As primeiras etapas da vida na Terra, ou saber como surgiu a vida aqui, são assuntos que sempre despertaram uma grande curiosidade humana. É o que mostram os registros das civilizações grega e chinesa, muitos anos antes do surgimento da assim chamada “civilização ocidental”. Um novo programa da NASA pretende enviar vários equipamentos de alta precisão para Marte, de maneira a explorar a superfície e a atmosfera do planeta e conhecer a composição químicas das rochas e atmosfera.
Um equipamento chamado de Sample Analysis at Mars (SAM; Análises de Amostras em Marte) irá realizar a análise de amostras para detectar moléculas orgânicas. O SAM permite detectar amostras de moléculas em quantidades muito pequenas (em concentrações menores do que 1 ppb, uma parte por bilhão), e identificar uma grande variedade destes compostos. Junto com o SAM serão enviados nove outros equipamentos em uma mini-caminhonete (rover) chamada Curiosity. Todo este maquinário será utilizado para se analisar moléculas orgânicas que podem ser essenciais para mostrar indícios de vida, ou pelo menos indicar a possibilidade da vida um dia ter existido ou vir a existir no planeta vermelho. O Curiosity será enviado entre 25 de novembro e 18 de dezembro deste ano, como parte da missão espacial Mars Science Laboratory (Laboratório de Ciências de Marte). A nave chegará em Marte em agosto de 2012, e o Curiosity deverá operar e coletar dados e informações durante 2 anos.
Os cientistas objetivam estabelecer se existe, ou já existiu, potencial de desenvolvimento de formas de vida em Marte. Mesmo que não encontrem moléculas orgânicas, o que pode significar que estas simplesmente não se encontram na superfície do planeta. Será então necessário coletar amostras abaixo da superfície, e eventualmente entender quais condições ambientais em Marte não permitem a existência de moléculas orgânicas em sua superfície (se tal for o caso).
A amostragem também permitirá saber se moléculas orgânicas detectadas em Marte são oriundas deste mesmo planeta ou não. Segundo os cientistas da NASA, os compostos orgânicos levados por meteoritos apresentam um padrão de distribuição muito mais aleatório do que compostos orgânicos de amostras biológicas, além de um padrão de distribuição isotópica dos elementos que constituem tais moléculas orgânicas diferente do que se estas moléculas tiverem origem em Marte.
O SAM é composto por um espectrômetro de massas, por um espectrômetro a laser e por um cromatógrafo gasoso. Juntos estes instrumentos ocupariam o tamanho de um quarto aqui na Terra. Para serem enviados, foram reduzidos, juntos, ao tamanho de um forno de micro-ondas. Com estes aparelhos juntos será possível se analisar a composição dos gases da atmosfera de Marte e gases que são emanados do solo, a composição isotópica dos elementos que formam gases e outras moléculas mais pesadas. Quantidades variáveis de metano já foram detectadas na atmosfera de Marte, mas não se sabe se este gás é de alguma forma trazido para Marte ou se é “produzido” no mesmo planeta.
Até agora as análises realizadas sobre Marte buscaram detectar a presença de água. O envio do SAM no Curiosity poderá proporcionar um conhecimento muito mais detalhado da composição química da atmosfera e da superfície de Marte. O problema é que, ao que tudo indica, a composição química da superfície e atmosfera marcianas são variáveis em função do local onde as amostras para análise são coletadas. Estas são as informações obtidas pelos instrumentos enviados pela Viking, em 1976. Contudo, a instrumentação analítica científica se desenvolveu de forma espetacular ao longo destes 40 anos, melhorando tanto sua sensibilidade quanto a possibilidade de detectar substâncias cada vez mais diferentes. Sendo assim, será possível se verificar, inclusive, se ocorrem variações de composição química significativas em um raio de coleta de análise não muito grande. A detecção de argilas, minerais sulfatados, maior mobilidade da instrumentação e mapeamento geológico a partir de coleta de dados de satélites artificiais permitirá ao Curiosity coletar amostras de maneira mais seletiva e específica, para se obter informações mais fidedignas sobre Marte. Além disso, será possível coletar amostras do interior de rochas para sua análise, o que não foi possível com os instrumentos da Viking.
Os resultados a serem obtidos permitirão aos cientistas da NASA avaliar se vale a pena continuar buscando por evidências de vida em Marte, ou não.
Para maiores detalhes deste projeto, veja aqui.
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