Ciência sob ataque nos EUA

Segundo editorial da revista Nature do dia 9/9, cresce a propaganda contra a ciência nos EUA, feita por partidários da direita norte-americana, que tratam de defenestrar o governo, a academia, a ciência e a mídia. Segundo Rush Limbaugh, locutor de radio, “estas instituições são atualmente corruptas e existem como fruto de enganos. É assim que estas instituições se promovem; é assim como prosperam”. E a retórica extremamente conservadora de Limbaugh faz eco, e ganha apoio nos EUA.

Em tempos de crise, nada melhor do que atacar as instituições que dão sustentabilidade ao regime democrático. É a estratégia dos ultra-conservadores dos EUA. O sentimento contra a ciência nos EUA é crescente, e pode ter conseqüências tanto sociais como políticas, inclusive no estabelecimento de diretrizes para os órgãos responsáveis por monitorar o meio ambiente e na pesquisa de células-tronco, por exemplo. Políticos conservadores questionam fortemente o aquecimento global e suas conseqüências. Sarah Palin considera a pesquisa com drosófilas um verdadeiro desperdício de dinheiro público.

Segundo Limbaugh, o meio científico se tornou o local de socialistas e comunistas deslocados. A voz conservadora eleva o tom quando defende princípios religiosos contra a teoria da evolução de Darwin e a pesquisa com embriões. Os conservadores também são contra princípios reguladores baseados em constatações científicas, defendendo uma intervenção governamental sem critérios. O meio científico sofreu sérias pressões durante o governo de George W. Bush, as quais Barack Obama pretende eliminar.

O problema é que a sociedade norte-americana está passando por um momento difícil. Por um lado, a crise econômica, herança do governo Bush. Por outro lado, a competição com países como a China, que investe atualmente muitos milhões de dólares em pesquisa científica, de maneira a recuperar o tempo perdido e ganhar prestígio, além de apresentar crescimento econômico. Fatos recentes, como o vazamento de petróleo no Golfo do México, assinalaram a importância da ciência na resolução e prevenção de problemas de natureza extremamente grave. Porém, as forças conservadoras se aproveitam do momento para fazer valer seus ideais, e incutir na sociedade americana um pensamento retrógrado e restritivo, financiado por interesses econômicos.

As pesquisas de opinião atuais ainda mostram que a ciência detém credibilidade pela maioria da população. Espera-se que as manifestações anti-ciência sejam apenas momentâneas, e que educadores e cientistas redobrem seus esforços para promover o racionalismo, a erudição e o pensamento crítico entre os jovens, e o engajamento da mídia e dos políticos para mostrar as reais questões que envolvem o atual questionamento dos princípios científicos nos EUA.

É incrível que em 2010 ainda existam ideais políticos que promovam a completa deturpação dos fatos. Seria realmente importante os americanos perceberem que a resolução de problemas ambientais, econômicos e sociais têm muito mais a ganhar se deixar de lado os princípios da moral retrógrada intolerante, que objetiva falsificar as evidências, controlar as opiniões e o pensamento crítico. É interessante observar que os conservadores norte-americanos, ao questionar princípios da democracia, têm pouco a oferecer, pois apenas questionam, mas não oferecem nada de melhor em troca.

O último número da revista Pesquisa FAPESP traz uma interessante história de fatos relacionados ao editorial da Nature, sobre um livro que narra a tentativa de três físicos norte-americanos de negar o aquecimento global. O início da reportagem da revista Pesquisa FAPESP é transcrito a seguir.

Negar para não mudar

“Nos tribunais, quando as evidências são enormes contra o réu e a condenação parece questão de tempo, os advogados de defesa sempre podem recorrer a uma derradeira tática: fomentar uma dúvida qualquer, às vezes sobre um aspecto secundário do delito, para turvar o raciocínio dos membros do júri e, assim, evitar ou ao menos postergar o quanto for possível a sentença. A partir do final dos anos 1980, uma versão desse clássico estratagema judicial – que, dentro e fora das cortes, fora usado eficazmente pela indústria do cigarro durante décadas para negar e minimizar os conhecidos malefícios do tabagismo – passou a ser empregada nos Estados Unidos para questionar a existência do aquecimento global e a contribuição das atividades humanas, em especial a queima de combustíveis fósseis emissores de gases de efeito estufa, no desencadeamento das mudanças climáticas.

Sempre que era divulgado um novo estudo de peso sobre a natureza do aquecimento global, três veteranos pesquisadores de enorme prestígio, abrigados numa entidade privada em Washington, o George C. Marshall Institute, saíam a campo para questionar os novos dados. “Primeiro, eles disseram que as mudanças climáticas não existiam, depois afirmaram que as variações de temperatura eram um fenômeno natural (tentaram atribuir a culpa a alterações na atividade solar) e então passaram a argumentar que, havendo as mudanças e mesmo sendo culpa nossa, isso não importava porque nós sempre poderíamos nos adaptar a elas”, afirmou a historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD), numa palestra realizada para jornalistas latino-americanos durante o 7o Taller Jack F. Ealy de Periodismo Científico, que ocorreu em julho nessa universidade. “Em todos os casos, eles negavam que havia um consenso científico sobre a questão, apesar de serem essencialmente eles mesmos os únicos que estavam contra.”

Ao lado do também historiador da ciência Erik Conway, que trabalha no Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), Naomi lançou em maio nos Estados Unidos o livro Merchants of doubt – How a handful of scientists obscured the thuth on issues from tobacco smoke to global warming (“Mercadores da dúvida – Como uns poucos cientistas ocultaram a verdade em temas que vão do cigarro ao aquecimento global”, numa tradução livre para o português). Na obra, muito bem documentada e que recebeu elogios na imprensa leiga e nas revistas científicas, Naomi e Conway, um especialista na história da exploração do espaço, mostram que já existe, e não é de hoje, um consenso científico sobre o aquecimento global, detalham a trajetória dos líderes do instituto e suas táticas de negação das mudanças climáticas.”

(…)

Leia a reportagem completa publicada na revista Pesquisa FAPESP, aqui.



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4 respostas

  1. Roberto,

    Há uma determinada base no negacionismo ao aquecimento global ANTROPOGÊNICO. Só para te dar um indício vou te indicar um artigo publicado em 2008 mas que só hoje tem evidência, “Holocene fluctuations in Arctic sea-ice cover: dinocyst-based reconstructions for the eastern Chukchi Sea“, este artigo mostra que o Ártico nos últimos 10000 anos teve períodos de gelo muito menores do que o atual. Vou transcrever a conclusão do abstract do mesmo:

    More importantly, there have been times when sea-ice cover was less extensive than at the end of the 20th century.

    Esta e muitas outras publicações científicas põe em dúvida o ANTROPOGÊNICO da variação climática.

    Para dar mais uma idéia da negação da teoria, na última pesquisa que fizeram com cientistas, mais de 90% eram favoráveis a teoria antropogênica, entretanto quando eram consultados climatologistas e geólogos este número caía para 50%.
    Com isto, como foram os políticos de direita os primeiros que não aceitaram o AGW, houve uma espécie de ligação entre anti AGW e direita (que para mim é extremamente inconveniente). O discurso contra o evolucionismo, isto sim parece que é típico de políticos completamente sem noção.

    Outro problema, o Al Gore, lançando o seu documentário “Uma verdade inconveniente” tornou-se na realidade um inconveniente para a ciência, pois a discussão ficou ainda mais partidarizada.

    • Oi Rogério,

      Existe base científica no questionamento do aquecimento global. Porém, o negacionismo está fortemente vinculado ao conservadorismo nos EUA. E uma das maneiras como os conservadores fazem isso é, inclusive, convocando cientistas para sustentar suas posições. Embora o livro objeto da reportagem da revista Pesquisa FAPESP tenha evitado ao máximo fazer uma ligação entre o conservadorismo e o negacionismo dos três físicos, a ligação é evidente, como, inclusive, mostram outras fontes de informações (veja aqui).

      Você já apresentou argumentos contra as evidências do AGW (Anthropogenic Global Warming) neste mesmo blog, e aproveito para remeter o leitor para as informações que você apresentou anteriormente, aqui.

      Obrigado pelo comentário.

  2. Para aqueles que quiserem ter uma visão detalhada sobre o questionamento do aquecimento global, sugiro o livro ‘Muita Calma Nessa Hora’, de Bjorn Lomborg, editado pela Campus/Elsevier. Livro, mais detalhado, do mesmo autor, é O Ambientalista Cético’.

    • Hummm, Bjorn Lomborg?

      Isso me lembra algo que eu li sobre este sujeito: “A virada de Lomborg”, na coluna/blog de Marcelo Leite, “Ciência em Dia”, na Folha de São Paulo. Veja o texto, aqui.

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