantas e animais já extintos, muitos outros ainda não identificados ou estudados e que podem mostrar-se extremamente benéficos à humanidade no futuro.  A comparação de exemplares de diferentes locais e de diferentes momentos na história permite a reconstrução de ambientes e climas passados que aumentam nossa capacidade de entender o meio ambiente e prever suas mudanças. As coletas de hoje poderão informar pesquisadores daqui a 500 anos sobre como a fauna e flora responderão às mudanças climáticas e quais espécies não conseguirão se adaptar e poderão se extinguir. Estudos que não podemos fazer hoje devido à falta de tecnologia poderão ser desenvolvidos no futuro com os exemplares coletados agora. Atualmente somos capazes de estudar o conteúdo genético de animais coletados em 1800 e assim descobrimos que algumas espécies não são nativas dos locais onde foram atualmente encontrados. Desta forma, a perda de qualquer exemplar em uma coleção científica constitui a perda de um patrimônio da humanidade, o que se dirá da perda de uma coleção inteira!!”

Texto escrito para este blog pela Profa. Rosana Moreira da Rocha, do Departamento de Zoologia, Setor de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Paraná. Participa da Comissão Editorial – invertebrados marinhos da Revista Biota Neotropica, Comitê Científico do XXVII Congresso Brasileiro de Zoologia – 2008. Tem experiência na área de Zoologia, com ênfase em Taxonomia de Ascidiacea, atuando principalmente nos seguintes temas: taxonomia, sistemática molecular, ecologia e bioinvasão. Tem experiência na área de Ecologia com ênfase em ecologia de costões rochosos e ecologia de bioinvasão marinha. É pesquisadora 1D do CNPq (CV-Lattes). Página institucional: http://zoo.bio.ufpr.br/ascidia/

“Coleções biológicas são um testemunho de nossa biodiversidade conhecida e por conhecer, em escalas geográfica e temporal, para atender a demanda de projetos correntes, e outros com os quais sequer podemos sonhar no presente. Perguntas clássicas endereçadas às coleções, cujas respostas dependem da intermediação de taxônomos, frequentemente visam determinar a riqueza de determinada área, sob os mais diversos níveis de estresse ambiental; a diversidade genética, química ou mesmo morfológica (variabilidade) de determinada espécie; ou padrões hipotéticos de relação evolutiva entre distintas espécies, com o intuito de construir-se uma classificação mais estável e preditiva dos seres vivos. O preço de uma coleção é frequentemente incalculável, mas deve-se ter em mente que a obtenção de alguns espécimes pode implicar na condução de expedições a regiões remotas, desprovidas de infra-estrutura no local, envolvendo riscos diversos aos participantes. Quando falamos em coleções com dezenas ou centenas de milhares de espécimes, listadas dentre as maiores do mundo, estamos falando em um patrimônio impar, insubstituível, cuja constituição é uma obrigação para países megadiversos. Não constituí-las denota falta de seriedade e senso de responsabilidade. Péssimo! Porém, perdê-las é uma vergonha nacional de repercussões globais! Pesquisadores estrangeiros estarão se lamentando: “Oh my, if only I had had a chance to collect in those Brazilian localities?! Those specimens would now be safe!” E isto poderia ser a mais pura verdade. Depois de conhecer os níveis de segurança contra incêndios de diversas coleções européias, fico com uma sensação de que o esforço para constituir estas enciclopédias da biodiversidade brasileira deriva sobremaneira do amor dos pesquisadores que escrevem suas páginas, tendo como apoio uma enevoada motivação institucional, muito frequentemente limitada à cessão do espaço para seu armazenamento, além da água e luz imprescindíveis para sua leitura. Mas será que aquela pequena mata cercada de canaviais por todos os lados ainda representa de forma fidedigna a biodiversidade daquele antigo trecho de mata devastado a cinco décadas para a formação de pastagens? Não seria mais indicado verificar espécimes testemunho da própria floresta que virou pasto, coletados 50 ou mais anos atrás, e depositados em coleções nacionais oficiais de referência da biodiversidade? Será que aquele pequeno arquipélago distante 40 km do litoral pode nos dizer tudo que havia naquela baía costeira antes de sua eutrofização exacerbada? Parece-me óbvio que o preferível seria estudar material coletado na própria baía, quando ainda era prístina. Como reconhecer uma espécie invasora sem conhecer a biota de sua região de origem, ou a biota invadida? Talvez a sensação de fartura ainda permeie o imaginário nacional, com a conseqüência de não se dar o devido valor às coleções constituídas, já que, supostamente, “Ainda tem tanto bicho por aí!”, não é mesmo?”

Texto escrito para este blog pelo Professor Eduardo Hajdu, pesquisador do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Biodiversidade Marinha, sendo especialista em Porifera (esponjas marinhas), atuando principalmente nos temas da taxonomia, filogenia, biogeografia e bioprospecção. É pesquisador 1D do CNPq  (CV-Lattes). Página institucional: http://www.poriferabrasil.mn.ufrj.br/3-grupos/grupos.htm

Leia também o texto “Vacinas são prioritárias“, de Atila Iamarino, autor do blog “Rainha Vermelha“.



Categorias:ciência, educação, evolução, informação

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5 respostas

  1. RB
    Mais um excelente iniciativa sua ! Temos que dar um basta no monte de baixarias que endam falando sobre a tragédia do butantan. Há até um certo sadismo de algumas pessoas.

    veja um comentário deixado em meu blog

    http://cienciabrasil.blogspot.com/2010/05/cobras-e-lagartos-baixaria-no-butantan.html

    abraços
    MHL

  2. Oi, Roberto!

    Descobri esse artigo e acho que é interessante registrá-lo por aqui:

    CALLEFFO, Myriam E. V.; BARBARINI, Cibele C. A origem e a constituição dos acervos ofiológicos do Instituto Butantan. Cad. hist. ciênc., v.3, n.2, jul-dez. 2007, p. 73-100. Disponível em: http://bit.ly/a2roSA. Acesso em 10.jun.2010.

    Tudo de bom!

    Sibele

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