A necessidade de se obter dados de boa qualidade para se realizar pesquisas científicas é uma premissa básica. E o processo de obtenção de dados não é trivial. Pode variar desde se realizar medidas muito simples, como medidas de pH de um líquido aquoso ácido ou alcalino, como de medidas muito complexas, como a taxa de variação do genoma de uma determinada espécie biológica (por exemplo, a bactéria Escherichia coli: veja aqui).
Todavia, na maioria das vezes em que uma pesquisa é divulgada, seja na forma de publicações ou outra qualquer, muitas vezes os dados originais coletados se perdem ou são deixados em segundo plano, pois já foram utilizados e analisados para o propósito que foram coletados. E é por isso mesmo que se deve tomar extremo cuidado com anotações de caráter experimental, de maneira a que estas possam ser encontradas novamente caso necessário.
Uma história particularmente interessante aconteceu em 1994. Um artigo publicado na revista Angewandte Chemie International Edition in English apresentou os resultados de um estudo sobre indução de assimetria (quiralidade) em reações de Grignard ou reduções de cetonas com LiAlH4, quando tais reações eram realizadas na presença de um campo magnético. Este artigo causou uma enorme celeuma na comunidade científica. Cerca de 6 meses depois da publicação o autor principal retirou o artigo, argumentando que o aluno havia manipulado os dados anotados em seu caderno de laboratório (veja a referência aqui).
A aquisição, anotação e arquivamento de dados experimentais é extremamente importante. Muitas revistas científicas de química já exigem dos autores anexar cópia de determinados dados experimentais que confirmem os resultados obtidos, quando se submete um artigo para publicação. Tal é o caso do Journal of the Brazilian Chemical Society, no que se refere, pelo menos, à maioria dos artigos de química orgânica publicados nesta revista.
A preocupação do arquivamento de dados experimentais brutos foi recentemente manifesta em editorial da revista “The American Naturalist”. Neste editorial, os autores explicitam sua preocupação de que dados experimentais “brutos” sejam disponibilizados à comunidade científica para os mais diversos fins, como por exemplo para novas interpretações, em meta-análises e no controle de qualidade de dados experimentais. No caso de meta-análise, por exemplo, os resultados de análises estatísticas raramente são apresentados de forma detalhada. Com a disponibilização de dados experimentais, pode-se verificar a validade de análises estatísticas realizadas com os dados coletados. Além disso, a verificação dos dados pode ser útil para a observação de possíveis erros experimentais, tanto na coleta como na utilização dos dados. Os autores também argumentam que artigos científicos cujos autores disponibilizam os dados experimentais na forma eletrônica são frequentemente mais citados.
Mencionam também que o arquivamento e disponibilização eletrônica de dados experimentais “brutos” podem ser extremamente úteis para estudos futuros, quando tais dados não mais existirem (como dados de espécies biológicas, que podem existir hoje, mas podem ser extintas daqui a alguns anos). Um exemplo citado pelos autores é o Genbank, que é uma base de dados de sequências genéticas aberta ao uso público, que possibilitou a realização de uma enorme quantidade e variedade de estudos realizados utilizando-se sequencias genômicas de diferentes tipos de organismos vivos.
Os autores realizaram uma enquete e verificaram que 95% dos pesquisadores sobre evolução e ecologia apóiam o arquivamento eletrônico de dados experimentais brutos.
Assim, os editores de várias revistas científicas de biologia, dentre as quais The American Naturalist, Evolution, Journal of Evolutionary Biology, Molecular Ecology e Heredity, passarão a exigir dos autores que apresentem os dados experimentais utilizados para se realizar estudos quando estes foram submetidos para publicação. Os dados deverão ser depositados em bases de dados como o GenBank, TreeBASE, Dryad, ou a Knowledge Network of Biocomplexity. Tal iniciativa será iniciada em 2011. Procedendo de tal forma, será mais fácil e melhor realizada a avaliação de artigos submetidos para publicação nestas revistas. Os dados deverão ser arquivados de forma adequada a poderem ser utilizados em estudos futuros.
Os dados a serem arquivados poderão ser “bloqueados” até no máximo 1 ano após a publicação do estudo original que usou daqueles dados para ser realizado. Todavia, dados de extremo valor, e que podem ser mal utilizados, como de espécies ameaçadas de extinção, deverão estar sujeitos a uma proteção especial para serem posteriormente utilizados. Dados coletados com humanos deverão ser todos apresentados de maneira a preservar o anonimato dos voluntários do estudo.
Os autores do editorial acreditam que, procedendo desta maneira, dados experimentais de extremo valor poderão ser disponibilizados para futuras gerações de pesquisadores, para os mais diversos objetivos, principalmente para o avanço científico.
Whitlock, M., McPeek, M., Rausher, M., Rieseberg, L., & Moore, A. (2010). Data Archiving The American Naturalist, 175 (2), 145-146 DOI: 10.1086/650340
Categorias:ciência, educação, informação

Grande lebre levantada. Pesquisadores podem ficar meio reticentes. Talvez o prazo de um ano seja muito curto – muitos são ciosos com seus dados, acham que podem ser prejudicados por outros se aproveitarem de algo que lhes deu muito trabalho de obter. Um modo de se contornar isso é que trabalhos derivados dessas bases de dados dêem os devidos créditos à equipe que gerou tais dados – não necessariamente como coautoria, mas seria preciso criar uma métrica de “citação e reaproveitamento de dados”.
[]s,
Roberto Takata
Caro Takata,
Anexar dados experimentais relevantes hoje em dia já é prática comum em muitas revistas de química. A submissão de artigos para o Journal of Natural Products, por exemplo, exige a anexação de dados experimentais comprobatórios. No caso do Journal of Organic Chemistry (JOC), esta é uma prática de mais de uma década (talvez de duas? Não tenho certeza). O Journal of the American Chemical Society passou a adotar este procedimento muito depois do JOC. Isso não inibiu os pesquisadores – mas é absolutamente necessário uma organização apurada com a obtenção de dados de boa qualidade, senão dificilmente o artigo será aceito. Atualmente a maioria das revistas de química solicita que sejam anexados dados experimentais. Tal procedimento é particularmente importante para a análise cuidadosa por parte dos assessores científicos que avaliam artigos submetidos para publicação, de maneira a verificar a consistência dos mesmos.
Quanto a disponibilizar os dados para trabalhos futuros, acredito que esta é uma iniciativa excelente. Como pesquisador, já me foram solicitados dados experimentais mais de uma vez para comparação. Além disso, pesquisadores passam (esta é uma lei inexorável), mas se for possível armazenar dados experimentais que possam ser re-estudados a posteriori, será um legado extremamente importante para as gerações futuras. Acredito que a questão dos créditos àqueles que obtiveram os dados pela primeira vez será mais do que natural. Isso poderia facilmente ser feito através de um controle na utilização dos dados, uma vez que estes forem disponibilizados, verificando-se os resultados publicados por pesquisadores que solicitaram dados para análises posteriores.
[]s, Roberto
Fica a questão, Roberto, se o número de submissões não irá cair de forma drástica quando tais exigências entrarem em vigor. Pelo bem da ciência, espero fortemente que não, hehe!
Abraço!
Oi Joey,
Acredito que isso não deverá acontecer. Veja o que aconteceu com as revistas que menciono na resposta ao Takata, por exemplo. O Journal of Natural Products (JNP) não era considerada uma revista de primeira linha até o início dos anos 90. Revistas como Phytochemistry, Tetrahedron, Tetrahedron Letters, Helvetica Chimica Acta e várias outras revistas de sociedades químicas européias eram consideradas muito mais prestigiosas. Com a co-edição do JNP pela American Society of Pharmacognosy e pela American Chemical Society, o JNP passou a ter muito mais prestígio, apesar de ser cada vez mais dificil de publicar ali, pelo fato dos editores terem adotado uma política de seleção de artigos mais criteriosa, inclusive exigindo a anexação de dados experimentais.
Não acredito que a adoção de tais práticas fará com que os pesquisadores fiquem inibidos a submeter trabalhos para publicação. Na verdade, eu acredito que a exigência de que sejam disponibilizados dados experimentais obrigue pesquisadores a serem muito mais critoriosos quando da obtenção destes dados, de maneira a que seu trabalho de investigação possa ser publicado em revistas científicas de boa qualidade.
abraço, Roberto
Berlinck,
A questão é mais de abertura de dados. Em alguns casos é mais fácil gerar dados – por exemplo, de sequenciamento de genes -, de modo que os pesquisadores talvez não se importem muito em abri-los: há até vantagem porque significa que os dados de outros pesquisadores também ficarão disponíveis. Mas há certas áreas em que a obtenção de dados não é tão trivial – a posse de tais dados dá até um certo poder político: p.e. de barganhar verbas pra pesquisas. Em abrindo os dados, o pesquisador subitamente se vê aberto à concorrência: trabalhos que ele poderia fazer com seus dados poderão ser feitos por outros pesquisadores. Em tempos de produtivismo, acaba criando uma tensão.
De todo modo a publicidade dos dados – salvo casos excepcionais – é uma boa medida para a transparência e correção.
[]s,
Roberto Takata
Oi Takata,
Well, OK. Entendi seu ponto. Existem dados e dados experimentais. É, naturalmente serão disponibilizados (primeiro ?) aqueles que não tiverem talvez tanta importância estratégica ( como técnicas de desenvolvimento e produção de combustíveis alternativos, talvez). É bem possível que isso aconteça. De qualquer forma, se tais dados (estratégicos) puderem ser disponibilizados apenas depois de publicados e/ou patenteados, ou ainda de forma limitada, talvez tal iniciativa já seja suficiente para que possam ser aproveitados em uma oportunidade futura.