Gaiarsa (1920-2010)

Faleceu neste sábado, 16/10/2010, o médico-psicólogo José Angelo Gaiarsa. Segundo do jornal Folha de S. Paulo

Morreu neste sábado aos 90 anos o médico psiquiatra [Gaiarsa não era psiquiatra] José Angelo Gaiarsa. Segundo sua neta Laura, Gaiarsa morreu em São Paulo por volta das 5h enquanto dormia. A família ainda não sabe a causa da morte. O velório será hoje, a partir das 14h, no cemitério São Paulo. O corpo será enterrado no cemitério da Assunção, em Santo André, onde o psiquiatra nasceu. José Gaiarsa era divorciado e deixa três filhos e oito netos.

Nascido em 19 de agosto de 1920, Gaiarsa sempre será lembrado como um iconoclasta, conforme disse seu filho Flávio à Folha. Zeca, como era conhecido pelos amigos, falava muito contra a estrutura familiar clássica, segundo ele a maior geradora de neuroses nos indivíduos, e apoiava abertamente, em redes de rádio e TV, a liberdade feminina já na década de 1960. Clinicou por mais de 50 anos, publicou 30 livros e por dez anos teve um quadro de televisão em que esclarecia dúvidas dos telespectadores. Vindo de Santo André, de uma família de seis irmãos e irmãs, entrou na Faculdade de Medicina da USP em primeiro lugar, posição que manteve por toda a graduação.

Casou-se com Maria Luiza Martins Gaiarsa, cirurgiã e colega de turma, com quem teve quatro filhos homens: Flávio, Marcos (já morto), Paulo e Dácio. Separou-se em uma época em que o rompimento das relações matrimoniais era controverso. Foi introdutor de Carl Gustav Jung e William Reich no Brasil, psicanalistas ideólogos da revolução sexual.

Seu primeiro livro, “A Juventude Diante do Sexo”, veio a partir de um artigo de capa para a revista “Realidade” sobre o comportamento sexual da juventude que passava por profundas modificações. Seu último livro publicado foi o “Meio século de Psicoterapia”. Atualmente, estava revisando para reedição a obra “Respiração, Angústia e Renascimento”.

Seu último prêmio foi do International Academy of Child Brain Development,do Institute for the Achievement of Human Potential, decorrente de um trabalho recém concluído sobre o desenvolvimento físico, cerebral e emocional das crianças.

Tive o prazer de ler os livros de Gaiarsa “O espelho mágico – um fenômeno social chamado corpo e alma”, “Sexo, Reich e eu” e “Tratado Geral sobre a Fofoca”. Gaiarsa era tudo, menos convencional. Em seu “Tratado” sobre a fofoca, aborda o assunto com muita propriedade e bom humor. No livro de 1978, época em que a internet inexistia, e em que a televisão ainda era vista com ressalvas (mas cada vez menos), Gaiarsa afirma:

“Falar é, de longe, a principal atividade de brinquedo – ou criativa – da infinita maioria das pessoas. Estimo que as pessoas passam conversando 80% do tempo de lazer, 30% do tempo de trabalho e 100% do tempo de refeições, sempre que a pessoa coma com alguém. Somem-se estes números!

(…)

Com os percentuais citados, temos para todos cerca de oito horas e meia de conversa por dia.

Portanto, quanto à fofoca (40% do total da conversa, como vimos): – três horas e meia por dia (toda a humanidade). Lembremos que, hoje, todos são 4.000.000.000. Diariamente são feitas no mundo 1,4 x 1010 horas de fofoca (…).”

Temos que convir: Gaiarsa tinha bom humor, para tratar de um assunto tão inusitado, mas que diz respeito a todos nós, sem exceção.

Vai fazer falta.



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