Ideias repelentes

Mosquitos são um saco! Eu não conheço quem goste de dormir escutando o zumbido de mosquitos em volta. Além do incômodo zumbido, picadas de pernilongos e do “mosquito pólvora” (famoso no litoral norte do estado de São Paulo) podem causar fortes reações alérgicas. Isso para não falar nos mosquitos transmissores de parasitas e vírus, como o mosquito da dengue e da febre amarela (do gênero Aedes), da malária (Anopheles), o mosquito barbeiro (Triatoma infestans, que transmite doença de Chagas), que são os mais conhecidos.

O tratamento de doenças transmitidas por mosquitos não é fácil, muito pelo contrário. Dentre as mencionadas acima, só existe vacina para a febre amarela. Todas as outras devem ser tratadas com medicamentos muitas vezes caros, inacessíveis ou que apresentam fortes efeitos colaterais. Por isso, existe atualmente um grande interesse no desenvolvimento de novas formas para a prevenção e/ou o tratamento destas doenças. Uma maneira é de se combater os mosquitos transmissores. Todavia, não é uma estratégia simples, pois insetos adquirem resistência aos inseticidas. O uso continuado de inseticidas pode não somente causar resistência nos insetos transmissores destas doenças, mas também em outros insetos que transmitem outras doenças, para animais domésticos.

O grupo coordenado pelo Dr. Mike Mirkett (Rothamsted Research, Reino Unido) está atualmente pesquisando a função e a identidade de sinalizadores químicos, também chamados de semioquímicos, que medeiam o comportamento de determinadas espécies de mosquitos. Os pesquisadores observaram que mosquitos preferem picar pessoas que emitem determinadas substâncias de sua pele, e evitam picar outras pessoas que emitem substâncias repelentes. São substâncias relativamente simples, pequenas e voláteis, que se espalham pelo ar. Foi utilizada uma estratégia simples, mas muito inteligente. Em primeiro lugar, testaram a “atração” de mosquitos em diferentes voluntários. Aqueles que não atraíram mosquitos tiveram suas mãos submetidas a uma “lavagem” com um fluxo de ar purificado, e este fluxo de ar foi filtrado em um recipiente especial para reter substâncias químicas. As substâncias retidas foram analisadas por uma técnica que consiste em utilizar as antenas dos mosquitos conectadas a eletrodos, os quais por sua vez se conectam a um sistema de separação por cromatografia gasosa. A análise da mistura de substâncias presentes na pele dos voluntários que não atraíram os mosquitos indicou que duas substâncias, o 6-metil-5-hepteno1 e a geranilacetona, induziram as respostas de rejeição mais fortemente detectada pelas antenas. As duas substâncias foram sintetizadas e aplicadas sobre a pele de voluntários suscetíveis às picadas, mas que após a aplicação destas substâncias que não foram mais picados. Very smart.

Já o grupo coordenado pelo Prof. John Carlson, da Yale University (EUA), partiu do seguinte princípio: as moléculas voláteis são percebidas pelos mosquitos em receptores protéicos. Quando estes receptores de moléculas odoríferas e voláteis são “preenchidos” por estas moléculas, as proteínas dos receptores mudam levemente sua estrutura tridimensional, e promovem um estímulo que é transformado em estímulo nervoso no inseto. Os pesquisadores buscaram entender como funcionam estes receptores, e quais genes codificam a síntese das proteínas destes receptores. Após esta etapa, conseguiram bloquear um dos genes que codifica a síntese de uma das proteínas receptoras de substâncias odoríferas da mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster). Após bloquear este gene, substituíram este gene da Drosophila pelo gene responsável pela síntese de receptores de substâncias odoríferas de mosquitos. Desta maneira, conseguiram uma espécie de Drosophila capaz de detectar substâncias que, na verdade, são detectadas por mosquitos. Utilizaram então esta Drosophila modificada para testar várias substâncias, e descobrir quais são aquelas que se ligam mais fortemente aos receptores proteínicos de substâncias odoríferas, agora presentes na mosca. Uma das substâncias descobertas é o 4-metilfenol, também encontrado no suor humano, e que tem cheiro de meias suadas depois de uma sessão de aeróbica (ou, como se diz na Bélgica, cheiro de meias de carteiro no fim do dia!). Ao descobrir esta e outras substâncias, o objetivo posterior dos pesquisadores é desenvolver análogos químicos que possam atuar como inibidores destes receptores, ou ainda como fortes estimulantes destes receptores, de maneira a comprometer o comportamento dos insetos. Tudo bem, desde que o ambiente não fique empesteado.

Outra pesquisa, agora desenvolvida no Centro Internacional de Fisiologia e Ecologia de Insetos do Quênia, busca descobrir novos repelentes para a mosca tsé-tsé, que causa a doença do sono. A estratégia dos pesquisadores coordenados pelo Dr. Baldwyn Torto foi descobrir animais que não atraem estas moscas. Descobriram que o antílope africano é um destes animais. Após lavarem antílopes africanos, recolheram a água da lavagem e obtiveram substâncias que foram testadas como repelentes da mosca tsé-tsé. As substâncias que foram repelentes foram posteriormente sintetizadas, preparadas em uma formulação especial e colocadas em um colar que foi, por sua vez, utilizado no pescoço de gado. Nenhuma das vacas ou bois com colar foi picado pela mosca. Além disso, o trabalho desenvolvido em colaboração com pesquisadores da Liverpool School of Tropical Medicine (Reino Unido) possibilitou a descoberta que a mosca tsé-tsé se alimenta principalmente do sangue de um lagarto. Este animal possui substâncias que funcionam como atratores da mosca tsé-tsé, que poderão também servir de modelo para o desenvolvimento de repelentes.

Um dos melhores repelentes utilizados atualmente é a DEET (a N,N-dietil-meta-toluamida). Apesar de ser um ótimo repelente, a DEET tem um cheiro muito ruim, e parece poder causar problemas para a saúde humana e também contaminação ambiental.  Assim, o grupo do brasileiro Walter Leal, na University of California (Davis), observou que a DEET se “liga” a um receptor dos insetos que causa uma verdadeira resposta de “aversão”. Os mosquitos detectam DEET e evitam ao máximo esta substância, não pelo fato da substância mascarar o cheiro dos humanos ou comprometer o “olfato” dos insetos, e sim porque os insetos não gostam do “cheiro” da DEET. Desta forma, os pesquisadores estão estudando as características da DEET que promovem tais efeitos para desenvolver substâncias que promovam efeitos similares.

Abordagem similar está sendo desenvolvida pelo grupo do Dr. Ulrich Bernier, do Agricultural Research Service na Flórida (EUA). Estes pesquisadores têm acesso ao banco de dados do Departamento de Agricultura dos EUA, que têm os dados de mais de 40.000 substâncias que tiveram sua ação repelente avaliada. Desta forma, desenvolveram um sistema que faz uso de uma rede neural artificial para identificar padrões comuns nas substâncias repelentes, padrões estes que possam servir de ponto de partida para o desenvolvimento de novos repelentes. Já conseguiram identificar a (E)-N-ciclohexil-N-etil-2-hexenamida como sendo uma substância repelente de maior persistência que a DEET. A característica de persistência não é fácil de ser encontrada, e a abordagem matemática desenvolvida por estes pesquisadores pode ser muito promissora para se encontrar novas substâncias repelentes.

Vade retro, mosquitada!

Fonte da notícia: revista Chemistry World, edição de setembro de 2010.

Nota

1. Incrivelmente, a nomenclatura desta substância indicada no artigo da revista Chemistry World, publicada pela Royal Society of Chemistry, está errada: é 2-metil-2-hepteno e não 6-metil-5-hepteno.



Categorias:química

Tags:, ,

Deixe um comentário