Biodiversidade, esta ilustre desconhecida

Alemã cataloga mais de mil espécies de cogumelos

Há mais de 30 anos, a alemã Rose Mary Danke estuda os cogumelos da ilha canária de La Palma, na Espanha. Trata-se de uma autoridade mundial em micologia que já catalogou mais de mil espécies diferentes. A cada dia, Rose Mary Danke circula pelas florestas da ilha. O resultado da pesquisa é uma vasta enciclopédia onde estão classificados cientificamente os cogumelos de La Palma.

Com a chegada das primeiras chuvas do outono, os fungos proliferam no local e graças a seus microclimas, a ilha conta com espécies únicas. São tesouros que Rose Mary mostra aos colegas pesquisadores de todo o mundo.

Veja vídeo com a micologista alemã, aqui.

Cientistas dizem ter descoberto nova espécie de lêmure em Madagascar

Uma nova espécie de lêmure foi descoberta nas florestas de Madagascar, segundo um grupo de cientistas americanos. Os zoólogos ainda aguardam resultados de exames genéticos de amostras de sangue retiradas do animal para saber se trata realmente de uma nova espécie. No entanto, o especialista em primatas e presidente da organização Conservation International, Russ Mittermeier, diz já ter certeza de que esta é uma nova espécie. Ele viu o lêmure pela primeira vez em 1995, mas confirmou sua existência apenas em 2010, ao filmar um documentário para a BBC Decade of Discovery. Foi durante as filmagens que Mittermeier e seus colegas conseguiram capturar um dos lêmures e retirar as amostras de sangue. Após a coleta, o animal foi devolvido à floresta.

Os lêmures que possuem um desenho em forma de forquilha, como um “Y”, na cabeça e lombo pertencem a um grupo de espécies  – ou gênero – conhecido como Phaner, com quatro espécies diferentes. Se for confirmado que o animal encontrado em Madagascar pertence a uma nova espécie, o grupo passará a ter cinco espécies diferentes.

Mittermeier avistou pela primeira vez o animal, que tem o tamanho de um esquilo, em uma área protegida, no nordeste de Madagascar, conhecida como Daraina. O especialista procurava uma outra espécie de lêmure – a Propithecus tattersali, que é muito maior, e é caracterizada por um desenho em forma de forquilha de coloração dourada – identificada em 1988. “Naquela época, fiquei surpreso ao ver um lêmure forquilha-coroado ali, uma vez que não havia registros desse animal na região”, ele comentou.

A cor do pêlo do lêmure é uma das características que o diferencia de outros animais do mesmo gênero. “Percebi imediatamente que era provável que fosse uma nova espécie, mas não tive tempo de investigar na ocasião.” Então, em outubro deste ano, o especialista liderou uma expedição – da qual participaram um geneticista e uma equipe de filmagem – que seguiu para a região em busca do animal. A equipe iniciou a busca logo após o pôr do sol, período em que os animais tendem a emitir mais sons. Após ouvir um desses sons, a equipe seguiu os gritos de um lêmure pela floresta até conseguir avistá-lo, à luz das lanternas, no topo de uma árvore. Depois de fazê-lo dormir com um dardo carregado com tranquilizantes, um dos membros da equipe subiu na árvore e trouxe o animal para o solo. A forma do desenho no pelo do animal, o tamanho de seus membros e a língua comprida, que suga o néctar das flores, eram característicos dos lêmures do gênero Phaner. No entanto, o animal tinha um padrão de cores um pouco diferente, além de um hábito de mexer a cabeça que não havia sido observado em outros lêmures forquilha-coroados. Uma estrutura estranha sob a língua também o distinguiu de outros parentes próximos, segundo os especialistas.

“A genética vai contar a história verdadeira”, disse Mittermeier.

Se for confirmado que se trata de uma nova espécie, a equipe gostaria que o animal recebesse o nome científico de Fanamby – nome da organização conservacionista que vem trabalhando para proteger a floresta de Daraina. “Esta é mais uma impressionante descoberta na ilha de Madagascar, área prioritária em termos de biodiversidade e um dos lugares mais incríveis do nosso planeta”, disse Mittermeier. “É particularmente notável que continuemos a encontrar novas espécies de lêmures e muitas outras plantas e animais nesse país fortemente impactado (pela ação do homem), que já perdeu 90% ou mais de sua vegetação original”. Segundo os especialistas, como a área é pequena, há grande probabilidade de que a espécie esteja ameaçada de extinção.

E, da Agência FAPESP…

Naturais do Estado de São Paulo – Elton Alisson, de Bragança Paulista (SP)

As espécies de peixes de água doce e marinhos, além de répteis, aves, mamíferos e anfíbios que existem no Estado de São Paulo acabam de ganhar “RG” e “comprovante de endereço”. O programa Biota-FAPESP elaborou e disponibilizou na terça-feira (14/12), no site da revista eletrônica do programa, a Biota Neotropica, uma lista oficial e atualizada das espécies de vertebrados e invertebrados que compõem a biota paulista. O anúncio foi feito pelo coordenador do programa, Carlos Alfredo Joly, durante a conferência internacional Getting Post 2010 – Biodiversity Targets Right, realizada pelo Programa Biota-FAPESP juntamente com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Bragança Paulista (SP). A reunião, que terminou no dia 15 de dezembro, marcou o encerramento do Ano Internacional da Biodiversidade.

De acordo com Joly, inicialmente a lista é composta por espécies de cinco grupos de vertebrados – peixes de água doce e marinhos, anfíbios, répteis, aves e mamíferos – e 21 grupos de invertebrados. Mas os números de espécies catalogadas devem aumentar já nos próximos meses. “A lista está em construção. Logicamente que ela sempre será modificada e atualizada porque novas espécies vão ser descritas e encontradas”, disse Joly à Agência FAPESP.

Até janeiro, os pesquisadores pretendem disponibilizar, também para consulta pela internet, a lista de 7,2 mil espécies de plantas fanerógamas (com sementes) que integram a flora paulista. E, posteriormente, a de outros grupos de plantas, como líquens, samambaias, musgos e algas. Um dos principais objetivos da lista é ser uma referência científica das espécies de animais e plantas que ocorrem no Estado de São Paulo para estabelecer medidas de conservação. A listagem poderá ser utilizada para a elaboração de uma relação de espécies ameaçadas, com os nomes científicos válidos e referendados, ou para melhorar os mapas de distribuição das espécies. “Com essas listas, é possível identificar onde essas espécies podem ocorrer no Estado de São Paulo e verificar se os lugares onde elas podem habitar estão bem conservados ou não”, disse Tiago Egger Moellwald Duque-Estrada, gestor executivo do Biota-FAPESP.

Outra utilidade da lista, segundo Joly, será garantir a repartição de benefícios dos recursos genéticos da biodiversidade entre os países onde isso foi decidido, que foi um dos maiores avanços da 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), realizada no fim de outubro em Nagoya (Japão). A medida estabelece, por exemplo, que se uma molécula de uma determinada espécie de planta levar ao desenvolvimento de um produto pela indústria farmacêutica ou cosmética, os lucros deverão ser compartilhados com os países que demonstrarem que a espécie ocorre em seu território. “É claro que haverá espécies que estão presentes em mais de um país e uma das maneiras de se comprovar onde determinada espécie ocorre é por meio de uma lista de espécies oficiais”, disse Joly.

Em função disso, conforme a meta estabelecida na Cúpula Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Johanesburgo (Rio+10), em 2002, os países deveriam ter apresentado este ano, em Nagoya, as listas oficiais de plantas, animais e microrganismos que ocorrem em seus territórios. Mas, a exemplo dos outros 16 países que apresentam alta biodiversidade – conhecidos como “megadiversos” –, o Brasil não conseguiu apresentar suas listagens completas. “O que conseguimos apresentar foi uma lista parcial de espécies de plantas, que está disponível no site do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e que foi resultado de um esforço bastante grande. Mas não conseguimos avançar ainda nas listas de animais e, principalmente, de microrganismos, que é mais difícil de elaborar devida à quantidade muito grande de subespécies”, explicou Joly.

Segundo o coordenador do Biota-FAPESP, entre os principais obstáculos para a elaboração da lista oficial das espécies brasileiras está o trabalho de coordenação, que consiste em fazer revisões e correções dos dados das espécies, e o engajamento de pesquisadores para que contribuam. Na opinião de Joly, uma das formas mais eficientes de elaborar a lista brasileira seria por meio das sociedades científicas, como as de zoologia, ictiologia e botânica, que poderiam realizar o trabalho de coordenação.

“O fato de São Paulo ter saído na frente será um incentivo para que outros estados também se animem a fazer suas listas, e isso deve acelerar o processo de elaboração da lista oficial de espécies brasileiras. Como todas as espécies do Estado de São Paulo já estão catalogadas, elas poderão ser automaticamente inseridas em uma lista nacional”, afirmou.

Novo sistema de informação

As listas das espécies de vertebrados e invertebrados do Estado de São Paulo começaram a ser produzidas na fase de planejamento do programa Biota-FAPESP, quando os pesquisadores envolvidos no projeto fizeram um levantamento sobre o que se conhecia da biodiversidade paulista até então. A pesquisa resultou na publicação, em 1999, da série Biodiversidade no Estado de São Paulo, composta por sete volumes. Em 2009, por ocasião da comemoração dos dez anos do programa Biota-FAPESP, os coordenadores do projeto iniciaram o processo de atualização das informações da série. A iniciativa resultou na publicação das listas das espécies na internet em 14 de dezembro daquele ano.

De acordo com Joly, além de possibilitar à comunidade científica encontrar informações sobre as espécies do Estado de São Paulo reunidas em um único volume, as listas também exercerão o papel de dicionário no novo Sistema de Informações do Programa Biota-FAPESP, o SinBiota 2.0. Desenvolvido no âmbito do Instituto Virtual de Pesquisas FAPESP-Microsoft Research, o novo sistema visa a diminuir erros de digitação dos nomes de novas espécies nas entradas de informação no SinBiota.

“Com o novo sistema e as listas atualizadas das espécies, no momento em que o pesquisador submeter uma planilha de espécies com nomes grafados de forma incorreta o sistema indicará que o nome cadastrado tem uma grafia diferente. Isso certamente reduzirá os erros de digitação, que acabavam causando confusão”, disse.

Mais informações, aqui.



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