Christian de Duve

O Prêmio Nobel de Fisiologia/Medicina em 1974, Christian de Duve, concedeu entrevista à revista Nature, publicada na última edição (14/10/2010). Leia a entrevista traduzida, na íntegra, a seguir.

Quão importante é uma abordagem interdisciplinar para resolver questões científicas prementes, e como se pode estimular colaborações interdisciplinares?

Na pesquisa biomédica, as colaborações interdisciplinares se tornaram imprescindíveis. A melhor – eu diria a única – maneira de estimular tais colaborações é agrupando cientistas experientes de todas as disciplinas relevantes de uma mesma região geográfica, como foi feito quando foi criado em Bruxelas (Bélgica) o Instituto Internacional de Patologia Celular e Molecular (ICP), o atualmente chamado “Instituto de Duve”, em 1974.

Como a sociedade pode ser convencida da importância da pesquisa básica, sem vistas à aplicação?

Simplesmente utilizando-se a lógica: a aplicação pressupõe a descoberta, a descoberta necessita pesquisa, e a pesquisa implica em se explorar o desconhecido, com, por definição, a incapacidade de se predizer quão útil ou proveitoso será o que for descoberto.

Independentemente de considerações sócio-econômicas, a pesquisa básica (fundamental) merece ser apoiada pelo seu valor cultural intrínseco. A pesquisa pela verdade é, junto com a busca da beleza, da bondade, do significado e do amor, um dos maiores pilares da civilização humana.

Adicionalmente, antes de se tentar convencer a sociedade de tais verdades básicas, deveria-se, talvez, primeiramente se tratar com administradores, que frequentemente tendem a ignorar estas mesmas verdades.

Muitas pessoas consideram que o sistema de avaliação por pares tenha chegado a seu termo. Você concorda com tal ponto de vista, e você tem uma solução [para resolver este problema]?

Acredito que a avaliação por pares é um componente essencial da atividade científica, e que a vitalidade desta atividade depende de integridade ética. No que se refere a este último atributo, o sistema parece estar sendo ameaçado, porque eu percebo – talvez erroneamente – um aumento da má conduta científica, e porque parece haver um aumento do envolvimento dos investigadores acadêmicos em pesquisa para o proveito próprio.

Qual conselho você daria para pesquisadores jovens que estão iniciando sua carreira de pesquisa, para se tornarem bons cientistas?

Primeiramente, qualquer que seja o tópico de sua pesquisa, busque a excelência, tanto intelectual como técnica. A ciência é um campo de atuação humana que deve ser elitista, sem nenhuma vergonha. Não se pode buscar a verdade com baixa capacidade intelectual ou com técnicas inadequadas.

Ao conduzir sua pesquisa, seja absolutamente rigoroso e intelectualmente honesto na análise dos fatos, considere todas as hipóteses possíveis, planeje sua abordagem para testar tais hipóteses, e submeta suas conclusões ao veredito da observação e da experimentação, sem idéias preconcebidas. Nunca conduza pesquisa com o objetivo de provar uma teoria, mas, ao contrário, para invalidá-la se estiver errada. A melhor prova [de uma teoria] é a impossibilidade de ser refutada.

Nas ciências experimentais, dê atenção especial à qualidade e confiabilidade dos instrumentos e das técnicas que você utiliza – bem como à sua própria capacidade de utilizá-los. A boa pesquisa depende às vezes de boa destreza experimental. Cabe aqui uma dica: separe o planejamento e a execução. Uma vez que tenha planejado um experimento, concentre-se na sua correta realização. Estas duas atividades [planejamento e execução] são por vezes mutuamente excludentes. Naturalmente, deve-se estar atento aos acontecimentos pouco comuns ou inesperados; se fatos incomuns ou inesperados ocorrerem, esteja ciente destes mas não mude o seu rumo. Também, siga sua intuição – sua curiosidade, que é a motivação mais forte de um cientista. Não hesite em ser aventureiro. Seja autoconfiante e não tema ser ambicioso. Nem sempre isso é possível com as pressões impostas sobre a pesquisa [em geral], mas busque sempre o melhor.

Finalmente, tenho duas recomendações adicionais a fazer. A primeira: goste do que faz. A ciência também é divertida. Exercitar seu cérebro e seus dedos ao mesmo tempo dá uma satisfação imensa. Nada se compara à alegria da descoberta.

Minha segunda recomendação é para a geração de jovens pesquisadores, que iniciam suas carreiras. Escolham bons orientadores. Não se aprende boa pesquisa em livros, mas na bancada, como o artesanato medieval, sob a supervisão de um mestre.

Além de como um Prêmio Nobel, como você deseja que o mundo lembre-se de você?

Não tenho tal ambição. Na história da ciência, minhas contribuições são pequenas e teriam sido feitas por outros se eu não tivesse as encontrado primeiro. São descobertas que estão hoje nos livros-texto sem que meu nome seja mencionado. Não sou Galileu, Newton, Darwin, Einstein, Watson ou Crick. Mas me diverti e tive recompensas além do esperado. É isso.

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Tive o prazer de ler o livro “Singularities”, escrito por de Duve. Simplesmente fantástico. Um dos melhores livros sobre a origem da vida que já li.



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1 resposta

  1. Berlinck,
    Ótima ideia publicar a entrevista do Dr Christian de Duve. É um bom exemplo para a nova geração. Concordo plenamente quando ele diz que a pesquisa, a beleza, a bondade, e o significado e do amor, são pilares de sustentação da civilização humana.
    Vanderlan

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