Caro leitor, você sabia que o velcro utilizado em calçados, tecidos, alças, etc., foi inspirado na natureza? Pois é, segundo a Wikipédia
O velcro foi inventado em 1941 por Georges de Mestral, um engenheiro da Suíça. Após analisar atentamente as sementes de Arctium, que grudavam constantemente em sua roupa e no pêlo de seu cão durante sua caminhadas diárias pelos Alpes, Georges examinou o material através de um microscópio e distinguiu diversos filamentos entrelaçados terminando em pequenos ganchos, causando a potente aderência dos carrapichos nos tecidos. Concluiu ser possível a criação de uma material para unir dois materiais de maneira reversível e simples. Desenvolveu o produto e submeteu a idéia para patente em 1951. O pedido suíço foi seguido por outras patentes nacionais, desta vez através de sua companhia Velcro S.A. O nome VELCRO é uma combinação de palavras em francês VELours (que significa veludo) e CROchet (que significa gancho). Atualmente o uso e aplicação do produto são vários, e a palavra velcro tornou-se um termo genérico para referir-se ao material.
Uma boa idéia, não é mesmo? Mas antiga. Muito antiga, pois as plantas Arctium devem ter desenvolvido tal característica provavelmente para se dispersar e ocupar novos terrenos, de maneira a … dominar o mundo! (pelo menos aquela parte dele onde a planta pôde se desenvolver). Mas esta planta não foi a única a adquirir o princípio do velcro como vantagem adaptativa.
Uma espécie de formiga, Azteca andreae, utiliza o mesmo princípio do velcro para se fixar firmemente nas folhas de uma espécie de embaúba (Cecropia obtusa) e capturar grandes presas. A planta desenvolveu uma relação de mutualismo com as formigas Azteca andreae. A planta fornece condições para as formigas fazerem seus ninhos e pouco alimento. Como forma de retribuição, as formigas protegem a árvore de insetos herbívoros, que podem desfoliar completamente a planta.
A legenda no artigo está trocada para as fotos. (A) face inferior das folhas de C. obtusa, com muitas operárias de A. andreae lado a lado nas bordas da folha. Um inseto está quase no centro da folha, capturado pelas formigas. (B) Um ninho das formigas preso à C. obtusa. (C) Detalhe das formigas presas à face inferior de uma folha de C. obtusa. (D) Uma mariposa capturada durante a noite ainda tentando fugir de manhã quando foi fotografada.
As formigas não se alimentam de pequeninos frutos, chamados de corpos nutritivos, disponíveis na planta. Em vez disso, desenvolveram uma estratégia de caça baseada em uma organização social bastante elaborada. As formigas operárias ficam alinhadas lado a lado nas bordas das folhas da árvore e esperam pelas presas. Da forma como se alinham na folha, as formigas se utilizam do princípio velcro. Na face inferior das folhas estas apresentam ganchos microscópicos nos quais as formigas se grudam, na borda das folhas. Desta maneira, juntas as formigas conseguem segurar um corpo 5000 vezes mais pesado do que o seu. A maior presa capturada por um grupo de operárias em uma folha da Cecropia foi um gafanhoto de 18,61 g, de massa 13.350 vezes maior do que uma única das formigas.
Da próxima vez que for usar Velcro, leitor, lembre-se: a natureza já fazia uso dele há muito mais tempo do que nós.
A. Dejean, C. Leroy, B. Corbara, O. Roux, R. Céréghino, et al. (2010). Arboreal Ants Use the “Velcro® Principle” to Capture Very Large Prey PLos ONE, 5 (6) doi:10.1371/journal.pone.0011331
Atualização em 19/7: Como sugerido pelo Átila Iamarino, em seu blog “Rainha Vermelha”, insiro aqui filme que mostra a ação canibal de predação das formigas A. andreae em uma folha de Embaúba, devorando uma mariposa. Atenção! As cenas são realmente chocantes.
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Relações de mutualismo muitas vezes na evolução evoluíram para se tornar uma relação tão íntima que as duas espécies se fundiram num corpo só, num casamento eterno.
Foi o que aconteceu com os corais e suas algas unicelulares, com as células eucarióticas e suas mitocôndrias e cloroplastos.
Imagine um futuro em que a embaúba e as formigas estejam unidas mais intimamente… se for capaz!
Abraço
Difícil de imaginar. Uma formiga com velcro no seu próprio corpo, talvez, que grudem-se umas às outras, formando uma cadeia de formigas unidas por velcro?
Parece filme de ficção científica.
Em sua atualização, você fala que o vídeo mostra a ação canibal das formigas, mas elas na verdade estão predando, e não sendo canibais (comendo membros da própria espécie).
Oi Edson,
Bem observado! Obrigado pela correção.
Roberto