Educação e C&T do Reino Unido em sinuca de bico

A situação do governo e dos acadêmicos no Reino Unido não está nada confortável, conforme já discutido anteriormente aqui neste blog. O orçamento destinado à pesquisa e desenvolvimento no Reino Unido sofrerá um corte de 10% durante os próximos 4 anos, e estará restrito a 4,6 bilhões de libras esterlinas. O financiamento da pesquisa é de atribuição do Department of Business, Innovation and Skills (BIS), que terá orçamento reduzido de 7,1%. O maior problema será o financiamento do ensino superior pelo mesmo órgão (BIS), que sofrerá um corte de 40%, sendo reduzido de 7,1 bilhões de libras esterlinas para 4,2 bilhões de libras esterlinas. Em paralelo, as anuidades do ensino superior terão um aumento significativo. Este aumento tem sido o motivo de protestos de estudantes no Reino Unido.

Mesmo assim espera-se que os estudantes que buscam cursar universidades continuem a procurar os cursos de graduação, e até mesmo que a qualidade do ensino e dos estudantes tenha uma melhora. O maior problema será para a pós-graduação, uma vez que a formação de doutorado significa um custo adicional considerável (no Reino Unido paga-se não somente para se cursar as disciplinas de pós-graduação, mas também para se trabalhar nos laboratórios de pesquisa). Os pesquisadores estão bastante preocupados com as medidas governamentais, pois estas medidas podem significar um impacto negativo na ciência produzida na Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda. Alguns acreditam que certas faculdades de química poderão até mesmo fechar suas portas, devido ao seu alto custo de manutenção.

No que se refere à educação de nível superior propriamente dita, a recomendação é que as universidades não estabeleçam mais limites para os valores de suas anuidades. Se por um lado o governo continuará financiando os estudos daqueles que cursam as universidades, por outro lado isso significa que os estudantes terão dívidas maiores ao terminar seus cursos. Atualmente o valor máximo de anuidade que pode ser cobrado pelas universidades é de 3290 libras esterlinas (cerca de R$ 8.800,00/ano). Com o fim do limite estabelecido pelo governo, as anuidades das universidades do Reino Unido poderão ultrapassar o valor de 6000 libras esterlinas (cerca de R$ 16.000,00), fazendo com que os estudantes tenham que assumir dívidas entre 30000 e 40000 libras esterlinas ao fim de seus estudos.

O argumento do revisor dos valores a serem pagos no sistema de ensino superior do UK, Lord Browne of Madingley, é que desta maneira as universidades poderão continuar mantendo seu nível de excelência. Acredita-se que após a implantação dos novos valores de anuidades, a competição entre as universidades do UK aumentará, fazendo com que estas ofereçam ensino cada vez melhor, possibilitando aos estudantes escolher melhor a instituição onde desejam realizar seu curso de graduação. Tais opiniões são compartilhadas por David Eastwood, vice-reitor da University of Birmingham.

Na contramão, a França e a Espanha deverão promover um aumento de seus orçamentos destinados à ciência e tecnologia. Defendendo o que chamam de “economia do conhecimento”, anunciaram que o orçamento da França para C&T deverá aumentar de 412 milhões de euros em 2011, atingindo 15,2 bilhões de euros, enquanto que o da Espanha deverá aumentar de 63 milhões de euros, atingindo 5,4 bilhões de euros e 2011. Na opinião de Marja Makarov, chefe-executiva do European Science Foundation, esta foi uma sábia decisão por parte dos governos da França e da Espanha. Makarov cita o exemplo da Finlândia, que durante a crise dos anos 90 decidiu investir na “economia do conhecimento”. Resultado: deixou de ser um país com economia baseada essencialmente em seus recursos naturais. Atualmente o orçamento da Finlândia em C&T é, proporcionalmente, o segundo maior do mundo, com investimento de 4% do PIB.

Segundo pesquisadores franceses, a intenção do governo francês é investir para melhorar o desempenho da pesquisa francesa, valorizando o mérito e a excelência de grupos que têm destaque científico. Ambas França e Espanha também pretendem fortalecer programas de financiamento de pesquisa em indústrias. Na França, o orçamento de programas deste tipo terão um incremento de 145 milhões de euros, e são considerados como os melhores da Europa. No caso da Espanha, iniciativas de financiamento deste tipo são dedutíveis dos impostos. Apesar da França ter iniciado sua recuperação econômica apenas recentemente, o governo francês aumentou os gastos públicos. O caso da Espanha é um dos mais complicados da Europa, uma vez que o país apresenta uma das taxas de desemprego mais altas dos países mais desenvolvidos da Comunidade Européia: cerca de 20%. O corte no orçamento global do governo espanhol está previsto para ser de 16% em 2011.

Enquanto isso, aqui no Brasil a economia também sofre um leve revés, e fechará o ano com uma inflação em torno de 7-8%. Com isso, a presidente eleita terá que, necessariamente, realizar cortes orçamentários. Todos sabemos que um dos alvos preferidos de cortes do governo brasileiro é o orçamento da C&T. O da educação também poderá sofrer diminuição. Porém, é muito importante que o governo possa estabelecer estratégias adequadas para assegurar o desenvolvimento do país, sem comprometer a qualidade do ensino e da pesquisa. Esperemos que o exemplo da Finlândia sirva de inspiração para o governo brasileiro.

Fonte das informações: revista Chemistry World (aqui e aqui), editada pela Royal Society of Chemistry.



Categorias:ciência, educação

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