O2

Caro leitor: imagine um planeta sem oxigênio (O2). Se houvesse vida, neste planeta existiriam somente determinados microrganismos e, caso fosse possível, outras formas de vida totalmente diferentes daquelas que conhecemos. Isso porque a presença de oxigênio na atmosfera terrestre foi determinante para o surgimento e o aumento da diversidade biológica de nosso planeta.

Estima-se a idade da Terra como sendo de 4,5 a 6 bilhões de anos, e que a vida tenha surgido há cerca de 2,3 bilhões de anos, na forma de microrganismos de diferentes tipos. Como ainda não havia organismos fotossintetizantes, a quantidade de oxigênio presente na atmosfera ainda era muito pequena. Com o surgimento dos primeiros organismos fotossintetizantes, as cianobactérias, a composição da atmosfera terrestre e a concentração de oxigênio dissolvido nos oceanos começou a mudar. Com isso, ocorreu o surgimento dos animais entre 500 milhões e 1,0 bilhão de anos atrás, uma vez que os animais são todos aeróbios (dependem de oxigênio; mas existe uma exceção: veja aqui).

Recentemente pesquisadores de diferentes universidades dos EUA, Dinamarca, Suécia e Reino Unido desenvolveram e utilizaram um novo método para estimar a concentração de oxigênio atmosférico, utilizando a variação na composição de molibdênio radioativo em rochas. Os isótopos radioativos do molibdênio se decompõem, e esta decomposição depende do oxigênio presente. Medindo a proporção relativa destes isótopos nas rochas é possível se estimar a proporção de oxigênio presente na atmosfera em determinada época das eras geológicas da Terra.

Os resultados obtidos pelos pesquisadores indicaram que ocorreram pelo menos duas épocas de “oxigenação” da atmosfera durante o Fanerozóico, uma delas há cerca de 400 milhões de anos. Nesta última também foi a época aproximada do surgimento de grandes peixes predadores. Aparentemente, esta “coincidência” seria natural, uma vez que o surgimento de peixes grandes (de cerca de 1 m de comprimento) só teria sido possível com o aumento da concentração do oxigênio na atmosfera. Nesta mesma época ocorreu também um incremento significativo na ocorrência de plantas vasculares em solo firme. Como a sustentação de boa parte destas plantas é decorrente da presença de lignina, uma substância altamente oxigenada, o aumento das plantas também deve ter sido uma decorrência do aumento da concentração de oxigênio na atmosfera. E mais: como a lignina e a celulose das plantas são de difícil decomposição, o carbono que toma parte nestas substâncias não é facilmente “devolvido” para a atmosfera, e não pode reagir com o oxigênio. Como o oxigênio passou a ser menos “consumido”, tornou-se ainda mais abundante na atmosfera em decorrência da fotossíntese das plantas vasculares. Assim, torna-se evidente que o incremento da concentração de O2 na atmosfera foi crucial para a evolução biológica, uma vez que permitiu o surgimento de animais cada vez mais abundantes, e de animais cada vez maiores.

Fonte da notícia: ScienceDaily.



Categorias:evolução, química

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2 respostas

  1. Caro Roberto

    Só uma pequena digressão sem muito compromisso, mas para levar a alguma reflexão.

    Se houvessem surgido animais anaeróbios com inteligência, imaginem a luta que os mesmos estariam fazendo para combater o O2 na atmosfera.

    Será que não haveria até um mercado de créditos de O2 para eliminar este veneno?

    • Caro Rogério,

      Esta é uma pergunta filosófica que pode ter muitas respostas igualmente filosóficas. Por exemplo, e se “os anaeróbicos” fossem muito mais “calmos” do que “os aeróbicos”, e aceitassem seu destino de maneira mais passiva? Uma outra questão seria a produção de matéria orgânica para o sustento dos anaeróbicos. Como resolver este problema de maneira eficiente?

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