Pós-graduação no Brasil e universidades corporativas

A recente avaliação dos programas de pós-graduação brasileiros, divulgada pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior, do Ministério da Educação), foi comentada na mídia escrita e eletrônica. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo on-line,

Número de cursos de mestrado e doutorado cresceu 20% em três anos – Região Norte apresenta maior avanço, de 31,3% em relação a 2007; concentração de doutores, porém, continua no Sudeste

O número de cursos de mestrado e doutorado cresceu 20% no Brasil nos últimos três anos. É o que aponta a avaliação trienal (2007-2010) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) divulgada nesta terça-feira. O maior crescimento foi na região Norte, com um incremento de 35% nos últimos três anos.

Foram avaliados 2.718 programas de pós-graduação, que correspondem a 4.099 cursos, sendo 2.436 de mestrado, 1.420 doutorados e 243 mestrados profissionais. A região Nordeste apresentou um crescimento de 31,3% em relação a 2007, o Centro-Oeste de 29,8%, o Sul de 24,2% e o Sudeste de 14,9%.

Apesar do destaque para o avanço da pós-graduação no Norte e no Nordeste, é no Sudeste que está a maior parte dos cursos: 2.190, o que representa 53,4% do total. De acordo com o presidente da Capes, Jorge Guimarães, a razão para essa disparidade é histórica e está ligada à organização econômica e científica do país.

Segundo a Capes, entre 2007 e 2010 a pós-graduação brasileira formou 100 mil mestres, 32 mil doutores e 8 mil mestres profissionais, em um total de 140 mil titulados.

Ainda segundo o mesmo jornal O Estado de S. Paulo on-line

Sudeste concentra cursos de pós-graduação; maior crescimento é no Norte – Maioria dos cursos de alta qualidade ainda está no Sul e Sudeste; DF concentra cursos do Centro-Oeste

O total de cursos de pós-graduação avaliados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) cresceu 20,8% no Brasil nos últimos três anos. Embora a região Sudeste ainda concentre o maior número de cursos (53,4%) e a maior proporção dos cursos considerados de excelência (78%), que são os que receberam notas 6 ou 7 na avaliação, foi o Norte do País que registrou o maior crescimento em termos de número de cursos: 35%.

Em todo o Brasil, foram avaliados 4.099 cursos, dos quais 594 (14%) atingiram nível de excelência. Foram reprovados 2% dos cursos avaliados. O maior crescimento de um Estado em todo o País foi o do Tocantins, que teve um aumento de 166,7% passando de três cursos, em 2007, para oito em 2010.

Na comparação de notas da Avaliação Trienal 2010 com as notas anteriores, 69% dos cursos mantiveram suas notas; 20% aumentaram; e 11% tiveram notas reduzidas. Em termos de qualidade, na região Norte há apenas dois cursos, ou 1% do total de 157, considerados de excelência, com nota 6. A maioria, 79 (50%) atingiu a nota mínima exigida pela avaliação, 3. Outros 69 obtiveram avaliação intermediária, entre 4 e 5.

Segundo comunicado da Capes, a disparidade qualitativa em relação ao Sudeste se explica pelo fato de os cursos do Norte ainda estarem em fase de consolidação.

A região Sul é a segunda maior em quantidade de cursos, 810, ficando atrás apenas do Sudeste.  Também é a segunda maior porcentagem de cursos de excelência. Dos 810 cursos, 91 receberam notas 6 ou 7. No Nordeste, dois Estados tiveram crescimento maior ou igual a 100% na pós-graduação. Sergipe mais que duplicou seu número de cursos, saltando de 13 para 27 (107,7%). Outro Estado que dobrou o número de cursos nesses últimos três anos foi o Piauí, que passou de 10 para 20 cursos. A região Nordeste teve, no total, um crescimento na pós-graduação de 31,3% desde a última avaliação trienal em 2007. Há, atualmente, 672 cursos de mestrado, doutorado e mestrado profissional na região. No Centro-Oeste, o Distrito Federal reúne o maior numero de cursos. De um total de 270 cursos avaliados na região, 135 são do DF. Os 135 restantes estão distribuídos pelos estados de Goiás (71), Mato Grosso (26) e Mato Grosso do Sul (38).

No mesmo jornal O Estado de S. Paulo

USP tem o maior número de pós bem avaliada – 33 cursos de mestrado e doutorado da instituição atingiram a nota máxima em avaliação trienal da Capes

A Universidade de São Paulo (USP) é a instituição de ensino superior com o maior número de programas de pós-graduação mais bem avaliados pelo Ministério a Educação (MEC). São 33 cursos nos câmpus da capital e de Piracicaba, Ribeirão Preto e São Carlos com nota 7, numa escala de 1 a 7, o que confere a esses programas o padrão internacional de qualidade. Atrás da USP estão a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ambas com 14 programas de mestrado e doutorado que atingiram a nota máxima. Os dados constam de avaliação trienal divulgada na terça-feira, 14, pela Coordenação e Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

A Região Sudeste concentra 83% dos cursos de pós-graduação com desempenho semelhante aos melhores centros de ensino e pesquisa do mundo – notas 6 ou 7. Por outro lado, 34,7% dos programas apresentam desempenho ruim ou regular. Dos 2.718 cursos analisados, 75 receberam nota 1 e 2, insuficiente para manter o credenciamento do programa. Outros 870 alcançaram nota 3, considerada regular.

A avaliação do presidente da Capes, Professor Jorge Guimarães, de que “a disparidade é histórica e está ligada à organização econômica e científica do país” é em parte verdadeira. Isso porque vários cursos de pós-graduação do sudeste foram criados nos anos 1970, e estes se encontram plenamente consolidados. Outro fator importante é que as universidades estaduais paulistas tornaram-se autônomas em 1989, e com isso puderam estabelecer suas próprias diretrizes de atuação, de maneira a valorizar o ensino e a pesquisa de maneira consistente. Um terceiro fator importante é a atuação da agência de fomento FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que, além de dar um suporte financeiro significativo para o desenvolvimento de projetos de pesquisa de diferentes tipos, também financia bolsas de estudo e de apoio técnico, e tem rigorosos critérios de avaliação. A aplicação destes critérios de avaliação, tendo por base o mérito e a excelência dos projetos, e principalmente dos relatórios dos projetos, faz com que os pesquisadores do estado de São Paulo tenham que trabalhar com extremo rigor científico para que sejam bem avaliados por seus pares. Desta forma, a avaliação contínua, realizada pela FAPESP e pelas próprias universidades, faz com que ocorra um aprimoramento constante do ensino e da pesquisa das instituições de nível superior estaduais públicas de São Paulo.

Finalmente, uma notícia curiosa, também publicada no mesmo jornal

Newsweek destaca crescimento das universidades corporativas no mundo – Revista destaca formação acadêmica dada a engenheiros da Petrobrás

A última edição da revista Newsweek publicou matéria de capa apontando o crescimento mundial das universidades corporativas. Um dos destaques foi justamente a formação acadêmica dada pela Petrobras e pela Vale a seus profissionais. O texto cita que “engenheiros na Universidade da Petrobras, no Rio, devem dominar os segredos de bombeamento de petróleo enterrado 7.000 metros abaixo do Atlântico”, fazendo alusão ao pré-sal. Embora lembre que o conceito de universidade acadêmica não seja exatamente novo, já que o Mc. Donald´s na década de 60 fundou sua Universidade do Hamburger, em Illinois, a matéria cita números expressivos.

Hoje, mais de 4 milhões de pessoas estão estudando em uma universidade da empresa em todo o mundo e, segundo estimativas, as matrículas podem superar as de universidades tradicionais no futuro próximo. De acordo com as fontes consultadas pela reportagem da publicação, as empresas têm levado cada vez mais a sério a ideia de que a aprendizagem e o desenvolvimento são ferramentas competitivas. As aulas podem ser dadas em modalidades diferentes de ensino. Desde o aprendizado tradicional, presencial, até o totalmente virtual, como na Dell.

É na Ásia, Europa Central, América Latina e África, segundo a matéria, que o fenômeno do crescimento do aprendizado corporativo é mais “marcante”.

Os câmpus muitas vezes podem ser mais bem equipados que universidades tradicionais. O gigante chinês de peças de computador Huawei teria contratado o arquiteto mundialmente conhecido Norman Foster para desenhar o seu complexo universitário de quatro edifícios em Pequim. O mais impressionante é o câmpus corporativo da Infosys em Nova Deli. Com dois helipontos, um estádio de críquete profissional, uma piscina repleta de palmeiras, quartos individuais, o câmpus tem uma opulência rara. O currículo também é destacado no texto: os jovens engenheiros, cerca de 14 mil, passam por um programa equivalente a um grau de ciência da computação avançada.

A Vale também é citada ao final da matéria, que diz: “No Brasil, o vazio de competências é ainda mais dramático”. Aulas de português são fornecidas na empresa a profissionais que não têm essas competências.

Parte do mundo acadêmico, conclui o texto, torce o nariz para esse tipo de iniciativa, rejeitando o conceito de “universidade corporativa”. Para os acadêmicos, as empresas estariam escravizando as universidades, para que essas apenas trabalhassem em prol de seu lucro.

Na Austrália, o protesto teria sido tão grande, que por lá o termo “universidade corporativa” teve de ser mudado para “centros de liderança”.

“Universidades corporativas”? Esta é uma designação realmente estranha. Segundo a Wikipédia em português, a designação “universidade” implica que esta seja “uma instituição pluridisciplinar de formação dos quadros de profissionais”. A definição em inglês da Wikipédia dá muita ênfase no conceito de liberdade acadêmica. Estes dois preceitos certamente estão distantes das “universidades corporativas”, aonde, pressupostamente, os alunos devem adquirir uma formação de acordo com a filosofia da corporação à qual estão vinculados. Ou seja, uma educação altamente enviesada. Portanto, não cabe a designação “universidade” para instituições corporativas.



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3 respostas

  1. Roberto
    comprei a Newsweek dessa semana por causa desse post!
    Vamos estudar na Uni-Petrobrax ?

  2. Roberto,

    talvez a designação “universidade corporativa” não seja mesmo a mais adequada, mas o crescimento dessas instituições a ponto de projetarem que suas matrículas podem superar as de universidades tradicionais no futuro próximo faz pensar.

    Embora parte do mundo acadêmico torça o nariz para esse tipo de iniciativa, é de se perguntar o por quê de tanto crescimento das chamadas “universidades corporativas”. As universidades tradicionais não estão dando conta da demanda por profissionais qualificados? Ou a formação tradicional acadêmica, voltada para as pesquisas, não forma o profissional que o mercado necessita? Sempre ouvi a velha ladainha de que a universidade não deve se dobrar aos interesses do mercado… e então, quando esse tipo de iniciativa surge, com certeza por necessidade das instituições, há esse menosprezo da academia. Não é a conhecida torre de marfim?

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