Ignorância nos EUA

Editorial do último sábado, dia de 18 de setembro, do jornal Folha de S. Paulo, diz que

Longe da excelência

Não causa surpresa o ranking das 200 melhores universidades do mundo, elaborado pela prestigiosa Times Higher Education.

As universidades americanas têm a reputação de excelência confirmada com a presença de nada menos que 72 instituições entre as 200 mais bem colocadas no mundo, incluindo 15 entre as 20 primeiras. O país que mais se aproxima dos EUA, o Reino Unido, tem 29 universidades na lista.

O ranking é baseado em consultas com a comunidade acadêmica internacional e leva em conta 13 indicadores de performance, sobretudo o ensino, a pesquisa e a transferência de conhecimento.

A explicação para o domínio americano é simples. O país investe 3,1% do seu PIB em educação superior, contra uma média de 1,5% dos demais países da OCDE (sigla que reúne os países mais desenvolvidos do mundo). Essa discrepância se torna ainda maior se considerado que o PIB americano, de US$ 14 trilhões, é pelo menos duas vezes superior ao de qualquer outro país.

O fato de a líder do ranking ser a Universidade Harvard, fundada em 1636, mostra que não é da noite para o dia que se constrói um ensino de qualidade.

Nesse sentido, o Brasil, onde o investimento federal no ensino superior não chega a 1% do PIB, não tem o que comemorar no ranking. Diferentemente de outros países emergentes, como China, África do Sul e Turquia, o país não teve nenhuma universidade incluída entre as 200 melhores.

A USP, que tem o mérito de ser a mais bem colocada entre as instituições latino-americanas, aparece na 232ª posição, 16 postos à frente da Unicamp, única outra escola brasileira na lista.

Se não sofre mazelas tão graves quanto as do ensino básico, a educação superior brasileira, tanto dentro das salas de aula quanto nos laboratórios de pesquisa, ainda está longe do nível de excelência necessário para alavancar o crescimento do país. Investimento público mais robusto e mais bem direcionado é um passo indispensável para sanar essa deficiência.

E no entanto hoje a mesma Folha de S. Paulo noticia que

Universitários acreditam que ET fez pirâmides; analfabetismo científico nos EUA preocupa

Após ouvir cerca de 10 mil alunos de graduação nos EUA, pesquisadores descobriram que só 35% discordavam da ideia de que ETs teriam visitado civilizações antigas da Terra e ajudado a construir monumentos como as pirâmides do Egito.

Poucos se manifestaram contra outras teses sem base, como o suposto status de ciência da astrologia (não confundir com a astronomia) e a ideia de que existem números da sorte – 22% e 40%, respectivamente. Além disso, mais de 40% disseram que antibióticos matam tanto vírus quanto bactérias –na verdade, só as bactérias são vulneráveis a esse tipo de medicamento.

Para o autor do estudo americano, o astrônomo Chris Impey, os números refletem um problema do país: os alunos de ensino médio não precisam fazer cursos de ciência. A maioria estuda biologia, mas menos de metade tem aulas de química e só um quarto estuda física. “O ensino médio americano é forte em história, conhecimentos gerais, esportes, computação, mas bastante fraco mesmo em ciências”, diz Renato Sabbatini, biomédico e educador da Unicamp. “Mas as perguntas que fizeram são hiperelementares, um adolescente minimamente informado que assista televisão saberia responder.” Preocupante, diz Impey, é que o pior desempenho foi justamente o dos alunos de cursos na área da educação.

Não há números parecidos que indiquem qual a realidade brasileira. Embora aulas de ciência sejam obrigatórias no ensino médio por aqui, a baixa qualidade do ensino não garante muita coisa. Conspirando contra a compreensão científica no país, diz Sabbatini, há o fato de que cerca de 70% dos brasileiros só conseguem ler textos curtos e tirar informações esparsas deles. “Têm letramento insuficiente. É impossível serem bem informados sobre a ciência moderna.” Tal analfabetismo, diz Impey, não deixa de ser um problema político: “Esses conhecimentos são importantes para avaliar posições políticas sobre mudança climática ou células-tronco.”

Fica claro que não basta investir montantes significativos em educação se o investimento não é eficaz. Principalmente depois de 8 anos do governo de George W. Bush, que promoveu uma verdadeira caça às bruxas com relação a ciência, proibindo pesquisas com células-tronco (ainda em debates no congresso dos EUA), e exaltou o ensino do criacionismo nas escolas. Os danos provocados à educação pela administração Bush se farão sentir por muitos anos, como é possível se verificar pela reportagem publicada pelo jornal Folha de S. Paulo. Muitas variações de pseudo-ciência são principalmente conhecidas nos EUA, principalmente aquelas que pregam contra a teoria da evolução. Atualmente mais de 50% dos americanos são absolutamente ignorantes a respeito da teoria da evolução (veja aqui). Educadores dos EUA são sabedores do problema, e trabalham no sentido de reverter este quadro, que levará algum tempo para mudar. Isso porque não basta investir em educação, e sim em educação de qualidade. Como disse Abraham Lincoln, “se acham que educação custa caro, experimentem a ignorância”.



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8 respostas

  1. Teriam sofrido influência de livros como o de Erich Von Daniken?

  2. Você tem razão! Aqui em nosso país não foge muito disso. Uma novela nova, uma moda nova, um jeito diferente da maioria das mulheres se vestirem, portarem e falarem. Um jogador de futebol erra o corte de cabelo, entra em campo num clássico e pronto, na próxima segunda a escola está cheio de crianças com cabelo cortado igual. Hoje entendo porque o pintor do famoso quadro “Independência do Brasil” retratou-o de forma tão bela, era uma fuga da realidade. Não que isso tenha mudado a história…

  3. Faltou um dado na pesquisa, sobre a reação popular à teoria de Darwin, muito ligada à religião (vejam a resposta sobre a cura pela fé). Gostaria de ter acesso ao estudo completo. Seria interessante ver o percentual, mostrado apenas para pedagogia e engenharia, dos outros grupos, como cientistas políticos, economistas, sociólogos, etc. Não me espanta o desempenho dos alunos da área da ‘educação’. afinal, o que eles entendem de ciência?
    Mas, se com todo esse analfabetismo, os Estados Unidos têm mais de um terço das melhores universidades do mundo, pode se imaginar qual seria o resultado se toda essa ignorância fosse reduzida à metade.

    • Oi Lucio,

      Acho que teu comentário poderia suscitar algumas reflexões. Será que estudantes de educação não entendem o que é ciência? Se não entendem, deveriam entender, pois serão estes que serão os futuros profissionais que estarão lidando mais diretamente com o problema, não somente em salas de aula, mas também nos conselhos pedagógicos, estabelecendo diretrizes, propondo políticas educacionais, etc.

      Quanto ao seu segundo parágrafo, penso que o fato dos estudantes universitários norte americanos eventualmente serem melhor esclarecidos sobre pseudociência não implicaria, necessariamente, em ter um maior número de boas universidades, ou de profissionais melhor qualificados. Acho que o buraco é mais embaixo. Seria de ter uma visão mais realista do mundo em que vivem. Afinal, acreditar que foram ETs que construíram as pirâmides…

  4. Roberto,

    Não, eles não entendem. Não me refiro ao conhecimento do mecanismo de uma reação química ou do cálculo diferencial. Estou me referindo ao significado da ciência. Há alguns anos (1978), Hans Mohr escreveu um artigo intitulado The Responsibility of the Scientists. Angewandte Chimie International Edition in English 17: 670-672. Ele dizia que as pessoas acreditavam que nada era impossível para a ciência. Em a Lógica da Vida, Monod criticou a visão que se tem dos cientistas, e argumentou que as grandes catástrofes da história foram provocadas muito mais por padres e políticos do que por cientistas. Quem tem (ou deveria ter) que estabelecer políticas educacionais para a ciência são os cientistas.

    Quanto ao meu segundo parágrafo, eu não disse que os estudantes norteamericanos (com o ‘desacordo’ ortográfico virou uma única palavra) são mais esclarecidos sobre pseudociência. Eu disse que apesar disso eles têm um terço das melhores universidades do mundo (72 entre 200). Como eu não tive acesso ao estudo completo, não posso afirmar se são os físicos, astrônomos e engenheiros que acreditam que os ETs construíram as pirâmides ou se são os pedagogos ou sociólogos, mas suponho que a percentagem no segundo grupo seja maior.

    Quando você se refere a ‘profissionais melhor qualificados’, depende do tipo de profissional que você tem em mente. E o que você quer dizer com ‘visão mais realista do mundo’? Qual a evidência para a idéia de que os ETs construíram as pirâmides? Nenhuma. Entretanto, nesse rol de não-evidências, você pode acrescentar milagres, homeopatia, astrologia, psicologia de vidas passadas, etc. Será que você precisa de uma pesquisa para saber que profissionais altamente qualificados acreditam nessas coisas?
    Um abraço

  5. Avatar de raeledama@hjotmail.com

    Conhecer ciências não é só conhecer exatas, mas também, entender a razão do senso crítico humano, pois, sem este não é possível suscitar dissidentes ante a alienação das ciências exatas que, de fato, quando demasiada , cercea a intelectualidade argumentativa do ser.

    • Caro,

      Discordo fundamentalmente de seu argumento. Ao afirmar que “alienação das ciências exatas que, de fato, quando demasiada , cercea a intelectualidade argumentativa do ser.”, você diz que a “intelectualidade argumentativa” depende do ramo da ciência em que se atua. Qual a base que você utiliza para dar suporte a seus argumentos? A “intelectualidade argumentativa” não depende do ramo das ciências em que se atua, e sim em como se elabora o conhecimento a partir daquele que é adquirido. Isso independe se a formação é de ciências exatas, biológicas ou humanas. Alguns dos maiores filósofos da história eram, por exemplo matemáticos (principalmente na Grécia antiga), físicos (Galileu Galilei, Newton, Thomas Kuhn), biólogos (Aristóteles), químicos (Ilya Prigogine).

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