Pausa para música…

… de 40 anos atrás.

Escutando “Cantiga de Longe” de Edu Lobo, que redescobri neste mês e o qual eu havia escutado há muito, mas muito tempo atrás (com certeza mais de 20 anos atrás), fiquei extremamente impressionado com a maturidade e a ousadia do compositor. Tendo lançado até então um compacto (em 1962, aos 19 anos) e sete álbuns, “Cantiga de Longe” foi composto em Los Angeles (EUA), após “Sergio Mendes presents Lobo”, do mesmo ano. Edu Lobo foi para os EUA para estudar orquestração e regência, logo depois de ganhar o prêmio de 1º lugar do III Festival de Música Popular Brasileira de 1967, com a música “Ponteio” [dele e de Capinam; para se ter uma idéia, a 2ª colocada neste festival foi “Domingo no Parque” (Gilberto Gil) o 3º lugar ficou para Roda Viva (Chico Buarque) e o 4º lugar para “Alegria, Alegria” (Caetano Veloso)]. Então consagradíssimo, o compositor de “Ponteio” decidiu viajar para estudar.

“Cantiga de Longe” teve a participação de músicos como Hermeto Paschoal, Airto Moreira e Wanda de Sá, os dois últimos radicados nos EUA. É um álbum extremamente elaborado, complexo, de melodias e harmonias únicas e altamente inovadoras. A “mudança” de Edu Lobo após seus primeiros discos gravados no Brasil é evidente, como pode também ser verificado no seu álbum lançado no mesmo ano, “Sergio Mendes presents Lobo”. Em muitas das músicas de “Cantiga de Longe”, Edu Lobo mistura seu experimentalismo com ritmos e melodias populares do Brasil, como frevos, marchinhas e sambas. O resultado é um álbum surpreendente pela sua modernidade e apurada elaboração.

Ouçam a primeira faixa deste album: CASA-FORTE

Exatamente no mesmo ano Egberto Gismonti lançou seu primeiro álbum, “Egberto Gismonti”. Aparentemente muito inseguro, como ele próprio confessa

“É a primeira vez que me entrego à perigosa e doce aventura de gravar. Confesso que temi e tremi diante dos problemas que apareceram (…)”

Gismonti elaborou um disco que lembra, no meu ver, bastante “Cantiga de Longe”, com melodias e harmonias rebuscadas, misturadas à cultura musical brasileira. Já fazia 15 anos que Gismonti estudava música, tendo tido formação clássica de alto nível com Nadia Boulanger, Jacques Klein e Jean Barraguer. Levou, portanto, algum tempo para “pôr para fora” toda sua criatividade, que “explodiria” nos anos seguintes. Gismonti é reconhecidamente um dos maiores instrumentistas brasileiros de todos os tempos; porém, infelizmente é muito pouco conhecido no Brasil. Seu primeiro álbum inclui elementos de jazz, samba e outros ritmos, os quais o autor não tem receio de explorar em violões, piano, metais, flautas e percussão (todos os arranjos são de Gismonti), mostrando a impressionante versatilidade deste compositor.

A primeira faixa do disco de Gismonti é: Salvador

Também em 1970 Chico Buarque lançou seu 4º álbum, “Chico Buarque de Hollanda, Volume 4”, um disco gravado às pressas quando o compositor voltou do exílio na Itália para o Brasil. Considero este um álbum menor de Chico Buarque, se comparado, por exemplo, com o seguinte, “Construção”. No meu ver, as canções “Agora falando sério”, “Rosa dos Ventos” e “Cara a cara” são os pontos altos deste disco de Chico Buarque, que canta desafinado a “Pois é” (a qual, felizmente, seria regravada por Elis Regina em 1974, quem transformou completamente esta música). Chico gravou algumas músicas antológicas neste “Volume 4”, como “Ilmo Sr. Ciro Monteiro ou Receita para virar casaca de neném” e “Gente Humilde” (esta última composta em conjunto com Garôto e Vinícius de Morais). No meu ver, o melhor de Chico Buarque ainda estaria por vir, embora seus três primeiros álbuns anteriores também sejam verdadeiras obras-primas.

Mesmo assim, Chico Buarque mostra sua genialidade como compositor em “Rosa_dos_ventos“, onde usa e abusa das proparoxítonas (que usaria de novo, no ano seguinte, na música “Construção”, feita com versos Alexandrinos terminados em proparoxítonas).

E do amor gritou-se o escândalo

Do medo criou-se o trágico

No rosto pintou-se o pálido

E não rolou uma lágrima

Nem uma lástima para socorrer

E na gente deu o hábito

De caminhar pelas trevas

De murmurar entre as pregas

De tirar leite das pedras

De ver o tempo correr

Mas sob o sono dos séculos

Amanheceu o espetáculo

Como uma chuva de pétalas

Como se o céu vendo as penas

Morresse de pena

E chovesse o perdão

E a prudência dos sábios

Nem ousou conter nos lábios

O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores

A calma dos lagos zangou-se

A rosa-dos-ventos danou-se

O leito do rio fartou-se

E inundou de água doce

A amargura do mar

Numa enchente amazônica

Numa explosão atlântica

E a multidão vendo em pânico

E a multidão vendo atônita

Ainda que tarde

O seu despertar

Também do mesmo ano é o álbum “Milton”, de Milton Nascimento, que também demonstra que o compositor mineiro estava explorando novas texturas musicais, diferentes de seu canto regional de Minas, marca registrada de sua carreira até então. Neste “Milton”, o compositor faz uso de guitarras e composições mais elaboradas, como “Maria_tres_filhos”, “Clube de esquina” e “Canto latino”, mas sem o caráter inovador e ousado de Edu Lobo e Egberto Gismonti.

Caetano Veloso e Gilberto Gil não lançaram álbuns em 1970, pois estavam resolvendo seus problemas e “encontrando-se” no exílio londrino. Há 40 anos atrás, os compositores que então despontavam com sua genialidade não temiam ousar, experimentar e explorar novos horizontes musicais. Um momento da cultura musical brasileira muito diferente da atual.



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3 respostas

  1. Só faltou você colocar alguns links para lermos esse post acompanhados de boas audições, Roberto!

    Segue um: Zanzibar, do álbum “Cantiga de longe”, de Edu Lobo. 🙂

  2. Touché!

    Obrigada, Roberto! 🙂

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