Foram descobertos no Gabão, país do continente africano, mais de 250 fósseis em excelente estado que comprovam, pela primeira vez, a existência de organismos multicelulares (ou pluricelulares, feitos de muitas células) há 2 bilhões e 100 milhões de anos atrás. Esta descoberta é considerada excepcional, pois até então os fósseis de organismos multicelulares mais primitivos eram datados de até 600 milhões de anos atrás. Estes novos fósseis são de vários tamanhos e formas, o que leva os cientistas a admitirem que o surgimento da vida multicelular é mais antigo que se pensava. E por isso, torna um desafio entender melhor como surgiu a vida no planeta Terra.
Considera-se que os primeiros organismos vivos que surgiram foram os organismos procariontes, unicelulares, aqueles que não têm membranas separando suas estruturas intracelulares. Nestes organismos o núcleo celular e as organelas celulares não são diferenciados: seu material encontra-se “espalhado” na célula. Depois do surgimento dos organismos unicelulares procariontes surgiram os organismos unicelulares eucariontes, nos quais as organelas celulares (núcleo, mitocôndria, Complexo de Golgi, e outras) são diferenciadas por apresentarem membranas. Os organismos multicelulares surgiram posteriormente, pela a agregação de células eucariontes.
Até a descoberta dos fósseis do Gabão acreditava-se que o intervalo de tempo para o surgimento dos organismos multicelulares fosse muito maior. Até alguns anos atrás, os registros fósseis indicavam que os organismos unicelulares teriam surgido entre 3 bilhões e 2,5 bilhões de anos atrás, enquanto que os primeiros organismos multicelulares teriam surgido há cerca de 1 bilhão de anos atrás. Durante este período, as células teriam se diferenciado, e adquirido organelas celulares, de maneira a que pudessem exercer diferentes funções. Os organismos multicelulares mais antigos que ainda existem são as esponjas marinhas. São animais que não apresentam tecidos diferenciados, mas apenas células diferenciadas. As esponjas surgiram neste intervalo de tempo, entre o surgimento da vida unicelular e os primeiros registros de esponjas fósseis, alguns dos quais (na China, por exemplo) datam de cerca de 1 bilhão de anos atrás.
O grupo de pesquisadores coordenado pelo Dr. Abderrazak El Albani, do Laboratoire “Hydrogéologie, Argiles, Sols et Altérations”, do CNRS/Université de Poitiers (Laboratório de hidrogeologia, argilas e alterações, do Centro Nacional de Pesquisas Científicas da França/Universidade de Poitiers) coletou os fósseis em 2008 na região de Fraceville, Gabão. Os fósseis, de um tipo totalmente novo, não puderam ser relacionados com qualquer forma de vida conhecida até então: apresentam várias formas, de até 10-12 centímetros, muito grandes para serem considerados organismos unicelulares procariontes ou eucariontes. Para bem caracterizar o material fóssil encontrado, os pesquisadores utilizaram técnicas extremamente avançadas, como uma sonda de íons, capaz de medir a presença de isótopos de enxofre (existem 18 diferentes isótopos de enxofre – veja aqui) e sua distribuição nos fósseis encontrados. Os fósseis foram transformados em pirita, formada por dissulfeto de ferro (FeS2), durante o processo de fossilização. Além disso, os pesquisadores utilizaram um “scanner” para imagens tridimensionais de alta resolução (um microtomógrafo de raios-X), capaz de fornecer informações para a reconstituição de formas em 3 dimensões. Desta maneira, é possível se reconstituir a organização interna destes fósseis em detalhe, sem comprometer os mesmos, uma vez que esta técnica de análise não destrói o “tecido fóssil”, pois não é invasiva. As formas definidas e regulares dos fósseis indicam claramente uma organização multicelular dos organismos que deram origem ao material fossilizado. Além disso, estes organismos viviam em colônias, uma vez que foram encontrados agregados uns aos outros, em até 40 por metro quadrado. Por isso, os pesquisadores deste estudo consideraram estes organismos os multicelulares mais primitivos já encontrados até esta descoberta.
Os estudos das rochas sedimentares do local da coleta, muito bem conservadas, mostraram que estes organismos viviam em águas marinhas rasas (até 30 metros de profundidade), em uma região de águas calmas sujeita à variação das marés, ondas e tempestades. Para terem surgido, os autores da pesquisa sugerem que estes organismos multicelulares primitivos ficaram expostos a quantidades cada vez maiores de oxigênio, e foram se diferenciando de maneira cada vez mais significativa.
Os pesquisadores assinalam que a região onde os fósseis foram encontrados deve ser estudada para entender melhor a razão pela qual tais organismos se desenvolveram ali. Aparentemente é possível que outros fósseis deste tipo possam ser encontrados na mesma região da África, e possam ajudar no entendimento do surgimento e desenvolvimento da vida primitiva na Terra. O mais importante é preservar muito bem o local onde estes fósseis foram encontrados, para que estas informações não sejam perdidas.
Leia mais sobre este assunto, em notícia publicada pelo Boletim da Agência FAPESP.
O artigo original no qual estes resultados foram publicado é indicado a seguir.
Albani, A., Bengtson, S., Canfield, D., Bekker, A., Macchiarelli, R., Mazurier, A., Hammarlund, E., Boulvais, P., Dupuy, J., Fontaine, C., Fürsich, F., Gauthier-Lafaye, F., Janvier, P., Javaux, E., Ossa, F., Pierson-Wickmann, A., Riboulleau, A., Sardini, P., Vachard, D., Whitehouse, M., & Meunier, A. (2010). Large colonial organisms with coordinated growth in oxygenated environments 2.1 Gyr ago Nature, 466 (7302), 100-104 DOI: 10.1038/nature09166
Categorias:ciência
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