Este blog está de luto – II

Cynira Stocco Fausto, (25 de janeiro de 1931 – 17 de junho de 2010), na frente, à direita, de óculos.

Cynira Fausto deixa um valioso legado, produto de quase 60 anos de compromisso profissional diário com uma educação inovadora e de alta qualidade. Formou-se em 1953 – bacharelado e licenciatura em Geografia e História, na Faculdade de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae. Com pouco mais de 20 anos passou a dar aulas de História no Colégio Bandeirantes, em substituição ao prof. Eduardo D´Oliveira França, quando este se incorporou ao quadro docente da Universidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, engajou-se no projeto da primeira Bienal de São Paulo, junto com o cenógrafo Flávio Império.

Na década de 60, especializou-se em orientação educacional pela PUC-SP e fez estágio no Centre International de Étude Pédagogique, em Sèvres, na França. Foi orientadora educacional do Colégio Paes Leme e integrou-se à equipe responsável pela implantação e desenvolvimento da proposta educacional do Ginásio Experimental Pluricurricular da Lapa (GEPE) – escola inovadora da rede pública de São Paulo.

Com o endurecimento do regime militar e o cerco aos colégios experimentais da rede pública, Cynira assumiu a orientação educacional do então ginásio do Colégio Rainha da Paz, escola religiosa em busca de renovação. De lá saiu sob pressão de um Inquérito Policial Militar, por haver autorizado a leitura do livro Caneco de Prata, de João Carlos Marinho, hoje considerado um clássico da moderna literatura infantil.

Em 1972, na Escola Vera Cruz, participou da equipe que criou e implantou o ginásio, que passava a estar integrado ao primário, dentro do que se convencionou chamar de Ensino Fundamental, conforme lei promulgada na época. Para Cynira Fausto, a Escola Vera Cruz representava a possibilidade de pôr em prática um projeto de educação para a liberdade, com desenvolvimento da autonomia e responsabilidade individuais, do espírito crítico, da cooperação com o outro e da aceitação do diferente. Por quase uma década, dirigiu o Ensino Fundamental II, orientando alunos, professores e coordenadores. Batalhou pela criação de uma unidade especificamente voltada ao ensino de inglês, hoje credenciada a aplicar vários exames reconhecidos pela Universidade de Cambridge.

Em 1982, Cynira Fausto foi escolhida para implantar o Centro de Estudos do Vera Cruz, voltado a educadores de dentro e de fora da escola. À frente do CEVEC, liderou equipes de especialistas: na revisão de programas de Escolas Municipais e na avaliação de Escolas Estaduais e outros projetos inovadores, modelo de ações em formação de educadores.

Em 2004, já em luta contra um câncer agressivo diagnosticado ao final do ano anterior, tomou a iniciativa de fortalecer a atuação do Vera Cruz nessa área. Atenta às mudanças nas políticas do MEC, que passaram a estimular então o aumento da oferta de cursos de formação de professores, criou o Instituto Superior de Educação Vera Cruz, atualmente considerado pelo Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (ENAD) a melhor instituição de ensino superior do Brasil na área de formação de professores. Cynira reuniu uma equipe de excelentes profissionais, que hoje oferece Cursos de Pós Graduação Latu Sensu nas áreas de Alfabetização, Educação Inclusiva, Educação Lúdica, Língua Portuguesa e Educação Infantil.

Só nos últimos meses, afastou-se de suas atividades no Vera Cruz. Assim mesmo, monitorava o andamento do processo que visa à criação do Curso de Mestrado profissional do ISE Vera Cruz, ainda em tramitação no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Cynira era esposa de Boris Fausto, historiador e especialista em história do Brasil, pesquisador sênior da Universidade de São Paulo, autor do clássico “História do Brasil”.

Fonte do texto.

Em tempo: Cynira deixou dois filhos: Carlos Fausto, formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1985), mestre e doutor em Antropologia pela UFRJ, aonde é professor adjunto IV. Foi professor visitante na École Pratique des Hautes Études (Collège de France), na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Collège de France) e na Universidade de Chicago. É pesquisador sobre culturas indígenas da Amazônia desde 1988, assunto sobre o qual publicou diversos livros, e Sergio Fausto, cientista político, ex-assessor do Ministério da Fazenda e atual diretor-executivo da Fundação Fernando Henrique Cardoso.



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3 respostas

  1. Avatar de Janete Rodrigues Stocco

    A grandeza de uma vida de contribuições a Sociedade fica ressaltada quando o “Ser Humano” parte, no entanto estará sempre presente através de sua obra, de seu exemplo de vida.
    Com carinho, Janete

    • Cara Janete,

      Não sei qual seu grau de parentesco com Cynira. Eu estudei no Vera Cruz e tenho lembranças muito boas dela, e sei de como ela foi importante para minha vida.

      Muito obrigado por seu comentário.
      Roberto

  2. Li o livro de Boris Fausto, depois de viver uma experiência quase decalcada da dele. Bem-haja a memória do Marido e da amada esposa. Cumprimentos aos seus filhos.

    Manuel Baptista (7-IV-2024)

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