Emergência, Dialética, Evolução e a falácia do argumento do design

Em geral a natureza é vista de maneira simplista: ou teria sido criada para um propósito definido ou teria sido determinada por um princípio ordenador inerente. Desta forma, nosso entendimento da natureza se torna limitado. Já na antiguidade clássica Epicuro questiona tal forma de entender a natureza com base na fé, de maneira oposta ao questionamento aberto sobre o mundo natural.

A evolução é um processo resultante de contingências, restrições e possibilidades. Segundo Stephen J. Gould, o aspecto contingente que participa na evolução faz com que a história seja a real projetista (“designer”) do processo evolutivo, a verdadeira força organizadora do mundo vivo. Logo, a busca de um projetista ideal, como prova da evolução ou de uma concepção divina, não faz o menor sentido.

Mesmo assim, Dembski, um dos teóricos do MDI, questiona Gould da seguinte maneira: afirma que “o projetista não está comprometido com todas as estruturas biológicas que são projetadas”. Algumas, senão a maioria, das estruturas biológicas, resulta de adaptações biológicas. Afirma que um “design inteligente” não implica, necessariamente, em um “design otimizado”. Sendo assim, segundo Dembski um “projetista inteligente” (“intelligent designer”) pode dar origem a um “design sub-ótimo”. Dembski afirma ainda que, “não conhecendo os objetivos do planejador [“designer”], Gould não se encontra em posição de dizer se este se manifesta de maneira descompromissada com seus vários objetivos [conflitantes]”. Dembski assinala ainda que Gould, assim como outros, mistura ciência com teologia, ignorando o problema do mal. Indica que não existe razão válida para assumir um Deus que é onipotente e benevolente, em face do mal. Assim, diz Dembski, o “intelligent design” pode tomar a forma de uma câmara de tortura, repleta de instrumentos de tortura frutos do “design”, e o mal do seu “designer” não faz nada para suprimir o “design” de tal câmara de tortura. Dembski termina por afirmar que “este não é um problema científico, pois o problema do mal é de fundo teológico” (Dembski, Intelligent Design, páginas 261-264, 286 e 306; Dembski, em Signs of Intelligence, páginas 7-12).

Com tantos argumentos confusos e sem nexo, Dembski continua, dizendo que o “design” acontece, mas aparentemente só pode ser percebido em casos raros. Afirma que o “intelligent design” é, normalmente, sub-ótimo, fazendo com que seja dificilmente detectado. Não pode ser diretamente reconhecido pela razão humana, que também não pode apreender os propósitos do “designer”. Este pode-se manifestar tanto na forma do mal quando do bem e, portanto, também dar origem a resultados terríveis e irracionais. Dembski afirma que “este é um mundo decaído. Que a bondade que Deus inicialmente previa foi pervertida.” (idem, ibidem)

O que se depreende de uma tal argumentação? Apenas a confirmação de Tertuliano de que fé é a aceitação do absurdo. Uma tal argumentação não fornece qualquer base racional ou científica para entender ou investigar o mundo natural e sua história. Por outro lado, a perspectiva evolutiva científica não necessita de um tal conceito de “mundo decaído” para explicar porque o “design de deus” foi tão frequentemente “pervertido”.

A teoria da evolução mostra os caminhos complexos e contingentes que caracterizam a natureza em toda a sua diversidade. O amplo mundo natural no qual a vida se insere está repleta de sua própria história de contingências e condições estruturais. O mundo está em constante mudança, restrições se tornam variáveis, causas se tornam efeitos, e o sistema natural se desenvolve. A história da evolução é fruto de acaso e necessidade, de contingência e emergência, e situa-se em um mundo sujeito a um enorme conjunto de forças e diferentes caminhos possíveis.

Neste contexto, os organismos vivos são fruto das interações entre seus genes e o ambiente em que se situam. Em tal dialética, os organismos vivos se tornam parte da natureza. Ambos são transformados através de seu relacionamento, sem que um determine o outro. A vida não é resultado de um fluxo aleatório de eventos independentes, e sim emerge de interações complexas que ocorrem a todo instante. Um organismo vivo é, ao mesmo tempo, agente e paciente. Tal visão dialética da natureza e seus processos demonstram claramente a interdependência dos organismos vivos com o ambiente em que se situam.

As características dos organismos vivos, frutos da evolução através da seleção natural, são influenciadas pelas relações organismos-ambiente. E, portanto, as próprias características anatômicas e funcionais resultam de tal interação. A diversidade de formas dos organismos vivos é um claro reflexo da miríade de rotas biológicas existentes, que atuam sobre a integridade estrutural dos organismos vivos. Os processos evolutivos são parte inerente da vida como ela é e tornam possível a continuidade desta última. As formas de vida que “permanecem” são fruto dos eventos contingentes sob a influência de tudo o que acontece. Os conceitos de emergência e contingência são fundamentais para se entender a dinâmica do mundo vivo. Mudança é a chave. Os processos orgânicos, sendo historicamente contingentes, desafiam explanações universais rígidas como o “argumento do design”. Levando-se em conta tal visão dialética-naturalista, a noção de “design inteligente” (e de um “designer inteligente”) é completamente supérflua, e necessariamente desprovida de qualquer sentido científico genuíno.

Referências consultadas

Andrew J. Petto and Laurie R. Godfrey, Scientists Confront Criationism – Intelligent Design and Beyond, W. W. Norton & Co., 2007.

Dembski, “What Intelligent Design is Not”, em Signs of Intelligence, W. A. Dembski e J. M. Kushiner, Eds., Grand Rapids, Michigan, Brazos Press, 2001.

Ernst Mayr, What Evolution Is, Basic Books, New York, 2001.

J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.

Lynn Margulis and Dorion Sagan, What is Life?, University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 2000.

Michael Shermer, Why Darwin Matters, Owl Books, , New York, 2006.

Niall Shanks, God, the Devil and Darwin, Oxford University Press, 2006.



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1 resposta

  1. O reconhecimento que é uma infinidade de vetores que conduzem as evoluções per se afastam a idéia também simplista da dialética. Na falta, uso um neologismo: somalética. O Universo é uno, não dual, não dial. Se dialético, dever-se-ia chamar de DIverso, em vez de UNIverso.
    A dialética, infelizmente, vem pautando ambos os campos – da fé, e da ciência, método utilizado quando a vela era a rainha da noite, e ninguém cogitava em energia, em INformação.
    Abraço, e sucesso.

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