Notícia publicada hoje no jornal O Estado de São Paulo on-line revela que
Desinteresse é o segundo motivo de faltas no ensino médio – Essa pode ser uma das causas do crescimento de apenas 0,1 na nota dessa etapa escolar no Ideb 2009
O ensino médio, etapa com a maior taxa de evasão, sofre também com um tipo informal de abandono: o desinteresse. O aluno se matricula, cursa, mas não presta atenção nas aulas, não estuda, não faz lição. Essa pode ser uma das causas do crescimento de apenas 0,1 na nota de 3,6 dessa etapa escolar do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2009, divulgado na quinta-feira pelo MEC. Um levantamento que mapeou formas alternativas de não participação na vida escolar mostra que “não querer comparecer” às aulas foi o segundo principal motivo de ausências entre os estudantes do ensino médio.
Entre os alunos que disseram ter faltado algum dia nos últimos dois meses, 21,5% alegaram que simplesmente não quiseram ir à escola. O desinteresse perdeu apenas para problemas de saúde, apontados por 41% como a razão das ausências.
A pesquisa Mapeando as Formas Alternativas de Não Participação cruzou dados do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) que pudessem refletir o desinteresse, como as faltas e o fato de fazer ou não a lição de casa.
Os resultados, porém, apontam somente alguns indícios da falta de interesse. “Identificar todas as formas alternativas de não participação exige dados muito específicos. O ideal seria estudos em sala de aula, que são muito caros”, afirma Elaine Toldo Pazello, pesquisadora do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e umas das responsáveis pelo levantamento. A pesquisa revelou ainda que menos da metade dos estudantes do ensino médio (41,5%) faz sempre a lição de casa. O número representa uma queda de 17% em relação aos alunos do fundamental.
Aparentemente aqueles que cuidam das políticas educacionais e pedagógicas estão tão perdidos quanto os alunos de segundo grau. Especialistas da área de educação, como o Dr. Simon Schwartzman, já alertaram para o grave problema do ensino médio, que é atualmente o principal gargalo na formação de profissionais bem capacitados. Se os alunos não conseguem um bom desempenho no ensino médio, como poderão ter uma boa formação no ensino superior? Impossível.
Muitos alunos do ensino superior são “analfabetos intelectuais”. Gostam de ler livros de Harry Potter, Stephen King, muitos títulos de literatura juvenil, sem se interessar por livros que exigem muito mais capacidade intelectual e de reflexão. Alunos do ensino superior apresentam uma capacidade de redação de textos que por vezes beira o total desastre, com estruturas sem nexo, erros gramaticais básicos, mau entendimento de conceitos e expressão de ideias de forma totalmente incompreensível.
O fato é que o perfil do aluno mudou – e muito. Enquanto que as técnicas de ensino permanecem as mesmas de há 30 ou 40 anos. Desta forma, como é possível estimular o interesse dos alunos apresentando aulas maçantes, um volume enorme de atividades pelas quais os alunos não se identificam, e um conteúdo defasado? Escolas consideradas excelentes ainda exigem que alunos leiam “Meu Pé de Laranja Lima” (José Mauro de Vasconcellos), “Senhora” (José de Alencar), e outros títulos completamente anacrônicos da literatura brasileira e portuguesa, alegando que são clássicos da literatura que devem ser lidos. Absolutamente ridículo.
O ensino deve ser atualizado, revisto, avaliado, modernizado. De outra forma, nossos jovens terão muito mais interesse em jogar vídeo-games do que ler “A Moreninha” (Joaquim Manuel de Macedo), estudar química, entender geografia e conhecer a cultura brasileira. O que é perfeitamente compreensível.
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Meu caro, escola não é lugar para o aluno “matar sua curiosidade do mundo”, ou uma “instituição do prazer”. É preciso sim ler os clássicos (mas isso não exclui ler outros livros). A escola deve sim se moldar aos novos tempos, mas não pode abandonar tudo o que ela é. De onde o autor da reportagem tirou a informação que o conteúdo trabalhado nas escolas é defasado? Não aguento isso: todo mundo dá palpite sobre educação (e futebol: eu entendo o Dunga…)!
Caro Itaboray,
Além de seu papel formador como pessoa, cidadão e preparar os alunos para sua vida profissional, o aprendizado pode, sim, ser estimulante e interessante. Ao contrário do que você diz, no texto do blog não estão incluídas as expressões “matar sua curiosidade do mundo” nem “instituição do prazer”, e sim que o aprendizado deve estimular o interesse do aluno pelo conhecimento. Também não é dito que a escola pode abandonar tudo o que ela é. Muito pelo contrário, fica claro que o papel da escola é absolutamente fundamental na formação do cidadão como profissional.
Ler os “clássicos”, como você diz, não é imprescindível para uma boa formação escolar. Além disso, há que se distinguir “clássicos” de “clássicos”, não é mesmo? Não se questiona aqui o valor da literatura de Machado de Assis ou de João Guimarães Rosa, por exemplo. Mas penso que o perfil do aluno atual faz juz a um número muito mais significativo de textos contemporâneos, que representam muito mais o momento histórico atual, no qual se insere o jovem.
Como profissional do ensino (há 17 anos), trabalho com jovens que ingressam na Universidade de São Paulo para cursar química. Desta forma realizo constantemente a avaliação destes alunos, tanto no que se refere a seus conhecimentos básicos de forma geral como de forma específica. Ainda mais, atuando na área de ensino, conheço, ainda que de forma parcial, os problemas na formação dos alunos que atualmente ingressam nas universidades brasileiras, por discutir tais problemas com colegas professores.