Sapos, rãs e pererecas para quê?

Porque preservar espécies de anfíbios como sapos, rãs e pererecas? Afinal muitos são tidos como nojentos e feios. Antes de príncipe, sapo. Estes seres pegajosos  podem ter algo de bom?

Eu diria que existem pelo menos três razões muito importantes para que estas criaturas sejam preservadas com muito cuidado. Primeiramente porque, sendo animais sensíveis, servem de indicadores de mudanças ambientais. Mudanças ambientais significativas, como muito calor e muita secura, faz com que estes animais desapareçam. Segundamente, porque estes anfíbios são comedores de mosquitos. E ajudam a diminuir o incômodo de nossas noites de sono, além do incômodo da dengue, da malária e da febre amarela, e de outras doenças que são transmitidas por mosquitos. Terceiramente porque são uma fonte incrível de substâncias químicas extremamente variadas.1 Algumas destas substâncias são antibióticos extremamente potentes.

Pesquisadores dos Emirados Árabes estão procurando novos antibióticos presentes em secreções de anfíbios. Até agora já encontraram mais de 100. Um dos antibióticos mostrou ser eficaz contra uma bactéria cujo nome é bastante sugestivo: Iraqibacter. Esta bactéria mostrou contaminar vários soldados americanos combatentes no Iraque, e é resistente ao tratamento por antibióticos comuns.

Atualmente existe uma grande preocupação na descoberta e desenvolvimento de novos antibióticos, pois muitas linhagens de bactérias patogênicas estão adquirindo resistência contra os antibióticos usualmente utilizados no tratamento de infecções (veja aqui, e aqui). Considerando-se que os anfíbios estão no ambiente desde cerca de 300 milhões de anos, vivendo em ambientes quentes e úmidos, muito propício para o desenvolvimento de microrganismos, parece óbvio que estes pequenos seres tenham desenvolvido a capacidade de preoduzir e/ou de armazenar substâncias químicas com atividade contra microrganismos patogênicos. É esta a hipótese dos pesquisadores da Universidade dos Emirados Árabes Unidos.

Embora já se conheçam inúmeras substâncias isoladas de secreções de anfíbios, muitas destas substâncias são tóxicas para humanos. Por isso os pesquisadores dos Emirados Árabes não pretendem usar as mesmas substâncias que os anfíbios acumulam para tratar infecções por microrganismos patogênicos. Os pesquisadores pretendem utilizar estas substâncias como modelo para a descoberta e o desenvolvimento de novos fármacos com atividade antibiótica, que estão se tornando cada vez mais raros. Isso porque muitos microrganismos estão se tornando cada vez mais resistentes aos antibióticos já conhecidos. O grupo também pretende melhorar a absorção destas substâncias, uma vez que muitas não são eficientemente transportadas no sangue humano. Desta forma, pretendem dar uma contribuição importante para a descoberta de novos antibióticos, que sejam mais eficazes do que os que são atualmente utilizados para tratar infecções.

Uma das espécies dos EUA apresentou uma substância eficaz como antibiótico contra Staphylococcus aureus resistente à meticilina. Esta linhagem patogênica é extremamente nociva à saúde humana, sendo muito difícil de ser tratada.

Os pesquisadores já conseguiram secreções de mais de 6.000 espécies de anfíbios. O interessante é que somente a secreção é coletada, de maneira a não comprometer populações destes animais. O grupo tem colaboradores no Japão, na França e nos Estados Unidos. Uma vez identificadas, as substâncias dos anfíbios são sintetizadas em laboratório, para que o “reservatório” destas substâncias não se torne comprometido: os próprios anfíbios. A pesquisa demonstra a importância em se conhecer para poder se explorar de maneira racional e sustentável componentes da biodiversidade, principalmente de ambientes quentes e úmidos.

Fonte da notícia: aqui.

1. Comentário final: primeiramente, segundamente e terceiramente são expressões antigas que caíram em desuso depois que a qualidade da televisão brasileira caiu vertiginosamente. Quem se lembra de Odorico Paraguassu sabe do que estou falando.

Pena que o vídeo esteja comprometido da metade para o fim. Odorico Paraguassu (de terno) era interpretado por Paulo Gracindo, e Neco Pedreira (de camiseta amarela) por Carlos Eduardo Dolabella. Reparem no uso do sufixo adverbial de modo por Odorico. Sua fala era uma das melhores características do personagem.



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