Notícia nada edificante sobre a prática científica foi divulgada ontem pelo jornal Folha de S. Paulo on-line.
Maioria dos cientistas já testemunhou abuso ético – Sabine Righetti
A maioria dos cientistas já testemunhou ou se envolveu em casos de infração científica como falsificação de dados ou plágio. É isso que revela um estudo inédito conduzido pelo Simmons College, dos Estados Unidos. De um total de 2.599 cientistas americanos e canadenses com pesquisas financiadas pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês), 84% disseram já ter presenciado ou participado de infrações científicas. Dentre os cientistas que participaram direta ou indiretamente de um trabalho com dados fraudulentos, 63% disseram ter tentado intervir para evitar o abuso.
As informações, coletadas por meio de um questionário enviado por e-mail aos cientistas, respondido anonimamente, estão na edição desta quinta-feira (22) da revista “Nature”.
“Na maioria dos casos relatados, as infrações de dados foram conduzidas por um chefe [orientador ou coordenador de pesquisa]. Isso torna difícil uma intervenção por parte dos pesquisadores”, disse à Folha Gerald Koocher, um dos coordenadores da pesquisa. Ele explica que as intervenções são mais fáceis para cientistas distantes do infrator do que para quem está no mesmo laboratório.
“Em 61 casos, não houve intervenção diante de um erro porque o cientista era um amigo”, conta Koocher. No topo da lista de infrações cometidas pelos cientistas, estão fabricação ou falsificação de dados, falsa co-autoria de artigo e plágio.
Segundo Koocher, as estatísticas encontradas nos EUA podem ser generalizadas para Brasil, Austrália e alguns países da Europa que, na opinião dele, possuem uma “cultura científica bastante semelhante”. Com base na pesquisa, os autores criaram uma espécie de guia de 60 páginas que traz sugestões para os cientistas saberem o que fazer diante de uma pesquisa com dados fraudulentos (www.ethicsresearch.com).
“Mas o guia não faz rodeios e reconhece que nem sempre os pesquisadores conseguirão tomar uma atitude diante de um erro científico”, revela o autor. A ideia de estudar infrações científicas foi do governo americano, para tentar mapear erros em dados científicos. “Sabemos que os pesquisadores, especialmente nos grandes estudos, podem não checar números e não repetem os estudos”, conta.
Ainda podemos confiar na ciência? Koocher acredita que sim. “A maioria dos cientistas é honesta. Nós temos dados positivos e precisamos descobrir como fazer para melhorar a integridade dos cientistas”, finaliza.
O que a reportagem não menciona é que, paradoxalmente, o próprio “sistema” acadêmico “estimula” tais práticas eticamente condenáveis. A pressão por publicar é a a principal delas. O sistema de avaliação de pesquisadores utilizando indicadores cientométricos passou a ter uma importância por demais exagerada, deixando-se de lado fatores como originalidade, completude e profundidade de trabalhos científicos. Estes três aspectos exigem tempo, estudo e dedicação por parte de pesquisadores. No entanto, a pressão por se publicar cada vez mais causou uma enorme distorção no sistema de avaliação acadêmico, em que os números são mais importantes do que o conteúdo dos trabalhos científicos.
Infelizmente as fraudes na ciência podem causar sérios problemas para a comunidade científica. Um exemplo notório foi em 1989, quando da divulgação que os cientistas norte-americanos Stanley Pons e Martin Fleischman teriam conseguido realizar a fusão a atômica a frio (veja aqui e aqui). Em seguida à divulgação, vários laboratórios de todo o mundo tentaram reproduzir os experimentos de Pons e Fleischman, sem sucesso. Os autores foram severamente criticados pela comunidade científica.
Outro caso notório aconteceu no Brasil recentemente, chegando a envolver a ex-reitora da Universidade de São Paulo, Profa. Suely Vilela, na publicação de artigo com partes do texto e figuras de outro artigo (veja aqui e aqui).
A reportagem da Folha, e exemplos divulgados nos meios de comunicação, mostram que tais práticas não somente prejudicam a reputação dos cientistas, como também a própria ciência, que passa a questionar a validade de artigos publicados (quantos pesquisadores já tentaram reproduzir resultados obtidos por outros, sem sucesso?).
Embora não exista a isenção de responsabilidade da parte dos pesquisadores que publicam artigos com resultados irreproduzíveis, o sistema de avaliação acadêmico deveria ser continuamente analisado de maneira a aprimorar seus critérios em vez de impor uma dinâmica de publicação e divulgação de resultados a qualquer custo. Aparentemente, o uso de critérios puramente numéricos de avaliação da pesquisa e de pesquisadores é bastante questionável. Uma avaliação por pares criteriosa, utilizando critérios de relevância, excelência e meritocracia, deveria ser imperativo na avaliação de manuscritos, trabalhos submetidos para encontros científicos e projetos de pesquisa. Não existe outra maneira de se desenvolver ciência de boa qualidade.
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