Segundo William Dembski, “o termo ‘a cunha’ denota um movimento intelectual e cultural, e é uma estratégia para acabar com o naturalismo e a evolução” (W. A. Dembski, em Darwin’s Nemesis, página 100). A cunha do “design inteligente” é o símbolo do MDI (Movimento do Design Inteligente) contra o naturalismo e a ciência da evolução. A metáfora apresentada por Dembski é representada pelo lado fino da cunha, que designa o “design inteligente” como uma ciência (segundo os membros do MDI, “renovação científica”), enquanto que o lado grosso da cunha representa uma teologia e moralidade cristã de natureza fundamentalista (segundo o MDI, “renovação cultural”). Ao enfiar a ideologia d’A Cunha no seio da sociedade, até enfiá-la por completo, a imagem é de rompimento, de destruição.
Segundo Philip Johnson, um dos idealizadores d’A Cunha,
“Our strategy is to drive the thin edge of our Wedge into the cracks in the log of naturalism by bringing long-neglected questions to the surface and introducing them into public debate. Of course the initial penetration is not the whole story because the Wedge can split the log only if it thicknes as it penetrates” (“Nossa estratégia é enfiar o lado fino da Cunha nas fissuras da tora do naturalismo, trazendo à tona questões negligenciadas por muito tempo e introduzir estas questões no debate público. Obviamente a penetração inicial não é toda a história pois a Cunha só pode cindir a tora se ficar mais grossa à medida que penetrar” (P. E. Johnson, The Wedge of Truth, página 14).
“A Cunha” do MDI têm, assim, um lado fino e um lado grosso. No seu lado fino, a ideologia é introduzida deliberadamente à guisa de uma “teoria científica” contra a teoria da evolução de Darwin. A estratégia é que seja ensinada em escolas secundárias e nas universidades. À medida que A Cunha é forçada a penetrar na sociedade, se amplia e objetiva destruir a base da sociedade, da cultura, da política, trazendo um novo dogma de moralidade social e uma teologia fundamentalista e reacionária. Fica evidente que apenas o objetivo superficial do MDI é contestar a ciência. O objetivo final é destruir a base cultural social e submetê-la, novamente, ao domínio de uma ideologia medieval.
Os membros do MDI apresentam sua ideologia como sendo “científica”, não como teologia. Porém, sua intenção não é contribuir para o avanço da ciência, e sim se utilizar desta para justificar os argumentos teológicos d’A Cunha. Os termos da ideologia do MDI ficam claros no livro de Dembski, “Intelligent Design: The Bridge Between Science and Theology” (“Design Inteligente: A Ponte Entre Ciência e Teologia”). Dembski ilustra sua “clara distinção” entre design inteligente e criacionismo, dizendo
“A mais óbvia diferença é que o criacionismo científico têm compromissos religiosos, enquanto que o design inteligente não. O design inteligente tem uma menor bagagem religiosa”. (…) “O design inteligente não pressupõe um criador ou milagres. O design inteligente é telogicamente minimalista. Detecta inteligência sem especular sobre a natureza da inteligência”. Ou seja, o criacionismo aceita o princípio teológico sem restrições, enquanto o MDI tenta reduzi-lo a um mínimo aceitável para que possa justificar suas premissas de maneira coerente. É um “criacionismo minimalista”.
Membros do MDI rejeitam a noção que ciência e religião só podem ser tratadas como áreas de conhecimento distintas, como propõe Stephen Jay Gould em seu conceito NOMA (Non-Overlapping Magisteria, magistérios sem sobreposição). De acordo com Jay Wesley Richards, o “design inteligente” “é um propósito válido para uma apologética cristã. Positivamente, não somente o design inteligente se torna um argumento apologético, como também propõe uma visão da ciência natural compatível com a doutrina cristã da criação” (J. W. Richards, em Signs of Intelligence, páginas 51-59).
O lado fino d’A Cunha do MDI é apenas pseudo-científico, que se complementa com teologia no lado mais grosso. A dependência do criacionismo do design inteligente com teologia para tornar sua argumentação mais completa está claramente definida desde os tempos de Epicuro. Tal ideologia foi posta por terra repetidamente por este filósofo grego, e também por Lucrécio, David Hume, Darwin e S. J. Gould.
Ao observarmos a natureza atentamente, verificamos que esta teve soluções nada elegantes para os caminhos da evolução, como a prole que devora a própria mãe para sobreviver (Gould, Ever Since Darwin, páginas 91-96), ou a fêmea do Louva-a-Deus que arranca a cabeça de seu parceiro durante o ato sexual, ou, no caso dos seres humanos, orifícios de deglutição e respiração muito próximos que levam muitas vezes à sufocações por alimentos, e ainda orifícios de órgãos do aparelho genito-urinário próximos um do outro (quando não no mesmo, no caso da uretra), que permitem a ocorrência de infecções extremamente graves que podem levar até à morte. Como tais arranjos estranhos, dentre muitos outros, podem ser fruto de um design inteligente?
Mas Dembski justifica o injustificável, através de argumentos bastante questionáveis, de que “o design é necessariamente imperfeito e limitado, e que não pode ser separado do mal (…) Disteologia, a perversão do design na natureza, é uma realidade (…) pois este é um mundo decaído. O mundo que Deus queria não mais está em evidência” (ref. citada). Os argumentos são claramente teológicos, e não científicos. Pode-se, assim, verificar que a ideologia do design inteligente requer o lado grosso da cunha teológica, de maneira a completar seu argumento, o qual não é auto-suficiente no domínio científico, seja com respeito à sua teologia ou disteleologia. Na verdade, a premissa do design inteligente é um argumento doutrinário, de cunho teológico, religioso, sem qualquer fundamento científico. Tal como discutido recentemente na revista Proceedings of the National Academy of Sciences of the USA (veja aqui).
Referências consultadas
J. B. Foster, B. Clark, R. York, Critique of Intelligent Design, Monthly Review Press, New York, 2008.
J. W. Richards, Proud Obstacles and a Reasonable Hope, em Signs of Intelligence, Dembski and Kushiner, Eds., PP. 51-59
S. J. Gould, Ever Since Darwin – Reflections in Natural History, W. W. Norton & Co., New York,1977.
W. A. Dembski, “Dealing with the Backlash Against Intelligent Design”, em Darwin’s Nemesis, W. A. Dembski, Ed., Downers Grove, Illinois, InterVarsity Press, 2006, página 100.
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