Pesquisa E ensino

Artigo da revista Science publicado no último dia 14 discute a importância das atividades de docência nas universidades que têm a pesquisa como atividade de excelência. O artigo é importante, pois traz à discussão a importância da formação dos estudantes por professores bem qualificados. A questão é que as atividades de pesquisa costumam ser muito mais valorizadas pois, além de trazer renome para universidades que têm pesquisa de excelência, também traz dinheiro, obtido por financiamento de projetos por parte de agências de fomento, da iniciativa privada e também por doações de pessoas.

Como indicado pelos autores do artigo, as atividades de docência (ou seja, de se ministrar aulas) costumam ser designadas por carga didática (teaching load), com todas as implicações que o termo traz na sua significação literal. E muitas instituições de ensino superior costumam premiar professores que apresentam um bom, ou excelente, desempenho na pesquisa, diminuindo sua carga didática. Isso apesar de aparentemente não existir incompatibilidade entre as duas atividades, ensino e pesquisa, mesmo as duas sendo de excelência. Os autores do trabalho sugerem que, na verdade, a boa qualidade das atividades de pesquisa e ensino por parte de um professor universitário é perfeitamente compatível, e que uma pode reforçar a outra. Ademais, os autores sugerem que a distinção entre ensino e a pesquisa pode ser até mesmo superficial, uma vez que os estudantes que fazem pesquisa aprendem no laboratório e na sala de aula, à medida em que os professores trazem o conhecimento gerado por sua pesquisa para os alunos.

Os autores do trabalho participam do Howard Hughes Medical Institute (HHMI), que apóia a criação de novos programas para promover o engajamento de estudantes em atividades científicas. Desta forma, os autores manifestam sua opinião dizendo que a educação científica deve não somente fornecer conteúdo, mas também promover a capacitação do pensamento analítico, oferecer entendimento do processo de pesquisa científica, inspirar a curiosidade, bem como ser acessível para uma ampla gama de estudantes. Consideram ser importante preparar os estudantes para uma vida de aprendizado de ciência, levando em conta tudo o que a ciência pode fazer e também as limitações científicas. Várias abordagens podem ser utilizadas para se realizar um ensino desta natureza, incluindo atividades que requerem engajamento por parte dos estudantes, questionamento e cursos de pesquisa.

Os pesquisadores que elaboraram o artigo dizem que tais atividades, apesar de serem desafiadoras, foram consideradas como reconhecidamente importantes pelo HHMI. Como fazer com que universidades que sobrevalorizam a pesquisa possam igualmente valorizar as atividades de ensino, uma vez que as atividades de pesquisa podem ser avaliadas em termos de produção científica, de obtenção de fundos, de reconhecimento científico (nacional e internacional), e são recompensadas intra-institucionalmente (com promoções e aumento de salário)? A avaliação das atividades de ensino é muito mais difícil, tanto extra- como intra-institucionalmente. Cabe então às universidades criar mecanismos para recompensar e apoiar professores que, além de ser bons pesquisadores, são também bons professores.

Os autores do artigo propõem sete iniciativas para se valorizar as atividades de ensino nas universidades de pesquisa. Embora tais propostas não sejam exatamente novas, os pesquisadores que assinam o artigo as consideram importante para uma boa educação dos cientistas e também de cidadãos sobre a ciência.

1. Fazer com que os professores de uma faculdade (ou instituto, ou departamento) tomem conhecimento sobre pesquisa a respeito de aprendizado. Ao tratar o assunto “aprendizado” como um objeto de investigação científica (pesquisa), o mesmo assunto passa a ser mais valorizado. Também é importante apresentar teorias de educação, práticas de avaliação e métodos de avaliação do aprendizado.  Os professores devem poder experimentar novos métodos de ensino, identificar estratégias que possam ser utilizadas segundo suas necessidades, e tirar vantagem de recursos pedagógicos que permitam transferir princípios de aprendizagem para práticas didáticas. Tais abordagens devem incluir estratégias para estimular os alunos a fazer cursos introdutórios, que são muito importantes para sua formação.

2. Criar prêmios e recompensas para bons professores, com formas de apoio para sua pesquisa. Isso é feito por várias universidades na forma de um prêmio com um título ou uma certa quantia de dinheiro. A divulgação intra-institucional de professores excepcionais deve também incluir prêmio em dinheiro para pesquisa. Fazer com que estes professores possam apresentar palestras associadas à pesquisa pode ser uma boa oportunidade para o surgimento de métodos pedagógicos inovadores. Tais oportunidades podem, inclusive, atrair doações de entidades e pessoas que valorizam a formação de futuros cientistas. O reconhecimento não deve ser somente institucional, mas também departamental, de apoio aos bons professores, de maneira a estimular outros professores a se engajar no ensino com qualidade. Estimular visitas de professores que são ao mesmo tempo excelentes educadores e pesquisadores também pode ajudar o fortalecimento das atividades de ensino.

3. Requerer excelência na atividade de ensino para a promoção na carreira docente. Os autores do trabalho assinalam que, embora os critérios formais para efetivação (tenure) e promoção na carreira considerem ensino e pesquisa de forma igualitária, na prática as atividades de pesquisa são muito mais valorizadas. De maneira a se valorizar as atividades de ensino, estas precisam apresentar critérios e objetivos definidos para poderem ser adequadamente avaliadas, de maneira a se saber se os professores estão, realmente, sendo bons professores. Para isso, existem várias formas de se estabelecer critérios, os quais podem ser diversificados, para que possam ser utilizados e priorizados no processo de avaliação das atividades de ensino.

4. Criar grupos de discussão de ensino. A faculdade, ou os departamentos, deveriam realizar encontros anuais com os professores, de maneira a que todos pudessem assistir aulas de todos. Isso pode ser feito em pequenos grupos, de tal forma que os professores assistiriam as aulas e depois fariam observações e sugestões de caráter confidencial, valorizando novas abordagens pedagógicas ou apresentando sugestões para que as formas de ensino possam ser melhoradas. Atuando desta forma seria evidente que o departamento, ou a faculdade, valoriza a boa atividade docente, e também assume responsabilidade pela mesma. Os encontros anuais deveriam discutir formas inovadoras de ensino.

5. Criar programas trans-disciplinares sobre o aprendizado universitário. Os autores consideram que, embora muitas universidades tenham faculdades de educação e de psicologia, poucas vezes as outras faculdades ou departamentos interagem com estas de maneira a aproveitar os recursos humanos especializados em pedagogia e psicologia, de forma colaborativa, com o objetivo de aperfeiçoar o ensino, inclusive de forma experimental. Tais recursos deveriam ser muito melhor aproveitados.

6. Prover apoio contínuo para o ensino efetivo de ciências. Nos EUA existe uma instituição chamada National Academies Summer Institute que ajuda faculdades de quase 100 universidades norte-americanas a implementarem princípios de ensino científico. Neste programa, os centros de ensino das universidades devem fornecer apoio profissional para os membros da faculdade poderem realizar avaliações inter-disciplinares  e preparar os auxiliares de ensino (um quadro praticamente inexistente nas universidades públicas brasileiras, uma vez que estas praticamente só contratam doutores). Programas desta natureza necessitam o investimento de tempo e recursos, de maneira a reforçar o princípio que a melhor forma de ensinar ciência é fazer com que os alunos “pratiquem ciência”, angariando engenhosidade, disponibilidade para procurar e apoiar mentores, bem como conseguir recursos para laboratórios e atividades extra-classe.

7. Fazer com que chefes de departamento e diretores das unidades (institutos ou faculdades) se engajam nestas atividades. Os autores do artigo consideram que a participação destes administradores é muito importante para se fortalecer e valorizar as atividades de ensino. Que estes devem se manifestar sobre a importância da educação de qualidade nas unidades que administram, bem como criar e promover programas que possam trazer inovação às atividades de ensino.

Preocupados com a qualidade do ensino que as universidades americanas oferecem, e são sustentadas pela sociedade americana, os autores consideram que a vitalidade das universidades de pesquisa depende de se promover a educação e a pesquisa com mesma importância, e não como atividades competidoras entre si. Educação e pesquisa devem, assim, ser consideradas atividades que se beneficiam mutuamente, promovendo a geração de conhecimento e a formação dos estudantes.

O artigo assinado por 13 pesquisadores norte-americanos mostra, de forma clara, a importância de se valorizar de maneira adequada o ensino de qualidade. Há que se criar formas de avaliação das atividades docentes, e estimular aqueles que se dedicam a estas atividades da mesma forma que se dedicam a conseguir recursos e realizar pesquisa de qualidade.

Um dos autores do artigo é o professor Baldomero M. Olivera, descobridor das toxinas de moluscos do gênero Conus. Baldomero Olivera já esteve no Brasil. É um excelente palestrante, além de desenvolver pesquisa de primeira qualidade. Seu grupo de pesquisas investiga pequenas proteínas de moluscos venenosos, as estruturas, mecanismos de ação de atividade biológica e vários outros aspectos destas substâncias. Anos atrás seu grupo descobriu um peptídeo que deu origem ao ziconotídeo (prialt), atualmente comercializado como analgésico. Ao assinar o artigo juntamente com seus colegas, Badomero evidencia que não somente a pesquisa que realiza é importante. Mas que a educação é tão importante quanto a pesquisa. Detalhe: quem descobriu o peptídeo que deu origem ao ziconotídeo (prialt) foi um estudante do ensino médio, que, na época, realizou estágio de verão em seu laboratório.

É isso aí.

ResearchBlogging.orgAnderson WA, Banerjee U, Drennan CL, Elgin SC, Epstein IR, Handelsman J, Hatfull GF, Losick R, O’Dowd DK, Olivera BM, Strobel SA, Walker GC, & Warner IM (2011). Science education. Changing the culture of science education at research universities. Science (New York, N.Y.), 331 (6014), 152-3 PMID: 21233371



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3 respostas

  1. Finalmente essa difícil questão vem à baila para discussão!

  2. Como disse Carlos Chagas Filho – “A Universidade é um local onde se ensina porque se pesquisa”

  3. Oi Roberto
    Muito bom seu texto. Fiz uma citaçao “entre aspas”de uma parte de seu post no meu blog !

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