Existe algo mais forte do que o desejo?
Quando “se coloca algo na cabeça” que se deseja, dificilmente se abandona este desejo até que seja satisfeito. Mas o quanto um “desejo antecipado” pode substituir um “desejo real”? Será que é possível saciar um desejo real simplesmente imaginando ter saciado este desejo?
Um dos desejos mais fortes que se tem é por comida, uma vez que comer é absolutamente essencial. E quando desejamos comer algo, praticamente preparamos nosso corpo para comer aquilo: nosso paladar, nossa boca, nosso sistema digestivo ficam estimulados e a sensação de fome, ou de desejo de comer, naturalmente aumenta. O desejo de comer algo estimula a salivação – é a famosa sensação de se ter “água na boca”. Impossível de se evitar quando se imagina o prato preferido: uma bela lasanha feita no capricho, ou um rocambole de creme de damasco. Um café muito saboroso com um bom pedaço de chocolate quando “o pique diminui” no meio da tarde. Uma excelente pizza acompanhada de uma taça de um bom vinho na presença de quem se gosta.
Quem resiste?
Mas, o quanto a imaginação antecipada pode estimular o desejo? Como a percepção real e a imagem mental tendem a promover respostas similares, poderia-se considerar que a imaginação do consumo real de comida eventualmente levaria a uma diminuição do consumo real da mesma. Isso porque “habituar-se com algo” significa ter respostas comportamentais e fisiológicas menos intensas a este “algo”, em decorrência ou de uma exposição por tempo mais longo, ou mais repetidamente, ao mesmo “algo”. Por exemplo, comer o 20º pedaço de carne de um churrasco é menos desejado do que comer o 1º. Principalmente no que se refere à comida, acostumar-se a ela acontece de maneira muito rápida para ser meramente resultante de um feedback digestivo. Por isso, acostumar-se a determinados tipos de comida pode ser resultante de processos cognitivos do tipo top-down (crenças, memórias ou expectativas) ou por fatores sensitivos anteriores à ingestão da comida (como, por exemplo, a textura ou o aroma da comida). Considerando-se a pouca distinção entre a percepção real e a representação mental, pensar em comer determinado alimento poderia levar as pessoas a se acostumar ao mesmo alimento.
Pesquisadores do Reino Unido e do Japão formularam a seguinte hipótese: ao se estimular mentalmente alguém a uma experiência que é mais próxima a um acontecimento repetitivo (como, por exemplo, se imaginar o consumo repetido de determinado tipo de comida) deve levar tal sujeito a acostumar-se a tal estímulo. Para testar esta hipótese os pesquisadores realizaram cinco tipos de experimentos, de tal forma a verificar se a “imaginação repetida” do consumo de uma determinada comida teria efeito no real consumo daquela comida.
Para isso, tomaram 51 pessoas. Todas imaginaram 33 ações repetitivas, uma de cada vez, de maneira a manter um esforço constante em cada ação imaginada. As pessoas “controle” se imaginaram colocando 396 kg de roupa em uma máquina de lavar (segundo os autores, tal esforço seria similar ao de se comer barras de chocolate). Participantes de uma série de 3 repetições se imaginaram colocando 360 kg de roupa em uma máquina de lavar, e em seguida se imaginaram comendo 3 chocolates. Participantes de uma série de 30 repetições se imaginaram colocando 36 kg de roupa em uma máquina de lavar e em seguida comendo 30 chocolates. Em seguida, todos os participantes comeram barras de chocolate de 40 g cada até sua completa saciedade. As barras de chocolate restantes foram recolhidas de cada um dos participantes quando cada um destes se disse satisfeito. Em seguida se mediu o quanto de chocolate cada participante efetivamente comeu.
O que os pesquisadores verificaram é que a quantidade de chocolate comida foi influenciada pela “indução por imaginação” de cada participante. Participantes da série de 30 repetições comeram muito menos chocolates do que os participantes da série de 3 repetições e do que os participantes controle. Já a quantidade de chocolate consumida pelos participantes da série de 3 repetições não foi muito diferente da quantidade consumida pelos participantes controle. Ou seja, se por um lado a “indução por imaginação” não estimulou o consumo de chocolates, a imaginação repetida do consumo de chocolates levou a um menor consumo dos mesmos. Os resultados obtidos por este e outra série de experimentos sugerem que a recarga repetitiva mental não é o processo pelo qual o consumo imaginário repetitivo de uma comida reduz o consumo subseqüente de comida. E sim que a recarga repetitiva mental mostra sensibilizar os participantes para a comida que imaginaram comer.
Segundo os autores, “acostumar-se” resulta de um estímulo específico. Acostumar-se a um determinado tipo de comida leva a uma diminuição do consumo da mesma, sem afetar o consumo de outros tipos de comida. Por isso, os autores realizaram outros experimentos para verificar esta premissa: imaginar estar comendo outra comida (no caso, queijo cheddar) depois de comer chocolate, ou imaginar comer uma comida diferente (chocolate) antes de comer outra comida (queijo cheddar). Os participantes imaginaram estar comendo 3 ou 30 pedaços de queijo cheddar ou chocolates, para em seguida comer pedaços de queijo cheddar até a saciedade. Como seria de se esperar, participantes que imaginaram comer 30 pedaços de queijo comeram efetivamente menos queijo do que aqueles que imaginaram comer apenas 3 pedaços de queijo. Por outro lado, participantes que imaginaram comer 3 ou 30 chocolates não apresentaram diferença no seu consumo de queijo. Consequentemente, os pesquisadores constataram que o efeito estímulo-específico do consumo imaginado indica que “se acostumar” é o processo pelo qual o consumo imaginário repetitivo de uma determinada comida leva a uma subseqüente redução efetiva do consumo desta mesma comida.
Ainda segundo os autores, dois processos psicológicos com substratos neurais distintos parecem regular a seleção e o consumo de comida. Um processo promove a resposta de prazer à comida, e pode diminuir o consumo por saciedade sensorial específica. O outro processo promove a motivação e o apetite para efetivamente querer a comida, e a diminuição do consumo ocorre por habituar-se a este consumo. Experimentos foram realizados também para testar tais hipóteses, e os resultados obtidos indicaram que o consumo imaginado de um determinado tipo de comida promoveu um decréscimo de seu consumo subseqüente devido ao costume, pois “acostumar-se” diminui a intensidade da qual as pessoas realmente querem a comida. Porém, o “consumo imaginado” não influencia o quanto as pessoas realmente gostam de determinado tipo de comida.
O estudo realizado demonstrou que “imaginar repetidamente” o consumo de um determinado tipo de comida leva as pessoas a se habituarem a este tipo de comida. Os participantes que imaginaram consumir mais de um determinado tipo de comida se tornaram menos motivados a comê-la. E mais: a influência da “indução por imaginação” no consumo de comida mostrou ser estímulo-específico: reduz o consumo do tipo de comida que os participantes imaginaram comer, mas não de outra comida. A imaginação recorrente do consumo de uma determinada comida reduziu também o desejo pela mesma.
No geral, os resultados sugerem que a “imaginação mental” por si só pode engendrar “acostumar-se” a um determinado estímulo. Tal constatação, segundo os autores, pode levar ao desenvolvimento de intervenções mais efetivas para a redução do consumo exagerado de comida, ou de comida pouco saudável, ou até mesmo de drogas e de reações fóbicas a estímulos negativos. Os resultados também sugerem que uma a simulação repetida de uma ação pode disparar suas conseqüências comportamentais.
Fiquei imaginando as múltiplas conseqüências do estudo realizado por estes pesquisadores. Em educação, por exemplo. Imagine-se o impacto de se poder induzir a perda de rejeição de se aprender determinadas disciplinas. Seria realmente uma revolução.
Seria tudo uma questão de “se querer”?
Morewedge, C., Huh, Y., & Vosgerau, J. (2010). Thought for Food: Imagined Consumption Reduces Actual Consumption Science, 330 (6010), 1530-1533 DOI: 10.1126/science.1195701
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