Enquanto que a necessidade do aumento da produção de alimentos é evidente, contornar este problema é bem menos evidente. Isso porque existe escassez de terras agriculturáveis, bem como a exaustão de terras cultivadas durante centenas de anos. Segundo a FAO (Organização para a Agricultura e Alimentos), a melhor abordagem para se resolver o problema da produção de alimentos seria o aumento da produtividade em vez de se plantar maiores extensões de terra. Desta forma, já há vários anos se iniciou o desenvolvimento de alimentos geneticamente modificados, com o objetivo de aumento de produtividade, aumento de resistência a pragas e até mesmo a melhoria da qualidade dos grãos (inserindo-se genes que controlam a produção de vitaminas, por exemplo). Mas, o melhoramento genético de alimentos ainda é um assunto muito polêmico.
Uma abordagem bem menos comum para se enfrentar o problema da produção de grãos (como trigo, arroz, cevada, centeio, trigo sarraceno) é de se entender melhor as relações entre micro-organismos e plantas que mantém associações essenciais para seu desenvolvimento com estes micro-organismos. Uma classe importante de micro-organismos associados a plantas são fungos que se associam às suas raízes, estabelecendo uma relação de mutualismo – ambos fungo e planta se beneficiam desta relação. O “produto” resultante desta associação é chamado de uma micorriza.
Um grupo de pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, procurou entender melhor as relações entre fungos e a planta de arroz (Oryza sativa), de maneira a verificar a importância destas relações para a produtividade da planta. Observaram que uma espécie de fungo, Glomus intraradices, não influenciava diretamente na produção de arroz. Desta forma, uma eventual manipulação da genética do fungo não influenciaria uma perda na produtividade. No entanto, após manipular o material genético do fungo, que contém vários núcleos celulares distintos, e podem se fundir misturando genes em diferentes combinações, os pesquisadores observaram que a associação do fungo manipulado com as plantas de arroz passou a aumentar a produtividade de grãos. E aumentar significativamente: 5 vezes mais.
Os genes que foram manipulados são aqueles que regulam o transporte de fosfato do solo na interface planta/fungo. O mais interessante é que as manipulações realizadas não envolveram a inserção de qualquer material genético estranho ao fungo. Somente os processos de troca genética e segregação genética, que ocorrem naturalmente nas células do fungo.
A abordagem utilizada para aumentar a produtividade do arroz é totalmente inédita. Mas são ainda estudos iniciais, realizados em estufa, em condições muito bem controladas. Transportar tais experimentos para terras agriculturáveis é bem mais difícil. Mas, é uma abordagem extremamente interessante, pois não envolve a manipulação genética do arroz, e sim do seu “amigo” fungo, que passa a colaborar melhor na nutrição da planta.
Uma idéia simples, mas muito engenhosa.
Angelard, C., Colard, A., Niculita-Hirzel, H., Croll, D., & Sanders, I. (2010). Segregation in a Mycorrhizal Fungus Alters Rice Growth and Symbiosis-Specific Gene Transcription Current Biology DOI: 10.1016/j.cub.2010.05.031
Categorias:ciência, informação, química
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