Ideias de George Whitesides

George M. Whitesides é atualmente considerado um dos grandes nomes da ciência, em particular da química. Sua paixão pela ciência o levou a publicar artigos bastante provocativos, dentre os quais se destaca “Assumptions: Taking Chemistry in New Directions”. Embora publicado há já 6 anos, este artigo é um conjunto de considerações especulativas de Whitesides, que vale a pena ser lido, repensado e discutido.

Tal como quiromantes, astrólogos, e magos que lêem bolas de cristal, Whitesides acredita que a especulação sobre o futuro faz parte do métier dos cientistas. Em princípio com um objetivo utilitarista: planejar o trabalho científico e almejar o desenvolvimento de idéias. Para tanto, é necessário encontrar bons problemas a serem considerados e estudados quando se planeja desenvolver projetos científicos. No meu ponto de vista, este é realmente um ponto chave – o pesquisador deve encontrar bons problemas para serem estudados. Para serem encontrados, estes necessitam um grau aprofundado de reflexão, para se obter insights de quais merecem ser estudados, e como. Encontrar tais problemas, e maneiras de estudá-los, pode levar muitas vezes a descobertas inesperadas, que revolucionam não somente o fazer científico, mas também a sociedade como um todo.

Para citar um único exemplo (meu, não de Whitesides), até os anos 1980 o estudo do material genético exigia a extração de grandes quantidades de DNA para que este pudesse ser seqüenciado e analisado. Debruçando-se sobre o problema de como contornar a extração do DNA, Kerry Mullis descobriu que poderia utilizar a enzima de controla a formação do DNA, extraída de uma bactéria termofílica (Thermus aquaticus), para amplificar e produzir DNA em quantidades convenientes para sua análise, de maneira muito mais rápida. A bacteria T. aquaticus contém a enzima Taq DNA polimerase, que é utilizada na reação de polimerização em cadeia (polymerase chain reaction), de amplificação do DNA. Esta descoberta não somente revolucionou as ciências genômicas e bioquímicas, mas também a sociedade em geral, uma vez que graças à descoberta de Mullis agora é possível, por exemplo, se realizar rapidamente testes de paternidade e de análise de amostras de sangue e outros fluidos corporais para se verificar sua origem e, por exemplo, solucionar crimes.

Whitesides também justifica a descoberta e resolução de problemas intrigantes para saciar a curiosidade científica, e promover o desenvolvimento tecnológico. Considera ainda que a ciência e a tecnologia são os principais elementos culturais da atualidade, uma proposta que merece uma extensa ponderação, da qual faço breves comentários. Talvez a ciência e a tecnologia sejam os principais elementos que possibilitem o estabelecimento da cultura atual. Como pudemos observar durante a transmissão dos jogos da copa do mundo de futebol, as imagens transmitidas, principalmente em slow-motion, foram de uma qualidade excepcional, graças à tecnologia de captura e transmissão de imagens por meio digital. Uma reportagem apresentada na televisão também mostrou que em alguns países da Europa os jogos da copa do mundo foram transmitidos em 3D em salas de cinema. Os espectadores destas imagens disseram que ficaram absolutamente impressionados com as imagens 3D, e acreditam que estas deverão ser regra na próxima copa do mundo. Logo, a ciência e a tecnologia para a transmissão dos jogos da copa não foram os elementos culturais, e sim os elementos que propiciaram a manifestação cultural a que pudemos assistir. O mesmo vale para os aparelhos de mp4 (que armazenam músicas e filmes em formato digital), os novos leitores de livros digitais (Google Kindle, iPAD da Apple, e etc.), o extensivo uso da internet (quem conhece a ciência e a tecnologia por detrás da world wide web?), elementos culturais da atualidade que foram forjados pela ciência e pela tecnologia.

Whitesides pondera, de maneira muito eloqüente, sobre a importância da ciência no mundo atual, levantando questões como: qual ciência a sociedade espera que os cientistas desenvolvam? Existe algum tipo de pesquisa que não deve ser feita? Assinala, muito acertadamente, que a ciência é uma mistura do ordinário com o extraordinário, pois a ciência traz consigo o inesperado, o que não pode ser previsto ou predito. E certamente são estas surpresas que tornam a ciência tão interessante, que tem o poder de mudar a vida das pessoas de maneira irreversível. Quem poderia imaginar, até 30 anos atrás, que o conteúdo de um disco de vinil poderia caber em um disco digital compacto (CD)? Lembro-me da surpresa de minha falecida avó com o surgimento dos CDs, ela que também viu surgir os discos de vinil. Durante alguns anos ela se negou a ouvir CDs, pois julgava ser muito difícil operar um toca CDs. Porém, passados cerca de 5 ou 6 anos do lançamento dos CDs, teve que se render a eles. Já perto de seu falecimento, presenciou seus netos escutando música em tocadores de mp3, absolutamente fascinada com o fato de poder se incluir uma discoteca de dezenas, centenas de discos em um aparelho tão pequeno. Whitesides diz que “science … has the power to turn the lives of our grandchildren upside down” [ciência … tem o poder de fazer a vida de nossos netos ficar de ponta-cabeça]. Não só dos netos, mas também de nossos avós (se estes ainda estão vivos)!

Whitesides é um franco otimista: diz que um dos objetivos não explícitos da ciência é fazer a diferença, de maneira a que possamos sempre aprender e fazer coisas que mudem a vida das pessoas. A maioria das grandes mudanças provocadas pela ciência foi totalmente por surpresa, descobertas e invenções inesperadas. Embora seja difícil se prever como levar a mudanças tão profundas na sociedade, Whitesides diz que é possível se assumir pressupostos, se for possível identificar as necessidades científicas de um determinado momento histórico. Aqui cabe um exemplo bem brasileiro, não mencionado por Whitesides: a descoberta e desenvolvimento de motores movidos a álcool combustível. A tecnologia dos motores a álcool foi descoberta durante os anos 1970, quando o mundo passou por uma grave crise no fornecimento de petróleo. Naquele momento foi criado o programa pró-álcool, que levou ao surgimento dos carros a álcool. No entanto, com a recuperação do mercado de fornecimento do petróleo, o programa pró-álcool foi deixado de lado durante muitos anos, até que, com o agravamento da poluição e da produção dos gases causadores de efeito estufa, o álcool combustível voltou a ser uma opção importante. Porém, desta vez foi desenvolvida a tecnologia “flex”, que permite a utilização simultânea de álcool e gasolina nos motores dos carros. O espanto de pesquisadores japoneses com esta novidade me causou uma rara sensação de satisfação durante um congresso nos EUA, em 2004. Ao me perguntar sobre a veracidade desta nova tecnologia, respondi que eu mesmo tinha um carro flex, o que os fez ficarem de queixo caído.

E, assim, Whitesides indica que é possível tentar se prever novos campos de pesquisa olhando para o passado, de maneira a se conhecer quando e como a ciência mudou a sociedade em termos de conceitos e comportamentos. Na minha lembrança, vale apenas mencionar alguns: a descoberta da teoria da evolução de Darwin e Wallace; as descobertas microbiológicas de Pasteur; a descoberta da radiação por Marie e Pierre Curie; o desenvolvimento da teoria quântica por vários físicos no início do século XX. Segundo Whitesides, a diferença em se olhar para o passado quando se considera o futuro do desenvolvimento científico e tecnológico, é que este último se torna um pouco menos arriscado, mas pode levar a descobertas socialmente mais relevantes. Olhar somente para o futuro tende a levar a pequenas evoluções tecnológicas, mas mais ousadas.

Segundo Whitesides, pontos importantes a serem considerados no desenvolvimento atual da ciência, e da química em particular, são: entender a origem da vida; entender os processos complexos; desenvolver inteligência artificial. Para isso, a química exerce um papel chave, uma vez que busca entender os processos macroscópicos em nível molecular. Olhando-se para a química, é possível se buscar o âmago de tais questões. Ainda segundo o autor, ele ressalta a importância de se buscar maneiras para se aumentar a expectativa de vida dos humanos, bem como da importância da comunicação entre sistemas vivos e não vivos. No meu ver, considero mais importante compreender como um conjunto de moléculas pode traduzir a informação de maneira tão precisa como no movimento do corpo, na tomada de uma decisão ou em uma forte emoção. E também entender como a mente humana opera, do concreto (física- e quimicamente) para o abstrato (através dos pensamentos, emoções, sentimentos e intuição).

Whitesides fornece exemplos de moléculas que permitiram ao homem prolongar sua vida e tentar se tornar um pouco mais imortal, como os medicamentos que controlam a pressão arterial, que diminuem as taxas de colesterol no sangue e os antibióticos. Além disso, o conhecimento químico de muitos produtos consumidos pelo homem permitiu entender os benefícios de um estilo de vida mais saudável, como comer menos gordura, menos carne vermelha e deixar de fumar. No meu ver Whitesides acerta em cheio quando comenta que talvez a melhor forma de se enfrentar o câncer seja através da prevenção, evitando-se a exposição a agentes ambientais e nutricionais mutagênicos, bem como à radiação UV intensa.

Como químico, Whitesides mostra a importância de sua ciência no desenvolvimento de medicamentos, no desenvolvimento da biomedicina, de métodos analíticos que permitem a realização rápida de exames laboratoriais complexos, para observar mudanças metabólicas relacionadas às doenças e ao envelhecimento, verificar mudanças ambientais que podem levar a danos biológicos. Mas o que a química ainda não sabe é como se agregar os componentes biológicos de uma célula, para produzir uma célula funcional (talvez hoje Whitesides esteja bem satisfeito com o trabalho de Craig Venter). Mas ressalta a importância da química molecular [?], biologia molecular e medicina molecular – processos intimamente relacionados na manutenção da vida.

Uma assertiva de Whitesides que peca pela total falta de critério científico é quando afirma que “We are, at least in our own opinion, the crown of creation: the most intelligent and versatile of species, and renowned for our ability to subjugate other species.” [Somos, pelo menos na nossa própria opinião, a coroação da criação: a espécie mais inteligente e mais versátil, renomada pela nossa habilidade de subjugar outras espécies]. Aqui Whitesides demonstra ser um profundo desconhecedor da biologia como ciência. Ao mencionar que somos “a coroação da criação”, Whitesides, deliberadamente ou não, joga por terra todo o conhecimento que se adquiriu ao longo de 200 da biologia evolutiva. E ainda, ao afirmar que os humanos tem a capacidade renomada de subjugar outras espécies, Whitesides se esquece (?) que os humanos ainda não conseguiram subjugar as espécies mais simples que existem: as bactérias. Embora dezenas de antibióticos tenham sido desenvolvidos por mais de 60 anos, o número de bactérias resistentes só têm aumentado nos últimos anos, e nós, humanos, estamos longe, muito longe de subjugá-las. Aqui, é possível dizer, sem meias palavras: Whitesides pisou na bola, e feio!

Ao abordar a questão da complexidade relacionada aos sistemas biológicos, Whitesides se confunde nas relações entre conceitos de complexidade biológica e inteligência, dizendo que novas variantes biológicas surgem lentamente por mutação (e não por seleção natural), assinalando a “complexidade” e a “forma funcional” do sistema nervoso central. Whitesides passa, assim, ao largo de todo o conhecimento sobre o desenvolvimento biológico, de filogenia e de biologia evolutiva.

Whitesides questiona como comportamentos complexos podem ser compreendidos a partir de componentes simples, dizendo que a compreensão da complexidade (como fenômeno? ou como conceito?) nunca foi o forte da ciência reducionista. Existem sistemas complicados que podem ser descritos em termos reducionistas, e existem outros sistemas, complexos, que necessitam de uma abordagem integrada, uma das quais é a atualmente chamada “biologia de sistemas” (systems biology). Porém, ao dissertar sobre a noção de inteligência, Whitesides deixa de lado todo o conhecimento da ciência cognitiva, de aquisição do conhecimento e da linguagem, da história individual da cada um e da humanidade, ao reduzir a inteligência à complexidade e densidade de conexões cerebrais.

Não deixa de ser interessante a consideração que faz quando assinala que um grande desafio intelectual será entender a inteligência como propriedade emergente da interação de moléculas. Diz que, face às dificuldades em se compreender os fenômenos complexos que surgem da interação de um grande grupo de moléculas, seria realmente importante estudar a inteligência em um sistema complexo a partir da nossa própria noção de inteligência. Este ponto seria realmente interessante – seria a inteligência uma propriedade emergente de um sistema complexo? Se isso for verificado, seria uma comprovação incrível que sistemas complexos prescindem totalmente de uma inteligência e, pelo contrário, determinam a mesma.

Whitesides dá uma ênfase exagerada à sua abordagem antropocêntrica ao incluir no item 4 do artigo o sub-título “Human Life is Invaluable”.  Ora, se a vida humana é tão valiosa que não tem valor, a vida em geral ainda o é ainda mais. Whitesides centra-se no valor da humanidade, e se esquece do valor intrínseco da vida, que prescinde da vida humana, e que surgiu muito antes desta última. Parece que Whitesides demonstra que a vida só tem valor se puder ser apreciada, um conceito deturpado sobre o real valor da vida. O valor atribuído aos humanos é enaltecido de forma exagerada nas seções seguintes do seu artigo, como que indicando que estes bastam-se a si mesmos. E disserta sobre a importância da humanidade para a melhoria das condições de vida – dos humanos!

Whitesides parece realmente assumir toda sua unilateralidade com relação à questão da manutenção da vida quando questiona abertamente se as alterações observadas no ambiente terrestre irão, realmente, tornar esta tão inóspita a ponto de se tornar inabitável (pelos humanos). Ao afirmar que “Changes in the environment will probably be relatively slow; even if we melt the West Greenland ice sheet, it seems unlikely that we will tip the balance of the planet so that the Earth become Venus (although we would submerge New York and Tokyo). We would adjust.” [Mudanças no ambiente serão provavelmente relativamente lentas; mesmo que derretamos a folha de gelo da Groelândia do Oeste, parece pouco provável que desloquemos a balança do planeta para que a Terra se torne Vênus (embora submergeríamos Nova Iorque e Tóquio). Nos ajustaríamos.] Neste ponto, Whitesides chega a ser leviano por não fornecer qualquer referência que dê suporte a seus pressupostos. Muito antes da Terra se tornar Vênus a vida na Terra terá desaparecido, pois a atmosfera de Vênus é de ácido sulfúrico. Mesmo muito antes disso, quem pode prever o que pode ocorrer se a folha oeste da Groelândia derreter? Whitesides? É, realmente, muita presunção.

Para finalizar o tópico 8 de seu artigo, “Earth Will Remain Habitable” [A Terra permanecerá habitável], Whitesides lança mais uma pérola ao dizer que deveríamos considerar mais seriamente o problema do choque da Terra com um meteoro do que os problemas da utilização da energia nuclear como fonte de energia. Bingo!

Pouco preocupado com sua visão antropocêntrica. Whitesides enfatiza e re-enfatiza esta quando diz o quanto a ciência foi boa para o mundo, mas todos os exemplos que menciona se referem à espécie humana: vivemos mais, mas gastamos menos tempo para garantir nossa sobrevivência, sofremos menos com as doenças, entendemos o mundo de maneira mais completa; temos mais tempo para construir a sociedade e para apreciar a existência. Não deixa de parecer que Whitesides sofre de uma ingenuidade pueril, ao apreciar o mundo à sua volta de maneira tão limitada.

Por outro lado, Whitesides levanta a importância da ciência para a sociedade, ao discutir como a ciência e os cientistas podem contribuir, de maneira efetiva, para abordar as grandes questões atuais, propor novas maneiras de se conhecer a realidade, promover o conhecimento e mudanças necessárias para a resolução de problemas atuais.

Porém, ao concluir seu artigo, parece que quis apenas iludir seu leitor, ao afirmar que “The last, most realistic, assumption may be that the law of unintended consequences will ultimately apply.” [A última premissa, mais realista, pode ser que a lei das conseqüências não-intencionais será a que será aplicada.] O término com tal assertiva deixa um forte sabor de contraditório na boca do leitor. Resta saber se foi intencional, ou não. De qualquer forma, Whitesides poderia ter refinado melhor algumas de suas ideias, para que pudessem ter sido apresentadas de maneira mais consistente. No que se refere à sua visão da ciência ligada à química, fica evidente que esta é muito mais do que mostra ser. E este é, realmente, um grande mérito de Whitesides.

ResearchBlogging.orgWhitesides, G. (2004). Assumptions: Taking Chemistry in New Directions Angewandte Chemie International Edition, 43 (28), 3632-3641 DOI: 10.1002/anie.200330076



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8 respostas

  1. Babei! Excelente artigo!

    Corajoso você, questionando as ideias de um bambambã da Química publicadas nada mais nada menos que no prestigioso Angew Chemie! 🙂

    • Oi Sibele,

      Pois então, este artigo do Whitesides é extremamente interessante, pela visão provocadora que ele tem sobre as pressuposições/previsões. Eu, confesso, não conhecia o trabalho do Whitesides até dois anos atrás, quando um de meus colegas do IQSC (Hamilton Varela) me passou este artigo para ler. Depois, outro de meus colegas (Emanuel Carrilho) voltou dos EUA, onde trabalhou 2 anos com o Whitesides, com quem desenvolveu um trabalho fantástico.

      Segundo o Emanuel, o Whitesides é um pesquisador extremamente criativo. Ele (Emanuel) fez uma apresentação no IQSC (e neste ano na Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química) falando da experiência com GW. Realmente, muito bom.

      Temos seminários muito bons no IQSC, em um encontro chamado “Química às 16”, organizado pelo Hamilton Varela e por outro professor, Carlos Montanari. Já trouxeram pesquisadores de diferentes áreas, como o Renato Janine Ribeiro (FFLCH-USP), Ronaldo Pilli (IQ-UNICAMP, atual pró-reitor de pesquisa), Sergio Ferreira (FCFRP-USP), Brito Cruz (IF-UNICAMP, atual diretor cientifico da FAPESP), e vários outros. São apresentações que são muito concorridas e posteriormente discutidas por nós, da comunidade do IQSC.

      Vários dos meus colegas comentaram minha postagem sobre o Whitesides, e esta discussão ainda deverá dar algum “pano para a manga”. Temas assim, controversos, são excelentes para uma boa conversa, né?

      Tudo de bom,
      Roberto

  2. Oi, Roberto!

    Se seu amigo Emanuel considera GW um pesquisador extremamente criativo, parece contraditório que no artigo ele se revele reducionista, desconsiderando “todo o conhecimento da ciência cognitiva, de aquisição do conhecimento e da linguagem, da história individual da cada um e da humanidade, ao reduzir a inteligência à complexidade e densidade de conexões cerebrais” e pueril, “ao apreciar o mundo à sua volta de maneira tão limitada”.

    E acho que antes da ciência e da tecnologia forjar os elementos culturais da sociedade, elas mesmas são forjadas por imperativos econômicos – a força motriz de tudo.

    Os vários exemplos que você deu, de badulaques tecnológicos que hoje são comuns e disseminados, inclusive “forjando os elementos culturais da sociedade” só o foram justamente porque houve uma indução econômica para isso, visando um amplo mercado consumidor. A própria tecnologia do carro a álcool citada por você, na época em que foi lançada não encontrou um contexto propício para sua adoção extensiva, pois outra premissa econômica era mais relevante – o uso de combustíveis fósseis, que perdura até hoje, mesmo comprovadas suas conseqüências nefastas em termos ambientais. E lembro que até antes dessa tecnologia do álcool combustível, surgiu a tecnologia do carro elétrico, há quase um século, mas mesmo com a produção de algumas milhares de unidades por volta de 1916 [1], essa tecnologia também não encontrou um contexto favorável para sua disseminação.

    E essa premissa econômica é que, muitas vezes, provoca desafios como o aumento de bactérias resistentes, determinando a impossibilidade de subjugá-las – o uso indiscriminado das dezenas de antibióticos desenvolvidos por mais de 60 anos têm um papel nessa conta.

    Por tudo isso que essa assertiva de GW, sobre a “importância da ciência para a sociedade, ao discutir como a ciência e os cientistas podem contribuir de maneira efetiva, para abordar as grandes questões atuais, propor novas maneiras de se conhecer a realidade, promover o conhecimento e mudanças necessárias para a resolução de problemas atuais” esbarra na força dos interesses econômicos. Seu post sobre o Código Florestal não me deixa mentir.

    Não que a ciência não tenha sua importância. Mas ela sozinha…

    [1] Anderson CD, Anderson J. Electric and Hybrid Cars: A History. 2nd ed. Jefferson, NC: McFarland & Co, 2010.

    • Oi Sibele,

      É, mas a criatividade não necessariamente está ligada a uma visão abrangente, em particular dos pontos que você destacou. Acho que são duas coisas diferentes (será?).

      Quanto ao segundo ponto que você destacou, infelizmente é verdade.

  3. E bacana os seminários do IQSC-USP, o “Química às 16″. Vocês filmam? Colocam em rede? Seria bem interessante compartilhar para além da comunidade do IQSC-USP… 🙂

  4. Vários dos meus colegas comentaram minha postagem sobre o Whitesides

    É mesmo? E cadê os comentários deles por aqui?

    Temas assim, controversos, são excelentes para uma boa conversa, né?”

    Sem dúvida, Roberto. 🙂

    Tudo de bom!

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