Caos na UnB?

Desde o fim do ano passado a Universidade de Brasília tem apresentado inúmeros problemas para os quais aparentemente não são buscadas soluções. O mais recente é a aparente institucionalização da baderna, festas e arruaças durante o horário de expediente, causando inúmeros transtornos aos estudantes interessados em aprender e se tornar bons profissionais. Repetidas denúncias apresentadas no blog “Ciência Brasil”, do Professor Marcelo Hermes-Lima (Departamento de Biologia Celular), culminaram com uma manifestação em carta-aberta de um aluno que denuncia que

“Uma minoria de alunos bagunceiros está conturbando o cotidiano acadêmico da universidade das formas mais variadas – trotes agressivos, festinhas diárias com música altíssima e álcool rolando solto, depredação do patrimônio público através de pichações, dentre outros exemplos – e a Reitoria não está fazendo absolutamente nada.”

“A administração da UnB precisa parar de tratar os alunos como se fossem criaturas juridicamente incapazes, como crianças que ficarão traumatizadas ao serem punidas por seus atos exagerados.”

“Se nada for feito no sentido de resgatar a nossa universidade, então esses casos frequentes (antes isolados, mas que se proliferaram de uma maneira absurda nos últimos dois anos) se transformarão em uma verdadeira cultura entranhada na universidade. É apenas uma questão de tempo.”

Já em outubro de 2009, notícia divulgada no jornal da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília contava que seis salas de aula haviam sido ocupadas por estudantes que reivindicavam o direito de transformar as seis salas de aula em centros acadêmicos. Foi ocupada inclusive uma sala de aula destinada a alunos com deficiência auditiva. Os ocupantes se instalaram nas salas de aula com os slogans “Ocupe a UnB. A universidade é sua.”, levando colchões, sofás, geladeiras, mesas e camas. Não se sabe se o problema foi resolvido ou não.

Mais recentemente o jornal Correio Braziliense divulgou notícia que duas mulheres foram assaltadas dentro do campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília quando se dirigiam à uma agência do Banco do Brasil. Dois adolescentes roubaram R$ 5 mil em dinheiro, dois celulares, a chave do carro, um relógio, quatro folhas de cheque e documentos, fugindo em seguida em um carro que os aguardava na entrada do estacionamento.

Na semana anterior um homem entrou nas dependências da Universidade de Brasília e roubou diversos equipamentos de audiovisual. O bandido foi filmado pelo circuito interno de segurança, e as imagens foram divulgadas no jornal HOJE e JORNAL NACIONAL da Rede Globo.  A notícia foi também divulgada no jornal O Globo. Todavia, não se sabe se o meliante foi encontrado ou não, e se o furto está sendo objeto de investigação.

Outro fato recente foi de um trote exagerado durante o horário de aulas. Também segundo o jornal Correio Braziliense, “alguns alunos do curso de química entraram, aos gritos, na sala em que [uma professora] dava aula, com um carrinho de supermercado e um megafone. Momentos depois, um estouro foi ouvido do lado de fora da sala. A baderna assustou os calouros, fez uma aluna chorar e ser amparada pela professora. A reclamação causou estranheza ao diretor do departamento, professor Jurandir Rodrigues de Souza. “Quando li o relato, fiquei estarrecido. Nunca soube de algo semelhante a isso em nossos cursos.” Nos corredores da faculdade de química, o relato da professora é visto como uma versão distorcida do que realmente aconteceu, apesar de não negarem nenhum dos fatos descritos na carta [que a mesma professora encaminhou ao departamento]. Logo após o acontecido, a diretoria da faculdade se reuniu com os alunos para esclarecer a situação, na tentativa de conscientizá-los do mal-estar causado. “Isso é coisa da idade das cavernas. Os novatos deveriam se sentir bem ao chegar aqui e não ter medo”, declara o vice-diretor, Marcos Juliano Praucnher.

Além disso, Jorge Antunes, professor titular da UnB divulga em seu site que a administração da universidade gasta menos de 2% do orçamento nos novos campi situados nas cidades periféricas Gama, Planaltina e Ceilândia. O professor Jorge Antunes é maestro e compositor de reconhecimento nacional e internacional. Doutor pela Universidade de Sorbonne (França), introduziu a música eletroacústica no Brasil. Como administrador se projetou nos meios culturais como presidente da Ordem dos Músicos do Brasil, na primeira diretoria eleita do órgão após o fim da intervenção da ditadura militar. Em 2002 recebeu o título de Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês. É membro da Academia Brasileira de Música. Em seu site, o Prof. Antunes denuncia o abandono dos campi da UnB, dizendo que

“Desde o primeiro vestibular realizado para esse campi, no 2° semestre do ano de 2008, os alunos têm vivido uma realidade acadêmica precária que até o momento foi apenas “remendada” com soluções paliativas e temporárias. As primeiras turmas deste campi tiveram boa parte de suas aulas num local improvisado no centro da Ceilândia. Não havia estrutura, laboratório, ventilação ou condição alguma para a ministração de aulas, e a promessa de entrega do campi definitivo estava prevista para outubro do mesmo ano (2008), prazo não cumprido pela empresa ganhadora da licitação e pelo GDF.”

“não temos restaurante universitário, não temos exemplares de livros suficientes, não temos aulas práticas suficientes nem de qualidade, não temos laboratórios individualizados para cada departamento, não temos condições mínimas de estudo (as salas são superlotadas, os banheiros são insuficientes, faltam cadeiras, falta espaço na biblioteca, falta espaço nos laboratórios), não temos segurança suficiente (devido a grande movimentação da área, muitas pessoas são assaltadas e carros são furtados em plena luz do dia) e estamos vivendo de medidas provisórias há dois anos. Dois anos! Como se não fosse o suficiente, a comunidade acadêmica de Ceilândia é ignorada e a integração entre os campi não faz sentido, uma vez que existe o transporte gratuito inter campi, mas a burocracia para conseguir pegar aulas em outros campi é absurda, quando deveria ser feita via internet! E estamos passando por um pós-greve dos professores que resultou em um calendário retroativo, onde não teremos férias e estamos a 100 dias sem funcionários e técnicos devido a atual greve da classe, o que resulta em biblioteca e laboratórios trancados.”

Aparentemente a administração da Universidade demonstra total indiferença pelo cidadão brasileiro, quando ignora os problemas a serem solucionados de maneira definitiva na universidade. A Universidade de Brasília já foi referência nacional em várias áreas de pesquisa, e ainda abriga excelentes pesquisadores/professores que têm que trabalhar sob condições inaceitáveis do ponto de vista profissional. Levando-se em conta que a Universidade de Brasília é pública, financiada com dinheiro da arrecadação de impostos do cidadão brasileiro, a sociedade deveria exigir medidas imediatas para a solução dos problemas da UnB de forma definitiva.



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3 respostas

  1. Prof. Roberto Berlinck,

    Agradecemos imensamente a divulgação em seu blog do caos generalizado que se instaurou na Universidade de Brasília – caos esse, vale salientar, resultante da administração do atual reitor, José Geraldo de Sousa Júnior, e pelo DCE da UnB, que, estranhamente, sempre está em perfeita sintonia com a Reitoria.

    Felizmente, os alunos que promovem essas badernas são minoria na UnB (ainda que uma minoria bastante barulhenta e incômoda). Há alunos que desejam resgatar a UnB desse lamaçal no qual está atolada há meses. Alguns desses alunos formaram um movimento ainda incipiente, mas que está ganhando força na universidade: a Juventude Conservadora da UnB. Para saber mais, convidamos o sr. a visitar nosso blog e ler nossos textos.

    Forte abraço!

  2. E os assaltos aos ciclistas na USP? Como andam, hein?

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