A educação no governo Lula, segundo Marcelo Leite

O jornal Folha de São Paulo deste domingo, 19/12/2010, antecipou-se e publicou um caderno especial sobre o governo Lula no período 2003-2010. Apesar de não ter lido o caderno da sua íntegra, apenas partes, considero-o de leitura obrigatória pelo fato d’A Folha ser um dos jornais mais importantes do Brasil, e também por ter apresentado uma análise equilibrada, mostrando as realizações e as pendências do governo Lula nos últimos 8 anos.

Transcrevo aqui a análise do jornalista Marcelo Leite sobre a educação, publicada neste caderno especial, “Os anos Lula – 2003-2010”.

EDUCAÇÃO AVANÇA, E CARÊNCIAS FICAM MAIS PATENTES – Marcelo Leite

O período Lula ficará marcado, no campo educacional, como aquele em que as deficiências do ensino básico (fundamental e médio) entraram de vez na pauta nacional, e não só de governo.

A prioridade social se evidencia em fatos de alcance simbólico, como a adoção do piso salarial de professores: não chega a dois salários mínimos, porém.

A escolarização do brasileiro aumentou só um ano, de 6,5 anos de estudo, em 2002 (último ano de FHC), para 7,5, em 2009. No mesmo intervalo, o analfabetismo foi de 11,9% para 9,7%.

O ensino superior no país avançou, mas devagar. O ensino técnico, menos ainda. Grosso modo, pode-se dizer que, mesmo nos níveis inferiores, apenas começaram a ser resolvidos os problemas de acesso à educação.

Permanecem sem abordagem comprovadamente eficaz os de fluxo (repetência) e qualidade (conteúdo).

Como resultado, o país está ainda longe de um sistema de ensino capaz de sustentar o surto de inovação necessário para posicionar-se no mercado mundial como algo mais que um grande exportador de commodities.

Com 98% de crianças matriculadas no ensino fundamental 1 e 2, dá-se o serviço por universalizado nesse nível. Ocorre que só 47,6% completam a oitava série até os 15 anos, como deveriam. Mais da metade dos alunos vai se atrasando e acaba por formar-se tarde -ou nunca.

Com isso, o ensino médio já principia desfalcado. Meros 50,9% dos jovens entre 15 e 17 anos, a idade adequada, estão inscritos no nível secundário. Repetências e evasões vão se acumulando. Mesmo acima dos 22 anos, só 35% terminam o secundário.

Não admira que só 14,4% dos jovens de 18 a 24 anos frequentem o nível superior. Um avanço sobre os 8,8% de 2002, mas muito aquém do necessário. No Brasil, 11% da população tem diploma universitário, contra 28% nos países mais desenvolvidos.

Parte das mazelas do ensino brasileiro começa nas creches e pré-escolas. Quanto mais cedo a criança inicia a escolarização, melhor se espera que se torne seu desempenho futuro. Apenas 18,2%, no entanto, chegam a ela antes dos quatro anos.

QUALIDADE

Ao apresentar uma sinopse de balanço do período Lula, o ministro Fernando Haddad destacou números positivos. O orçamento do MEC quase duplicou, alcançando R$ 52 bilhões em 2009. O investimento em educação foi de 4,1% do PIB a 5%.

Sem instrumentos para afetar diretamente o ensino fundamental e o médio, atribuições dos governos municipais e estaduais, o governo federal colheu parcos resultados em escala nacional.

Obteve a aprovação, no Congresso, do Fundeb, que ampliou o alcance do Fundef de FHC ao incluir o ensino médio no fundo que complementa o dispêndio educacional dos outros níveis de governo com verbas federais.

Buscou vincular os repasses à adoção de planos de melhora do ensino, mas os resultados são incipientes e de difícil avaliação. Criou ainda um indicador nacional, o Ideb, para monitorar a qualidade do ensino básico e o cumprimento da meta de chegar à nota 6 (escala de 0 a 10) na próxima década.

O MEC destaca a superação dos objetivos para 2009. A meta para os anos iniciais do ensino fundamental era 4,2, mas ficou em 4,6; nos anos finais, o alvo era 3,7 e se chegou a 4. No ensino médio, respectivamente 3,6 e 3,5.

No principal teste internacional, o Pisa, que avaliou a educação em 65 países em 2009, os estudantes brasileiros melhoraram, mas ainda estão na 53ª posição em leitura e na 57ª em matemática.

Resumo da avaliação: a educação básica brasileira está no vermelho – e melhora menos conforme se ascende nos níveis de ensino.

PROUNI IMPULSIONA A EXPANSÃO DO ENSINO SUPERIOR – Marcelo Leite

O Brasil contava no final de 2009 com 6 milhões de estudantes universitários. Um aumento de 50% sobre os 4 milhões de 2003, quando teve início o primeiro mandato do presidente Lula.

Essa expansão pouco tem a ver com a política de criar novas universidades federais, contudo. O número de vagas oferecidos por elas aumentou em ritmo mais acelerado (71%), é fato, mas passou de 109 mil para 187 mil, meros 3,1% do total.

O crescimento se deu mesmo nos estabelecimentos de ensino superior privados. Eles respondem hoje por 74,5% das vagas oferecidas.

O quarto restante (24,5%) fica com todas as instituições do setor público juntas (municipais, estaduais e federais). Em 2003, essa participação era de 30%.

O governo Lula, em que pese toda a retórica de ampliação do setor público, reconheceu na prática que o potencial maior de crescimento estava nas universidades particulares. Por meio do ProUni (Programa Universidade para Todos), passou a “comprar” vagas suas, oferecendo bolsas de estudo para alunos de baixa renda em troca de isenções tributárias para escolas que aderissem ao programa.

Entre 2005 e 2010, quase 749 mil alunos foram beneficiados. Hoje são 453 mil bolsistas, quase 2,5 vezes o total de vagas oferecidas nas universidades federais.

A avaliação de Marcelo Leite é bem ponderada, considerando-se o espaço exíguo destinado a seu texto no caderno especial da Folha. A discussão sobre o ensino e sua importância efetivamente foram incorporadas tanto no contexto governamental como pela sociedade, que passou a cobrar ações cada vez mais efetivas por parte do governo, da forma como a educação merece. Porém, o debate deve ser necessariamente aprofundado, e as diretrizes e ações devem ser implementadas de maneira a se promover os avanços necessários, principalmente na qualidade da educação do Brasil. Infelizmente, dedicar uma única frase de sua análise ao problema salarial dos professores, e nenhuma à imprescindível formação do profissional do ensino, mostra o quanto o problema deve ser enfrentado de maneira a não se abordar apenas alguns pontos, mas a questão da educação por completo. Que é extremamente complexa, é verdade.

Por outro lado, Marcelo Leite deixa claro que “apenas começaram a ser resolvidos os problemas de acesso à educação”, e “Permanecem sem abordagem comprovadamente eficaz os de fluxo (repetência) e qualidade (conteúdo)”, o que é a mais pura verdade. Tivessem sido enfrentados desde o início do primeiro mandato do governo Lula, com a seriedade que merecem, certamente os avanços teriam sido mais significativos. O próprio ProUni, destacado por Marcelo Leite, só foi criado na segunda metade do primeiro mandato de Lula.

Houve várias iniciativas positivas por parte do governo, como a criação do Fundeb, do Ideb, e mais recentemente a Lei de Responsabilidade Educacional, que deverá ser encaminhada nesta próxima semana ao Congresso Nacional. De maneira similar à Lei de Responsabilidade Fiscal, a proposta do MEC é que deve haver metas orçamentárias obrigatórias a serem cumpridas pelos estado e municípios, de aplicação na educação. Tal medida é extremamente positiva e, caso seja aprovada, deverá fornecer elementos para se fortalecer a qualidade do ensino. Marcelo Leite não comentou nada sobre o ENEM.

No que se refere ao ensino superior, o aumento de 50% de estudantes pode ser analisado de diferentes maneiras. Por exemplo, pode, realmente, significar uma melhoria nas oportunidades de acesso à formação universitária. Porém, tais números não necessariamente refletem uma melhor qualificação profissional. A criação do ProUni é questionável porque também não resolve o problema de formação adequada em nível superior, necessária, pois, segundo Marcelo Leite, “o país está ainda longe de um sistema de ensino capaz de sustentar o surto de inovação necessário para posicionar-se no mercado mundial como algo mais que um grande exportador de commodities”. Apesar das universidades particulares responderem por 75% dos formados nesta categoria, sabe-se que a qualidade do ensino oferecido pela maioria das universidades, centros universitários, e outras instituições particulares de ensino superior ainda é inferior ao da maioria das universidades públicas. Resta saber como se pretende resolver tal problema, sendo que algumas universidades particulares não têm o número mínimo de doutores exigido pelo MEC no seu quadro docente. Além disso, é difícil se avaliar a qualidade do ensino superior somente aplicando-se provas de avaliação, para as quais os alunos podem se preparar e ter um bom desempenho, sem que tal desempenho reflita, necessariamente, uma boa formação profissional.

Outra questão muito importante é a da infraestrutura das universidades federais. Embora o número de universidades feredais tenha aumentado significativamente, a infraestrutura das já existentes continua com sérios problemas, e foi marginalmente abordada durante os 8 anos de governo de Lula.

Enfim, os desafios na área de educação são enormes. Há que se admirar a coragem e a determinação de Fernando Haddad de permanecer no cargo de ministro.



Categorias:educação

Tags:, , , , ,

19 respostas

  1. Boa postagem, como sempre.

    Uma pequena observação, acho que o MEC não determina o número mínimo de doutores no quadro docente das IES, mas sim de “mestres e doutores” (ao menos é o estabelece a LDB art. 52 inc. II). A maioria cumpre (das que cumprem) a cota com mestres – até porque o salário é menor. Mas mesmo o índice mestres+doutores não são obedecidos por muitas IES.

    []s,

    Roberto Takata

  2. A infra das federais foi abordada por meio da Reuni.

    Ainda na questão do acesso ao ensino superior, acho que merece destaque a criação do programa de ensino superior à distância e semi-presencial. Sim, é polêmico; sim, ainda há muitos problemas.

    []s,

    Roberto Takata

    • Caro Takata, sempre atento.

      É verdade, mestres+doutores.

      O Reuni deveria, em princípio, resolver o problema da infraestrutura das universidades federais. Na última vez que estive na UFBA, em 2007, encontrei o Instituto de Biologia em estado lastimável. A UFSCar, quase vizinha da USP de São Carlos, se encontra atualmente em boas condições, e vários prédios foram construídos. Colegas da Federal do ABC dizem que lá as condições não são uma maravilha. Enfim, ainda há o que se fazer em termos de infraestrutura.

      O ensino a distância é polêmico. A UNIVESP (Universidade Virtual do Estado de SP) inaugurou o primeiro curso semi-presencial neste ano. Veja aqui. A conferir.

      abraço,
      Roberto

  3. A história da Univesp tem um aspecto meio engraçado, meio assustador. O governador fez questão de dizer que lançava a Univesp *contrariado*…

    Bem, um pouco antes desse projeto do estado de S. Paulo, teve, em nível federal, a UAB – em boa parte baseada na experiência da UnB com cursos a distância.

    Sobre a polêmica, o CFBio havia lançado uma resolução pela qual não concederia registro aos egressos em cursos à distância. Assim, sem nem examinar a qualidade do curso.

    []s,

    Roberto Takata

  4. Lição de casa em que sentido? Os alunos?

    []s,

    Roberto Takata

    • No sentido de que, antes de criarmos novas iniciativas de ensino, penso ser importante aprimorar aquelas que já estão em andamento, com medidas muito simples. Uma destas medidas seria uma avaliação séria do desempenho docente, em todos os níveis (fundamental, médio e superior). Somente uma avaliação séria para que a qualidade do ensino possa melhorar cada vez mais vai fazer com que os professores tenham um retorno sobre sua atividade docente, para se re-direcionar e poder se aprimorar. O que é essencial.

      abraço,
      Roberto

  5. Eu acho que são medidas complementares que devem ser tomadas paralelamente.

    Tem que melhorar o ensino que está aí. O que é ofertado no modo presencial. Mas não dá pra esperar que o presencial melhore para só então ofertar a modalidade semi-presencial.

    Do mesmo modo como, claro, que melhorar o ensino básico. Mas não dá pra esperar que o ensino básico melhore para então melhorar o acesso ao ensino superior.

    []s,

    Roberto Takata

    • Eu concordo. Meu receio, porém, é que os gestores façam, como frequentemente fazem, opção pela novidade e “esqueçam” que ainda é necessário olhar para aspectos fundamentais do ensino, como avaliação dos docentes, salário decente, etc., etc. Às vezes, medidas simples, mas eficazes, já fazem muita diferença.

      abraço,
      RB

  6. Vou tentar recuperar o caderno especial da FSP. O jornal O Globo publicou um caderno semelhante no último domingo com os exageros, para não dizer os números fabricados por esse governo, que está saindo ‘de mentirinha’. É claro que qualquer governo pode falsificar qualquer dado, mas quando esse é uma uma ditadura ou uma seita tudo fica muito mais fácil. Afinal, seus seguidores, os da seita, tomam esses números com a palavra definitiva.

    O FUNDEF, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental, foi instituído em janeiro de 1998, durante o governo FHC, e promoveu um aumento de 30% no salário dos professores; no Nordeste, esse aumento chegou a 60%.

    Uma vez que, desde a criação dos órgãos de fomento, na década de 1950, o governo paga bolsas de mestrado e doutorado, inclusive no exterior, e que as universidades públicas são mantidas com recursos públicos, seria justo esse mesmo governo (qualquer um, não apenas o atual) financiar o estudo de estudantes carentes nas universidades particulares. Eu vejo apenas dois grandes problemas: o primeiro é chantagem de trocar a manutenção do aluno pela isenção do que essas devem ao governo (elas sempre devem). A segunda é como fazer para o aluno carente acompanhar os seus colegas ‘privilegiados’. Fazer a lei das cotas é mais barato, rápido prático e demagógico.

  7. Caros,
    A cena do ensino superior é extremamente complexa. Nós das universidades públicas adoramos demonizar o ensino privado, que tem mais de 75% da matrícula.
    Sobre mestres e doutores e qualidade, é preciso ponderar outros aspectos. Mestres e principalmente doutores são fundamentais em instituições de pesquisa. Por algum motivo que me escapa aqui no Brasil costumamos associar qualidade com pesquisa. Erro lamentável.
    Ainda falta por aqui uma diversificação do sistema. Ou vocês acham que o ensino superior no EUA se resume a Harvard, MIT e Stanford? Mais da metade da matrícula está em cursos de curta duração em instituições que em alguns estados se chamam community college. O Steve Wozniak, do Apple II começou sua educação superior no community college de Cupertino.
    O que mais falta no Brasil é uma estruturação que dê nome aos bois (a maior parte das “universidades” privadas são na verdade community colleges a brasileira). Todos falam bem, e com razão, do sistema “S” (SENAI, SENAC).
    Qualquer um que já participou de uma avaliação de uma instituição de ensino superior perdida no sertão deve ter dado gargalhadas ao completar o quesito “publicações”.
    É importante que entendamos que o modelo USP se aplica ao seu fim, de universidade de pesquisa. Não temos recursos nem humanos nem materiais para abrir uma USP em cada esquina.
    Felizmente, os governos do PT (federal) e do PSDB (Sampa State) se deram conta disso e estão investindo nos IFETs e FATECs. Por outro lado, a comunidade de dirigentes de federais não se dá conta de que boas universidades não podem ser muito grandes e não se faz em lugar algum do mundo pesquisa de ponta nas mesmas instituições que cuidam de educar grandes contingentes.
    Pior, está na hora de repensarmos o chavão do movimento estudantil e docente, a “indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” da receita humboldtiana do século XIX. Mesmo a Alemanha, berço do Humboldt, já superou isso há anos.

    • Oi Leandro,

      Eu nem acho a cena do ensino superior tão complexa assim. Na verdade, eu acho que existem questões fundamentais as quais, ou estão sendo deixadas de lado, ou simplesmente não estão sendo consideradas. A primeira delas é a clara distinção, como você mesmo assinala, do que é universidade, do que é centro universitário, do que é faculdade, etc. Universidades devem, necessariamente, apresentar pesquisadores em seus quadros. Universidades são instituições de ensino e pesquisa, de acordo com a própria definição da LDB da educação.

      Não está se demonizando o “ensino privado”, uma vez que algumas destas universidades têm tradição de ensino e pesquisa, como é o caso das PUCs. Até pouco tempo atrás as Universidades Metodistas também mantinham pesquisadores em seus quadros. Atualmente acredito que o número de pesquisadores em universidades particulares outras que as PUCs seja mínimo. Porquê? Porque fazer para se fazer pesquisa custa caro em termos de infra-estrutura e para se contratar pessoal bem qualificado (doutores). E as instituições particulares de ensino são empresas, que objetivam lucro (não poderia ser de outra forma). Logo, é necessário que o MEC tenha atuação como órgão regulador para que a distinção entre universidade, faculdade, centro universitário, etc., seja feita.

      Por outro lado, como você bem assinalou, não se pode necessariamente vincular o ensino superior de boa qualidade à pesquisa. Exatamente. Mas é necessário que isso fique claro e, por outro lado, que a (boa) qualidade do ensino seja uma premissa básica. Em todos os níveis de ensino (fundamental, médio e superior). De que se adianta criar um programa de bolsas de estudo como o ProUni, que atendeu somente a 8% dos alunos matriculados no ensino superior, se não se exige, em contrapartida, boa qualidade do ensino por parte das instituições que foram “beneficiadas” com estes bolsistas? Pelo contrário. Na verdade, foram concedidos benefícios fiscais a estas instituições, e não que estas devessem, necessariamente, oferecer ensino de melhor qualidade.

      Já tive a experiência de ministrar aulas de pós-graduação, no Instituto de Química de USP de São Carlos, para alunos egressos de instituições de ensino superior particulares e públicas. NA MÉDIA, as diferenças de formação são assustadoras. Porém, existem alunos e alunos, como é bem sabido. Existem alunos egressos de universidades particulares que se sobrepujam, correm atrás do prejuízo e se mostram tão bons, ou até melhores, do que alunos egressos do ensino superior público. Mas NA MÉDIA não é isso o que eu observei.

      A diversificação do sistema do ensino profissionalizante (para generalizar) é absolutamente necessária. O “sistema S” de ensino (SENAI, SENAC) é uma prova de que isso é possível, viável e, sobretudo, válido. O problema é que aqui no Brasil se criou um mito que para ser um bom profissional é necessário ter um diploma de nível superior. E isto é uma grande enganação. A Alemanha do fim do século XIX – início do século XX se tornou uma potência científica graças às suas excelentes escolas técnicas. Hoje a Alemanha é, por exemplo, uma potência na área química, que é uma das mais importantes (senão a mais importante) indústrias de base. Não conheço Steve Wozniak, do Apple II. Mas suponho que seja um profissional diferenciado. De novo: ele não reflete a média, e sim um ponto fora da curva. A gente tem que observar que Harvard, MIT e Stanford se destacam frente às outras universidades por oferecer um diferencial em termos de ensino e pesquisa. Mas existem universidades menores muito boas nos EUA, que também oferecem formação em outras áreas. O que é importante é a qualidade.

      Infelizmente aqui no Brasil, para se ampliar o acesso ao nível superior do ensino público, o que se viu foi um “nivelamento por baixo”. E este quadro tem que ser revertido rapidamente caso realmente se queira que o Brasil dê um salto de qualidade em termos de ensino e pesquisa nas instituições de ensino superior.

      Também concordo que não é possível se abrir uma USP (ou UNICAMP, ou UFMG, ou UFRGS, ou UFRJ, ou UNESP, para citar apenas algumas) em cada esquina. Nem se deveria pensar assim. Como disse, é um mito este de que é absolutamente necessário ter um diploma em uma instituição de nível superior de excelência para ser um bom profissional. Na verdade, existem muitas profissões que não exigem uma formação tão aprimorada. Os IFETs e as FATECs que você menciona são excelentes exemplos. Mas, de novo, a qualidade é imprescindível. E, infelizmente, um dos profissionais menos bem qualificados no Brasil são os professores. Afinal, quantos professores universitários têm formação para serem professores?

      Para finalizar, a “indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” é assunto para outra questão: o modelo de gestão da universidade brasileira. Assunto para outra(s) postagem(ns) e muitos comentários.

      Grande abraço,
      Roberto

  8. Mas que debate excelente! Muito pertinentes todos os comentários.

    Eu nem acho a cena do ensino superior tão complexa assim.” Sim, mas ampliando um pouco mais o cenário, então o ensino no Brasil mostra um panorama bastante complexo, por suas interrelações.

    Tanto que verificamos casos como o relatado por você, Roberto: “Já tive a experiência de ministrar aulas de pós-graduação, […] para alunos egressos de instituições de ensino superior particulares e públicas. NA MÉDIA, as diferenças de formação são assustadoras.” Isso na pós-graduação. E na graduação? Levando-se em conta que os egressos de escolas públicas são a minoria que efetivamente conseguem ingresso nas IES públicas através dos concorridissimos vestibulares. Ocorre uma inversão nessa conta: as escolas de ensino médio particulares são melhores que as suas congêneres públicas.

    Talvez esse “nivelamento por baixo” para ampliar o acesso ao ensino superior fosse mesmo incontornável. Resta agora, como você indicou, reverter rapidamente este quadro, e em todos os níveis. Exige vontade política…

    • Oi Sibele,

      Na verdade, o que eu observei ministrando aulas na pós-graduação é que a diferença de formação na graduação é assustadora. E isso tem um reflexo direto no desempenho destes alunos na pós-graduação, NA MÉDIA. Com exceções, que eu mesmo observei, como disse anteriormente.

      Tudo de bom,
      Roberto

  9. Oi, Roberto!

    Sim, eu entendi sua colocação, e mencionei a graduação justamente porque é nela que se observam o resultado de políticas educacionais equivocadas ao longo de toda a formação escolar, desde o ensino básico. Por isso mesmo, considero que a cena do ensino superior no país não pode ser discutida isoladamente, desconsiderando-se todo o contexto precedente. Não é tarefa banal – pelo contrário, daí sua complexidade.

  10. E para você e para todos nós, um 2011 com tudo de bom! 🙂

    Grande abraço!

  11. Deixem-me provocar mais.

    Como avaliar a qualidade?
    Como construir um qualitômetro?

    Será que precisa de uma instituição de pesquisa para formar um contador? Para uma graduação em turismo? Em administração? Em engenharia?

    A maioria dos engenheiros formados no sistema público da Califórnia vem das Califonia State Universities, instituições que por base não oferecem doutorados. Alguns dos melhores engenheiros se formam na privada e riquíssima Stanford University, onde se faz pesquisa que ajuda a mudar o mundo.

    Qualidade de formação depende dos objetivos da formação. Infelizmente a cultura local reza que só há qualidade com inovação, fazendo com que grande parte do sistema privado viva travestido de instituição de pesquisa produzindo pesquisa inútil e irrelevante, publicando em periódicos idem.

    Espero que um dia o Brasil entenda que é socialmente mais relevante termos educação adaptada a todo tipo de formação (DIVERSIDADE) do que um modelo dominante da universidade de pesquisa.

    • Colocando mais lenha na fogueira… talvez poderia-se dividir a avaliação da qualidade do ensino superior em 3 momentos: a) no ingresso; b) durante; c) na conclusão dos cursos.

      O sistema de vestibulares foi implementado e amplamente adotado no Brasil. Embora seja questionado por muitos, é um sistema de avaliação, tal como o ENEM. Tais exames podem ser avaliados para se verificar como a formação do aluno egresso do ensino médio está sendo avaliada. A UNICAMP criou um vestibular diferenciado, sem provas de múltipla escolha, que particularmente considero muito bom. Porém, afirma-se que tais sistemas de avaliação são elitistas e exclusivistas. Esta é uma interpretação. Outra interpretação deste sistema de avaliação é que cada instituição de ensino superior, seja universidade, faculdade, centro universitário, etc., busca valorizar determinados aspectos dos alunos egressos do ensino médio, por entender que alunos com um determinado perfil estarão melhor capacitados para cursar os cursos que oferecem. De outra forma, ao se pasteurizar o sistema de avaliação de ingresso nas universidades, inevitavelmente a avaliação estará sendo “nivelada por baixo”.

      De qualquer maneira, vestibulares são imprescindíveis?

      O ENEM é imprescindível?

      A segunda etapa de avaliação do ensino superior seria durante o curso de graduação. Que é a mais difícil, pois muitas variáveis devem ser consideradas. Dentre outras, o desempenho dos alunos e o desempenho dos professores. O desempenho dos alunos é avaliado pelos professores. Mas e o desempenho dos professores em sala de aula? Na USP, esta avaliação é feita pelos alunos, e é objeto de muita controvérsia, pois muitas vezes os alunos avaliam de maneira negligente, pouco séria, ou simplesmente não avaliam. Na USP a atividade docente (de ensino) não é avaliada de outra maneira. Não sei como é na UNESP e na UNICAMP, por exemplo, muito menos nas universidades federais. Mas gostaria de saber. Outro ponto é que nas universidades aonde a pesquisa é forte a atividade de ensino é considerada secundária. Na USP, por exemplo, a progressão na carreira de professor doutor para professor associado (livre-docente) e depois para professor titular, a atividade docente tem um peso muito menor nesta avaliação do que a atividade de pesquisa. Desta forma, as conseqüências são óbvias.

      Quão importante é a avaliação da atividade docente (de ensino) dos professores universitários?

      Seria esta avaliação possível de ser feita?

      A avaliação “final” é o ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), o qual, segundo definição do site do MEC

      O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), que integra o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), tem o objetivo de aferir o rendimento dos alunos dos cursos de graduação em relação aos conteúdos programáticos, suas habilidades e competências.

      Já o SINAES, segundo a página do MEC, é

      o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes), formado por três componentes principais: a avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes. O Sinaes avalia todos os aspectos que giram em torno desses três eixos: o ensino, a pesquisa, a extensão, a responsabilidade social, o desempenho dos alunos, a gestão da instituição, o corpo docente, as instalações e vários outros aspectos.
      Ele possui uma série de instrumentos complementares: auto-avaliação, avaliação externa, Enade, Avaliação dos cursos de graduação e instrumentos de informação (censo e cadastro). Os resultados das avaliações possibilitam traçar um panorama da qualidade dos cursos e instituições de educação superior no País. Os processos avaliativos são coordenados e supervisionados pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (Conaes). A operacionalização é de responsabilidade do Inep.
      As informações obtidas com o Sinaes são utilizadas pelas IES, para orientação da sua eficácia institucional e efetividade acadêmica e social; pelos órgãos governamentais para orientar políticas públicas e pelos estudantes, pais de alunos, instituições acadêmicas e público em geral, para orientar suas decisões quanto à realidade dos cursos e das instituições.

      Ou seja, aparentemente o único problema de avaliação do ensino superior é “durante”. Mas, qual a significância do ENEM, vestibulares, ENADE e SINAES no aprimoramento do ensino superior? Eu, sinceramente, gostaria de saber, pois não sei. As informações do ENADE e do SINAES são de acesso restrito, mas deveriam ser públicas, de consulta livre, inclusive os critérios de avaliação e resultados, por exemplo. Enquanto o sistema de ensino superior federal faz parte do ENADE e do SINAES, as universidades públicas estaduais como a USP, UNICAMP e UNESP não fazem.

      Deveriam fazer, ou devem ter seus próprios mecanismos de avaliação?

      Como disse em minha resposta anterior, penso que o mito da necessidade de se cursar uma universidade para se ter uma boa formação profissional deveria ser desfeito, levando-se em conta os exemplos que você, Leandro, mencionou, dentre muitos outros. Porém, a formação profissional deve sempre ser de boa qualidade. De outra forma as conseqüências são inevitáveis.

      Para mencionar um único exemplo: tenho duas cachorras em casa. Uma delas começou a apresentar problemas de pele relativamente sérios. O veterinário, formado em uma universidade federal, que cuidava delas há anos, que eu considerava bom, aplicou um tratamento para infecção fúngica, durante muitas semanas. Os resultados foram marginais. Quando o problema mostrou não estar sendo resolvido, o veterinário disse que o problema era de ácaros na minha casa. E afirmou isso por telefone. Comentei com minha empregada doméstica, que trabalha em casa há muitos anos, excelente profissional. Ela ficou absolutamente indignada, e eu decidi procurar outro veterinário. Conversei com colegas e amigos, que têm cachorros, e me indicaram um veterinário formado na UNESP. Ele examinou longamente a cachorra doente, durante quase 1 hora, inclusive com microscópio depois de coletar amostras da pele. Seu diagnóstico foi de infecção bacteriana e desnutrição. Receitou dois antibióticos e uma vitamina (para as duas cachorras). Depois de duas semanas a cachorra doente estava curada.

      Negligência do primeiro veterinário? Ou má formação? Diferenças individuais ou de formação profissional? Detalhe: os preços de consultas cobrados por ambos são iguais.

      Poderia-se, deste único exemplo, extrapolar para outros? Má conduta médica, por exemplo?

      Seria necessário que todas as profissões tivessem exames do tipo da OAB? Existem vários países em que a prática médica é regulamentada pelos conselhos de medicina. São aplicados exames extremamente rigorosos para que os profissionais médicos possam exercer sua profissão.

      E se os conselhos de profissões aplicassem exames desta natureza?

      Independentemente dos objetivos de formação, mais especializado ou menos, a necessidade de se avaliar o profissional que ingressa no mercado de trabalho é absolutamente necessária?

    • Caro Leandro,

      Aproveito para deixar também a apreciação sobre este assunto por parte do prof. Roberto Lent, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em sua última (mesmo!) postagem de sua coluna na Ciência Hoje on-line. Veja-se no parágrafo final do texto de Lent, aqui.

Deixe um comentário