Reportagem publicada hoje no jornal Folha de S. Paulo on-line traz dados levantados pelo Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Carlos Aragão.
Ciência rural turbina publicação no país – Ricardo Mioto
Se todos os pesquisadores brasileiros produzissem como os da área de ciências agrárias, o peso científico do país hoje seria equivalente ao da França. Já campos como psicologia, economia e ciências sociais, bem inferiores à média nacional, puxam a produtividade para baixo. Os dados que permitem essas conclusões foram apresentados pelo presidente do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Carlos Aragão, na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Natal (RN). A medida usada nas estatísticas é o número de artigos publicados em revistas científicas mundo afora, indexados (cadastrados) em bases de dados internacionais.
“A ciência brasileira, apesar de aceita como uma ciência de qualidade, ainda não tem protagonismo mundial. São poucas as áreas em que você pode dizer que um grupo brasileiro causou uma verdadeira mudança de paradigma”, disse Aragão. “Tanto que, nas reuniões da Academia Brasileira de Ciências, sempre alguém pergunta por que ainda não temos um Prêmio Nobel. Claro que um Nobel não é tudo, mas é um indicador de liderança científica.”
Na média, o país vem, porém, melhorando rapidamente. Só entre 2007 e 2008, o número de artigos publicados em revistas científicas internacionais cresceu de 19 mil para 30 mil – e o país subiu da 15ª para a 13ª posição no ranking mundial.
O bioquímico Rogério Meneghini, especializado em medições de produtividade científica, lembra que pode existir uma margem de erro nas comparações. Segundo Meneghini, elas funcionam para definir quais são os extremos, o que há de melhor e pior na pesquisa nacional, mas as áreas com notas intermediárias precisam ser analisadas caso a caso. Isso porque a base internacional na qual os dados estão não separa os trabalhos científicos em campos – é necessário fazer buscas por palavras relacionadas à área. Para Meneghini, é preciso ter cuidado especialmente em áreas interdisciplinares, como a bioquímica. “São áreas menos definidas e, conforme as palavras usadas numa busca, aparecem resultados diferentes. Nas pesquisas que fiz, a bioquímica está perto da média.” Segundo ele, a baixa produção das ciências humanas se relaciona com a dedicação maior dos pesquisadores da área aos livros e coletâneas. “Em outros lugares, como a Espanha, não é assim. Mesmo na França, de onde o Brasil herdou boa parte dessa sua maneira de fazer ciências humanas, o perfil da produção já está mudando”, diz.
Além disso, faria bem para a ciência brasileira que todas as suas áreas passassem a publicar mais em inglês, dizem os especialistas. “É necessário aceitar que o inglês é língua franca”, diz Aragão. “Já está na hora de escrever em inglês.”
A novidade desta notícia é a importância das ciências agrárias no Brasil. Realmente surpreendente. Usualmente se considera a área médica como sendo a de maior destaque científico no Brasil. Sendo assim, decidi realizar um levantamento com a base de dados SCImago Journal & Country Rank.
Meu levantamento feito levando-se em conta uma comparação entre o Brasil e a Espanha, no período compreendido entre 1996 e 2008. Os dados, obtidos a partir do SCImago Journal & Country Rank, são apresentados a seguir (se o(a) leitor(a) clicar em cima dos gráficos, estes aumentam de tamanho).
O primeiro gráfico mostra que em termos de números de documentos publicados/ano, o Brasil se aproxima da Espanha, e ambos países apresentam uma produção científica crescente nesta área de pesquisa, com mais de 5.000 trabalhos científicos publicados pelo Brasil em 2008 e mais de 6.000 pela Espanha.
Em termos de citações totais/ano, relativa a trabalhos científicos em ciências agrárias no Brasil e na Espanha, os dados mostram cerca de duas vezes e meia mais citações para os artigos da Espanha. Esta proporção permanece estável entre 1996 e 2003, quando, a partir de então, o número de citações totais de trabalhos científicos/ano começa a cair. Tal tendência é absolutamente normal, pois os trabalhos científicos publicados mais recentemente ainda foram pouco lidos e, consequentemente, não são conhecidos e, por isso, não são muito citados. Assim, os trabalhos científicos publicados mais recentemente são os menos citados, tanto para o Brasil como para a Espanha.
A mesma tendência geral é observada no gráfico imediatamente acima. Neste, o número de citações/artigo/ano para o Brasil e para a Espanha, relativos a trabalhos da área de ciências agrárias, indicam que a Espanha apresenta, em média, 1 vez e meia mais citações/artigo/ano do que o Brasil. A queda observada a partir de 2001 se deve, muito provavelmente, à mesma razão da queda na tendência do gráfico anterior: por serem menos conhecidos, artigos mais recentes ainda não tiveram tempo de ser lidos e, consequentemente, citados.
O gráfico imediatamente acima, indica a porcentagem de artigos citados/ano, entre 1996 e 2008, para o Brasil e a Espanha, relativos à área de ciências agrárias. Reparem que a grande maioria dos artigos publicados foram citados, tanto no caso do Brasil (um pouco menos de 90% até 2004) como no caso da Espanha (pouco acima de 90% até 2004). Muito provavelmente isso significa que estes artigos foram publicados em revistas indexadas, passíveis de serem encontradas em sistemas de bancos de dados eletrônicos, para que seus artigos possam ser lidos, e citados. Este é um bom indicativo para o Brasil, pois é muito próximo do da Espanha, e é um indicador de boa qualidade dos trabalhos publicados na área de ciências agrárias no Brasil.
Finalmente, o gráfico acima mostra as diferentes grandes áreas científicas, relacionadas entre si. O tamanho das circunferências indica a relevância da área assinalada. A posição “mais no centro” ou “mais periférica” das circunferências coloridas também indica se determinada área de pesquisa é “mais central” ou “mais periférica”. Infelizmente este gráfico só pode ser gerado para o período de 1 ano. No caso foi considerado o intervalo 2007-2008. Observa-se que as ciêncas médicas é a área científica mais relevante no Brasil. Segue-se as ciências agriculturais e biológicas, dentro das quais se inclui as ciências agrárias. Ou seja, esta é realmente relevante, mas a pesquisa em ciência médica ainda é a mais relevante do Brasil, segundo os dados do SCImago. Esta tendência é observada para todos os intervalos anuais entre 1996 e 2008. Ou seja, 1996/1997, 1997/1998, 1998/1999 até 2008.
Excelente. Parabéns aos pesquisadores de ciências agrárias do Brasil. Certamente a EMBRAPA deve ter uma parcela significativa de contribuição no desenvolvimento das ciências agrárias, ao lado de escolas de agronomia como a Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiróz (USP), a Universidade Federal de Viçosa, e muitas outras.
Categorias:ciência, educação, informação



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