“Experiências de fertilização artificial, semelhantes às que se realizam com plantas ornamentais para a obtenção de novas variações de cor, conduziram-nos às que serão aqui discutidas. A notável regularidade com que as mesmas formas híbridas sempre reapareciam, quando a fecundação se realizava entre as mesmas espécies, levou-nos à realização de experiências complementares, cuja finalidade era seguir o desenvolvimento das descendência dos híbridos.”
Este é o primeiro parágrafo do artigo original de Gregor Mendel, Versuche über Pflanzen-Hybriden, apresentado em duas sessões subsequentes da Sociedade dos Naturalistas de Brünn, datadas de 8 de fevereiro e 8 de março de 1865, o qual discorre a respeito da transmissão dos caracteres vegetais da ervilha (Pisum sativum) e estabelece as leis fundamentais da hereditariedade que deram origem à genética.
A descoberta do livro “Gregor Mendel – Vida e Obra” foi totalmente por acaso, caminhando por uma rua de São Paulo na tarde do dia 6 de setembro último. Em frente a uma papelaria/livraria liquidando seu estoque, uma banca cheia de livros a R$ 1,00 vendia o título que me chamou a atenção, principalmente por ter sido escrito por Newton Freire-Maia, grande geneticista da Universidade Federal do Paraná.
A surprêsa foi a leitura do livrinho de 96 páginas cheio de detalhes sobre a vida de Mendel, a respeito do qual sabia muito pouco, quase nada, até então.
Johannes Mendel (Gregor não era seu nome) nasceu no seio de uma família muito pobre, em 20 ou 22 de julho de 1822, na cidade de Heinzendorf dei Odrau (Morávia, império Austro-Húngaro). Sua família era de agricultores, fato que exerceu influência direta sobre suas atividades científicas. Só pôde estudar em decorrência do casamento bem sucedido de uma de suas irmãs, quem acabou por financiar os estudos de Mendel. Freire-Maia discute o fato de Mendel ter se tornado monge por vocação ou necessidade, pois a sua entrada na vida monástica garantiria o seu sustento. O autor do livro esclarece que Mendel realmente optou pela vida religiosa, com a qual se identificava. Mendel realizou estudos de filosofia, latim, filologia grega, matemática, física e religiões na Universidade de Ölmutz. Vários de seus professores e mentores observaram sua inteligência e perspicácia, e recomendaram a continuidade de suas atividades de pesquisa, apesar de Mendel ter sido reprovado mais de uma vez em exames de ingresso para especialização como professor. As recomendações fizeram com que Mendel pudesse se especializar na Universidade de Viena. Em 1852 foi indicado como professor substituto na Escola Real de Brünn e em 1857 iniciou seus experimentos de hibridação com ervilhas.
Mendel trabalhou com meteorologia, apicultura, hibridação e também como estenógrafo. Estabeleceu as bases de sua pesquisa em estudos anteriores realizados por C. F. Gärtner e J. G. Kölreuter. Durante suas pesquisas, Mendel foi à Paris e Londres, leu “A Origem das Espécies” de Charles R. Darwin, mas discutiu com muito poucos colegas sobre suas descobertas. Muitos criticavam experimentos de hibridação, considerando-os incompatíveis com suas funções eclesitásticas; porém, felizmente os clérigos de sua ordem consideravam seu trabalho mais importante do que as críticas.
Mendel criou um corpo de bombeiros para sua cidade natal, quitou as dívidas de sua família, pagou suas dívidas à irmã custeando os estudos de seus sobrinhos e tornou-se abade em 1868, aos 46 anos. Mesmo tendo assumido inúmeras responsabilidades, continuou suas investigações e publicou seu segundo e último trabalho sobre hibridação de plantas em 1870. Comprou briga contra o governo, que cobrava impostos excessivos, durante 10 anos. Porém, não pôde concluir sua contenda pelo fato de ter falecido em 1884, vítima do mal de Bright (nefrite). Foi vice-diretor e diretor do Banco de Empréstimos da Morávia. Era gestor do mosteiro no qual morou durante a maior parte de sua vida, como escriturário e responsável pelas compras. Pôde, assim, utilizar de seus recursos adicionais em várias ações filantrópicas e era considerado uma pessoa extremamente nobre. Foi enterrado com honras em Brünn.
Freire-Maia narra, em detalhes e em capítulos separados, os diferentes aspectos da vida de Mendel: sua vocação ao sacerdócio, o seu método científico, discute quantas seriam realmente as leis de Mendel, as repercussões de seu trabalho de hibridação, sua relação (inexistente) com Darwin e finalmente o redescobrimento de sua obra por Hugo de Vries, Karl Correns e Erich von Tschermak. Segundo Freire-Maia, Mendel não somente lançou as bases de genética, como também da genética de populações.
Alguns aspectos do excelente livro de Freire-Maia me chamaram a atenção. À leitura de seu trabalho sobre a hibridização das plantas, em 1853, seguiu-se total indiferença dos vários cientistas que estavam presentes à reunião. Mendel publicou os resultados de sua pesquisa no ano seguinte, nos Anais da Sociedade de Pesquisas em Ciências Naturais de Brünn, com tiragem de 500 exemplares e pouco conhecida. Mendel distribuiu 40 separatas de seu trabalho, mas apenas treze diveram seu destino estabelecido. Karl W. Naegeli (botânico) recebeu uma delas, e fez uma análise minunciosa dos resultados de Mendel, sugerindo experimentos adicionais. Solicitou sementes a Mendel, quem tinha trabalhado com mais de 10.000 híbridos e realizado cerca de 350 polinizações artificiais. Os dois trocaram correspondência durante 7 anos, sem maiores consequências para o trabalho de ambos. O botânico Kerner também recebeu uma das separatas e uma carta de Mendel, mas não se deu ao trabalho de lê-las. Outro botânico, Herman Hoffmann, recebeu o trabalho de Mendel e citou-o em seu livro “Avaliação de espécies e variedades – uma contribuição à crítica da hipótese de Darwin”, mas não chegou a compreender o trabalho de Mendel. Mendel também foi citado nas teses de doutorado de Blomberg (botânico sueco) e Schmalhausen (botânico russo), no catálogo de publicações científicas editado pela Royal Society (do Reino Unido), na nona edição da Enciclopédia Britânica (1881) e no livro de W. O. Focke, “Híbridos Vegetais”, também de 1881. É interessante a observação de Freire-Maia: “Há quem diga que Mendel foi citado doze vezes antes de 1900. Convenhamos que é pouco, se compararmos esse número com a citação que mesmo trabalhos medíocres merecem atualmente na literatura internacional; seja como for, não se pode dizer que tenha ficado totalmente desconhecido.”
Freire-Maia traça uma interessante argumentação sobre possíveis consequências ao desenvolvimento da genética e da teoria da evolução caso o trabalho de Mendel tivesse sido melhor reconhecido e divulgado. Grandes obras da época, como o livro de 800 páginas de Nägeli, Mechanisch–physiologische Theorie der Abstammungslehre (Teoria mecânico-fisiológica da Evolução, de 1884), publicado 16 anos depois do autor ter lido o trabalho de Mendel, e L’Hérédité et les grands problèmes de la biologie générale (A hereditariedade e os grandes problemas da biologia geral, 900 páginas, de 1895; Freire-Maia indica a data de 1903) de Yves Delage, não mencionam uma linha sobre o trabalho de Mendel. Pior, na obra de Delage o autor tece elogios exagerados à teoria da pangênese de Darwin, que irônicamente foi posta por terra quando do estabelecimento das leis da genética. Darwin leu o livro de Hoffmann, mencionado acima, mas também não procurou conhecer o trabalho original de Mendel. Entretanto, Darwin realizou experimentos de reprodução com a “boca de leão” (Antirrhinum majus), e chegou aos mesmos resultados que Mendel com as ervilhas, mas não pôde concluir nada. Tivesse lido o trabalho de Mendel… Ao invés disso, em seu livro A variação de animais e plantas sob domesticação, Darwin propôs uma teoria muito esquisita para justificar a hereditariedade, chamada de teoria da pangênese, que fazia uso de conceitos lamarckistas de “herança de caracteres adquiridos”. Segundo Freire-Maia, “Darwin era lamarckista (como praticamente todos os biólogos de sua época) e se tornou cada vez mais lamarckista com o tempo.” Não explica de onde obteve tais informações, mas faz um paralelo interessante entre as personalidades de Mendel e Darwin.
O capítulo “O redescobrimento” é um relato muito vívido dos acontecimentos do fim do século XIX e início do século XX, envolvendo de Vries, Correns e Tschermak, e como estes descobriram o trabalho de Mendel. Hugo de Vries chegou aos mesmos resultados de distribuição de caracteres dominantes, “mestiços” e recessivos, trabalhando com plantas dos gêneros Agrostema, Chelidonium, Hyoscyamus, Lychnis, Oenothera, Papaver, Zea, Aster, Chrysanthemum, Coreopsis, Solanum, Veronica e Viola. de Vries publicou seu trabalho no Comptes Rendues de l’Académie des Sciences em 1900, e enviou uma cópia a Correns. Este, no dia seguinte enviou uma nota ao Berichte der Deutschen Botanischen Gesellschaft, relatando seus achados e os de Hugo de Vries, mas referindo-se a Mendel como o autor original das descobertas. Tschermak também trabalhou com ervilhas, e obteve exatamente os mesmos resultados de Mendel. Encontrou menção ao trabalho deste no livro de Focke (“Híbridos Vegetais”), e o citou em suas publicações sobre o assunto. Por isso, Tschermak não é considerado, como de Vries e Correns, um redescobridor da obra de Mendel.
O mais interessante do livro de Freire-Maia é a tradução na íntegra do artigo de Mendel, “Experiências sobre híbridos vegetais”. É um artigo extenso, detalhado, no qual Mendel apresenta a elaboração racional de seus experimentos de maneira extremamente lógica e clara, e faz uso do método científico de maneira extremamente rigorosa. Divide o artigo em seções muito bem estruturadas, como “Seleção das plantas para as experiências”, “Divisão e planejamento das experiências”, realizou experimentos-controle (!) para os quais explica:
“As plantas foram cultivadas em canteiros, algumas também em vasos, e eram mantidas em sua natural posição vertical por meio de barbantes esticados entre estacas e ramos de árvores. Para cada experiência, um certo número de plantas em casos era colocado, durante o período de florescimento, em uma estufa, a fim de servir de controle para a experiência principal, realizada nos canteiros, por causa de possíveis perturbações por insetos.”
Algumas observações de Mendel me chamaram a atenção, como
“A classificação sistemática dessas formas é difícil e incerta. Se adotarmos o mais estrito conceito de espécie, segundo o qual só pertencem a uma espécie os indivíduos que, sob as mesmas circunstâncias, apresentam os mesmos caracteres, não há duas dessas variedades que possam ser referidas como da mesma espécie.”
“Até agora, não foi possível traçar um limite preciso entre as espécies e as variedades, assim como entre os híbridos das espécies e os das variedades.”
“Formas de transição nunca foram observadas nas experiências.”
A leitura do artigo de Mendel, muito bem traduzido por Freire-Maia, deveria ser obrigatória para estudantes de ciências naturais, de maneira a aprenderem como estruturar um trabalho científico. O mais impressionante são as “Observações finais”, que ocupam nada menos do que oito páginas e meia (!). Freire-Maia ressalta a enorme importância do trabalho de Mendel, que levou ao surgimento da genética como ciência.
Quem sabe quais teriam sido as consequências do reconhecimento da importância do trabalho de Mendel antes de 40 anos depois de sua publicação, quando foi finalmente redescoberto, principalmente por biólogos que estudavam a evolução?
Freire-Maia, N., Gregor Mendel – Vida e Obra, T. A. Queiroz, Editor, Ltda., São Paulo, 1995.
Categorias:ciência, educação, informação

Fantástico seu texto !! Li esse livro quando eu tinha uns 12 anos na biblioteca do colégio, obviamente sem essa visão crítica e sem esse ganho né?
Biblioteca de colégio de freira, há 25 anos, no túnel do tempo!!!
Que descoberta fantástica, Roberto!
E depois dessa bela peça de história da ciência, em descrição tão vívida e cativante, vou tratar de achar o livro. Obrigada pela dica!
Abração, Tati