Fator de impacto de revistas de química

Apesar de não ser fã do uso do fator de impacto (FI) de revistas científicas em cientometria, notícia divulgada na edição de agosto do boletim RSC News (RSC = Royal Society of Chemistry, Sociedade Real de Química, do Reino Unido) mostra que as revistas editadas pela RSC e pela American Chemical Society (ACS, Sociedade Americana de Química) são as que apresentam maior porcentagem de FI acima de 3,0. Segundo o boletim da RSC, o valor de FI acima de 3,0 é considerado como sendo o valor de excelência para revistas da área de química.

É interessante observar, no gráfico acima, que quase 90% das revistas editadas pela RSC apresenta FI acima de 3,0, e dentre as revistas editadas pela ACS pouco mais de 80% apresentam FI acima de 3,0. Já para as assim chamadas “editoras comerciais”, a porcentagem de suas revistas com FI > 3,0 não ultrapassa 40%. A distinção entre a RSC e ACS com as “editoras comerciais” é que as duas primeiras são editoras de sociedades científicas. Já a Elsevier, Wiley e Springer são editoras puramente comerciais.

Porém, cabe assinalar que a Wiley-VCH edita a revista Angewandte Chemie International Edition, considerada a revista de química experimental com maior fator de impacto: 11,8.

Qual seria a razão das “editoras comerciais” publicarem tantas revistas com fator de impacto abaixo de 3,0?

Algumas possíveis respostas:

– Para a maioria destas revistas, o longo tempo de publicação entre a aceitação do artigo científico e a sua publicação efetiva faz com que os autores que publicam bons trabalhos científicos fujam destas revistas.

– A aceitação de artigos de não tão boa qualidade para publicação.

– Falta de critérios na escolha de revisores para avaliação de manuscritos.

– Não aceitação da avaliação dos revisores como critério para elegibilidade para aceitação ou recusa da publicação de artigos científicos.

– A publicação de um maior número de artigos de qualidade heterogênea.

Outros?

Como pesquisador, já tive a experiência de vivenciar as conseqüências da aplicação de dois dos fatores listados acima. De qualquer forma, a qualidade das revistas editadas pela RSC e pela ACS merece destaque. Não deve ser por acaso que a grande maioria de suas revistas apresenta fator de impacto maior do que 3,0.

Veja a íntegra da edição de agosto do boletim da RSC, aqui.



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9 respostas

  1. Explicando o viés:

    Cumpre notar que no Ulrich’s Serials Directory, as revistas da RSC estão todas indexadas na base Web of Knowledge (da Thomson Reuters), da qual fazem parte a conhecida ISI-WoS (Institute of Scientific Information-Web of Science) e também a JCR (Journal Citation Reports), essa última, justamente, é que calcula o FI…

    Embora o publicador possa ser a RSC, o indexador é a Thomson Reuters.

    As demais revistas que, segundo o boletim da RSC, não atingem FI >3, estão indexadas também em outras bases de dados, como a Scopus (da Elsevier), não por acaso concorrente direta da Web of Knowledge.

    No fim, tudo se resume a disputas de “petits comités” – as bases de dados e suas revistas indexadas.

  2. Roberto,

    é o “Efeito Mateus” e a Lei de Bradford. E não estou questionando a qualidade das revistas editadas pela RSC e pela ACS. Mas o Boletim da RSC obviamente está puxando a brasa para sua sardinha.

  3. O que acho é que realmente revistas de sociedades e associações científicas potencialmente têm o FI maior, até porque o, digamos, “espírito associativo” dos membros dessas entidades induz à citação de suas revistas, não é mesmo? Quando não trata-se de uma política editorial expressamente adotada pelas próprias sociedades e associações editoras, prática comuníssima mesmo no exterior.

    Você sabe de tudo isso – sei que acompanha as discussões. Não desmerecendo a RSC, a ACS – e escrevi acima que não questiono a qualidade das revistas por elas editadas, qualidade essa que vc confirmou, mas as demais editoras mostradas no gráfico, embora sejam “comerciais”, na verdade a grande maioria apenas publica revistas sob a responsabilidade editorial de alguma instituição (acadêmica ou de pesquisa). Não é o caso (excepcional) da Angewandte Chemie, cujo editor é mesmo independente, e comercial (Wiley-Blackwell/Verlag).

    E mesmo essas também adotam tais práticas. O caso é mesmo de Efeito Mateus e da Lei de Bradford – distorcendo o contexto global da produção científica em Química, a meu ver mais grave num momento em que as ciências estão ficando mais e mais multidisciplinares. Fechar-se demais, em verdadeiras “panelinhas” não é bom. E o FI só contribui para essas distorções.

    No dia em que se der mais importância e valor para o conteúdo das revistas – o artigo e seus autores propriamente ditos, descolando-os dos títulos de publicações (que afinal, são apenas um mero suporte), aí sim teremos mesmo um avanço e muitos dos equívocos que hoje vemos em publicações científicas serão, se não dirimidos, pelo menos minimizados.

  4. Se a Sibele não se incomodar, vou usar essa epigrafe na minha apresentação em João Pessoa…

  5. Usar essa “epígrafe” (segundo o Roberto) numa apresentação? Nossa, e pensar que muitos a tomariam por quixotesca! Mas só me honra que o oposto do cavaleiro de La Mancha (aquele que luta contra moinhos de vento) a considere – afinal, El Cid é sério. Muito sério, como o Roberto bem mostrou aqui… 😀

    Use e abuse, Cid! Muito obrigada!

    E sucesso à sua apresentação! 🙂

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