Em 1859 a Academia Francesa de Ciências estabeleceu um prêmio de 2500 francos franceses (naquela época o Euro ainda não existia) para o cientista que conseguisse esclarecer de uma vez por todas se a geração espontânea era verdadeira ou não. O prêmio foi concedido em 1862 a Louis Pasteur (1822-1895), que apresentou o trabalho “Sur les corpuscules organisés qui existent dans l’atmosphère”, publicado em 1861 nos Annales des Sciences Naturelles. Mas porque este questionamento era tão importante?
O questionamento sobre uma possível geração espontânea de seres vivos a partir de matéria inanimada vinha desde a antiguidade clássica. Desde a Grécia Antiga, por volta do 5º século a.C., filósofos como Aristóteles e Platão já haviam se dedicado a pensar sobre este assunto. Por volta do 3º século a.C. os estóicos consideravam o pneuma como sendo um elemento material essencial para os organismos vivos. O conceito de pneuma deu origem ao conceito latino spiritus, que passou a ser adotado pela Igreja Católica. De acordo com Santo Agostinho (354-430) a geração espontânea contínua era possível através da intervenção divina. A concepção agostiniana prevaleceu até o século XIII d.C., e seria abandonada quando São Tomás de Aquino (1225-1274) propôs que, na verdade, a intervenção divina não realizava a geração espontânea, e sim criava a vida na sua forma atual, através de milagres.
Na renascença, filósofos como René Descartes (1596-1650) voltaram a dar suporte à teoria da geração espontânea, apesar de não acreditar em um princípio criador de vida. Tanto Descartes quanto Francis Bacon (1561-1626) acreditavam que a geração de todos os organismos era simplesmente uma lei natural, e que estes eram formados a partir de “germes pré-existentes”. No entanto, os trabalhos de Jan Swammerdam (1637-1680), Marcello Malpighi (1628-1694) e Francesco Redi (1625-1685) tornaram as concepções da geração espontânea difíceis de serem sustentadas. Swammerdam e Malpighi descreveram os órgãos sexuais e a cópula dos insetos. Já Redi observou que os insetos não surgiam a partir de matéria em putrefação, se esta estivesse protegida dos próprios insetos de depositarem seus ovos. Mesmo assim, Redi não negou a geração espontânea, tendo em vista a ainda forte influência social e política da Igreja Católica.
Na França, Georges Buffon (1707-1788) e Pierre-Louis de Maupertuis (1698-1759) foram seguidores de Newton, e acreditavam que os seres vivos, tal como a matéria inanimada, eram formados por “unidades orgânicas invisíveis”. Os dois assumiam a existência de partículas orgânicas características da matéria viva e de forças naturais responsáveis pelos processos vitais, dando suporte à teoria do vitalismo. Todavia, os dois filósofos também não atribuíam conotações religiosas a suas concepções, e consideravam que um tal “princípio vital” era inerente às leis naturais. A biologia como ciência nasceu nesta época.
Ironicamente, dois abades seriam figuras-chave para iniciar o processo definitivo de questionamento ao vitalismo: Lazzaro Spallanzani (1729-1799) e John T. Needham (1713-1781). Ambos realizaram experimentos com soluções orgânicas ricas em nutrientes, fervendo-as, e aquecendo também o ar dos frascos fechados contendo tais soluções. E verificaram que posteriormente à esterilização não surgia nenhuma forma de vida nos frascos, contrariamente ao observado quando os mesmos eram deixados abertos e o meio sem ser fervido. Os experimentos de Spallanzani foram mais cuidadosos do que os de Needham pois não apresentaram qualquer sinal de vida; porém, Needham questionou Spallanzani dizendo que ele havia destruído a “força vegetativa” que residia no material orgânico.
Embora a teoria da geração espontânea tenha sido muito questionada ao longo dos séculos XVIII e XIX por diversos filósofos, nenhum deles conseguiu provas para colocar por terra tal teoria. Por isso, ainda prevalecia tal concepção no meio científico. Por exemplo, Erasmus Darwin (1731-1802), avô de Charles Darwin, acreditava que somente a geração espontânea poderia justificar o surgimento da vida na Terra. Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) também defendeu a teoria da geração espontânea.
No entanto, o problema da geração espontânea seria definitivamente abordado quando do embate de idéias entre Félix Pouchet (1800-1872), diretor do Museu de História Natural em Rouen e Membro da Academia Francesa de Ciências, e Louis Pasteur (1822-1895). Pouchet defendia a teoria da geração espontânea, e publicou um trabalho em 1859, intitulado “Hétérogénie, ou traité de la génération spontanée”, defendendo a teoria da geração espontânea, que motivou a Academia Francesa a buscar uma solução definitiva para tal questão.
A controvérsia gerada em torno da teoria da geração espontânea era conseqüência de observações acumuladas ao longo do século XIX, que faziam com que esta teoria fosse fortemente questionada. Por exemplo, os ciclos de vida de vários vermes foram descobertos naquela época. As observações sobre geração celular também trouxeram consigo evidências contra a geração espontânea. O biólogo alemão Rudolph Virchow, por exemplo, negou veementemente a geração espontânea, e argumentava que as células vivas só poderiam provir de outras células vivas. Além disso, a síntese química artificial de substâncias isoladas de seres vivos, como a uréia (preparada por Wöhler), também contribuiu para questionar a teoria da geração espontânea.
No entanto, a existência ou não de uma força geradora de vida não podia ser provada experimentalmente.
A investigação dos processos de fermentação e putrefação, além do entendimento da origem das doenças infecciosas, também foi importante para trazer novos elementos para o questionamento da teoria da geração espontânea. Os países europeus foram severamente afetados por epidemias de cólera durante o século XIX, e as autoridades da época tinham o maior interesse em saber se tal doença podia ter uma origem exógena (um agente infeccioso) ou não. Vários médicos e cientistas acreditavam que estas doenças eram causadas por partículas no ar, na água, na comida. Outros pensavam que eram causadas por substâncias químicas, em particular “toxinas” produzidas pelo corpo humano em resposta a substâncias tóxicas do ambiente. No caso da fermentação e da putrefação, não havia certeza se estas eram causadas por um microrganismo ou por um agente químico. E, no caso da fermentação em particular, se esta era causada por um “fermento” gerado no próprio meio fermentativo, ou se tinha origem no ar.
Em seu artigo de 1859, Pouchet apresentou resultados que mostravam que microrganismos surgiam em soluções contendo material nutriente, mesmo após a fervura destas soluções e do ar sobre as soluções. Ou seja, Pouchet apresentou argumentos que davam crédito à teoria da geração espontânea.
O químico Pasteur começou a se interessar pelo fenômeno da fermentação em decorrência de seus estudos de cristalização de substâncias como o ácido láctico. Até então, cientistas como Berzelius e von Leibig sustentavam que a fermentação era um processo puramente químico. Assim, Pasteur se dedicou a estudar o fenômeno de fermentação, uma vez que era um processo de grande importância econômica para a indústria de produtos lácteos, de vinagre e de bebidas como o vinho e a cerveja. A França já tinha uma longa tradição de produção destes produtos, e o entendimento do processo fermentativo era considerado de grande interesse pelos produtores.
Os experimentos de Pasteur foram realizados com extremo cuidado. Pasteur realizou inúmeros experimentos, com diferentes tipos de frascos e tampas, de maneira a verificar se caldos nutrientes, depois de fervidos, podiam ou não gerar microrganismos espontaneamente. Ao conseguir resultados definitivos, que refutavam a teoria da geração espontânea, Pasteur acusou Pouchet de realizar experimentos sem os cuidados necessários. Historiadores que posteriormente investigaram o rigor dos experimentos de Pouchet, verificaram que este pesquisador deixou de tomar vários cuidados básicos quando da realização de seus estudos. Somente em 1870 Ferdinand Cohn e John Tyndall demonstraram que as infusões de Pouchet continham Bacillus subtilis, que produz esporos resistentes ao calor e, na presença de ar, dão origem a bactérias.
Porém, o que motivou Pouchet e Pasteur a realizarem seus experimentos da forma como o fizeram? Porque Pasteur defendia rigor científico e Pouchet a teoria da geração espontânea?
O fato é que a teoria da geração espontânea tinha implicações filosóficas, políticas e religiosas extremamente importantes. Pasteur não publicou seus resultados durante muitos anos, tendo em vista o ambiente político da França na época de suas descobertas. Aqueles que apoiavam a teoria da geração espontânea eram tidos como apoiadores do materialismo, do radicalismo e das atitudes anticlericais, considerados ameaçadores à ordem pública. Os que defendiam o materialismo eram considerados inimigos da França. Com a tradução do livro A origem das espécies, de Darwin, por Madame Royer, famosa materialista atéia, os ânimos se exaltaram. Muitos cientistas franceses atacaram Darwin tendo por base os resultados de Pasteur. Pouchet, defensor da geração espontânea, era tido pelo público e pela comunidade científica, como uma ameaça à igreja e ao imperador francês Napoleão III.
Paradoxalmente, em sua obra “Héterogénie” Pouchet expressa sua posição antimaterialista e vitalista. Rejeita a hipótese da abiogênese, a geração da vida a partir da matéria inanimada. Pouchet se manifestava abertamente em favor da criação divina como origem da vida.
Por sua vez, Pasteur também era religioso, e expressava sua rejeição ao materialismo. Em termos políticos era considerado conservador e apoiou abertamente Napoleão III, quem, por sua vez, ajudou a pesquisa de Pasteur. Porém, as posições de Pasteur eram paradoxais. Em uma de suas mais famosas palestras, proferida na Sorbonne em 1864, Pasteur descreveu seus experimentos decisivos, mostrando as falhas de Pouchet, sustentou a eternidade da matéria e a possibilidade da evolução ocorrer. E levantou a questão se seria possível a vida surgir a partir da matéria inanimada. À ocasião, Pasteur teria afirmado que, caso a matéria pudesse “se organizar” para dar origem à vida, um criador seria totalmente inútil. Por isso, Pasteur defendeu a posição de que a vida só poderia existir a partir da própria vida. Mas na mesma palestra Pasteur argumentou que não tinha preconceitos sobre a natureza da matéria, e que havia realizado seus experimentos sem qualquer concepção pré-estabelecida.
Ao que tudo indica, o cerne do embate entre Pasteur e Pouchet foi filosófico: a sustentação da heterogênese – que sustenta o surgimento da vida a partir da matéria orgânica – ou da abiogênese – a geração da vida a partir da matéria inorgânica. Pouchet teria sido apoiador da heterogênese, e Pasteur da abiogênese. Pouchet adotou a heterogênese tanto em base filosófica quanto religiosa. Pouchet era vitalista, e sustentava que existia uma separação nítida entre a matéria inanimada e a vida. Desta forma, sustentava que a abiogênese era impossível. Com a refutação de Pasteur à heterogênese, a abiogênese passou a ser considerada como a única possibilidade para surgir a vida, a teoria da evolução de Darwin foi diretamente questionada. A apresentação de Pasteur na Sorbonne em 1864 não foi somente para apresentar seus resultados científicos, mas também para rejeitar a teoria da evolução e apoiar o espiritualismo e negar qualquer hipótese de uma origem natural para a vida.
Somente em 1883 Pasteur publicou os resultados de seus experimentos. Desta forma, parece que a conduta pública de Pasteur foi fortemente influenciada por fatores políticos e religiosos, uma vez que Pasteur era assumidamente cristão, defendia o sistema político vigente à época e proclamava suas posições antimaterialistas. Ao publicar seus experimentos somente em 1883, depois do fim do Segundo Império Napoleônico na França, Pasteur demonstra, de certa forma, ter tido cuidado de não questionar a ordem política e social. Em 1883, a atmosfera na França já era muito mais aberta ao liberalismo e tolerante às ideias materialistas.
Os experimentos de Pasteur foram decisivos para pôr fim à teoria da geração espontânea, que só pôde ser finalmente refutada com o desenvolvimento científico do século XX. Porém, ao contrário do que se divulga como sendo aceito, os oponentes da geração espontânea na segunda metade do século XIX não representam a vitória do espírito científico. Ao se considerar o contexto histórico do questionamento da teoria da geração espontânea, verifica-se que seus opositores, na verdade, defendiam ideais religiosos, anti-materialistas e anti-evolucionistas. E destes, Pasteur foi, sem dúvida, seu mais ilustre representante.
Leia também:
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23 de Outubro de 4004 A.C. (Da série: Minha mãe, a Chita, ou o que é a Seleção Natural?) – por Mauro Rebelo
O homem que matou a geração espontânea – por Thiago Henrique Santos
Bibliografia
Debré, P. – Pasteur. Scritta, São Paulo, 1995.
Fry, I. – The emergence of life on earth: a historical and scientific overview. Rutgers University Press, New Brunswick, 2000.
Vallery-Radot, R. – La vie de Pasteur. Hachette, 1900.
Categorias:ciência
Toda essa gente, que estudava à luz de velas, em que pese louváveis esforços, e até mesmo algum sucesso, foram completar, entre desencaminhados pelo preconceito introjetado por Platão, com a estorieta de um Criador de tudo. Aristóteles fez um esforço enorme para refutar aquele método, dialético, portanto dúbio, mas infelizmente não logrou escapar do eixo armado. O objetivo daqueles pilantras era simplesmente o poder, e de seus discípulos – filósofos e cientistas, na verdade apenas tecnocratas, apenas aperfeiçoaram os falsos fundamentos, logrando assim paulatinamente melhores resultados. Ora, vivemos na Era do Conhecimento. Sabemos que não só os seres chamados vivos, mas até as pedras se movem intrínsecamente, recebendo e emitindo energia. A ciência se emendou; mas o pessoal da comunicação social ainda não foi informado, e os religiosos…. bem esses sim, quanto maior confusão, menor chance de apurar o gigantesco conto que aplicam para tornar o Ocidente completamente esquizofrênico, assim garantindo seu sustento.
Quem sabia das coisas naquela Grécia era o estrangeiro Demócrito. O macedônio até esteve em Athenas, mas ninguém dele tomou conhecimento. Nem hoje.
Quando morrer quero ir para o Inferno. Vou buscar pela orelha os dois pedófilos da humanidade – Sócrates & Platão.
Sensacional este teu texto, Roberto!
Só agora o li e vou indicá-lo para um material complementar ao professor que estou escrevendo pra uma editora. Resume os principais pontos da contenda abiogênse-biogênese de maneira bem didática e em linguagem leve – perfeito!
Abração,
Tati
Oi Tati,
Bom que você gostou.
abraço,
Roberto