Acesso aberto – vale a pena?

As revistas de acesso aberto (open access) são aquelas em que o conteúdo é livre para ser baixado por qualquer pessoa. Artigo recentemente publicado na revista Science desenha um quadro nada positivo sobre as revistas de acesso aberto, em franco crescimento no mundo todo. Enquanto que a maioria dos pesquisadores entrevistados disse realmente apreciar revistas de acesso aberto, apenas metade destes pesquisadores já publicou um artigo em revistas deste tipo. A pesquisa de avaliação sobre este assunto foi realizada pela União Européia, designada Study of Open Access Publishing. Atualmente cerca de 10% de todos os artigos científicos publicados são publicados em revistas de acesso aberto.

As razões porque isso acontece são variadas. Parte significativa (40%) dos pesquisadores entrevistados diz não ter apoio financeiro para publicar em revistas de acesso aberto, enquanto que 30% diz não conhecer qualquer revista desse tipo que seja de boa qualidade. A maioria dos pesquisadores entrevistados disse que os fatores mais importantes que são levados em conta quando preparam e submeter artigos para publicação é a qualidade e o fator de impacto da revista para a qual irão submeter seus artigos científicos.

Por outro lado, revistas do tipo acesso aberto são como coelhos: proliferam incrivelmente. A maioria dos editores destas revistas edita apenas uma única revista, e atualmente existem mais de 1600 editoras de revistas de acesso aberto. Centenas de novas revistas científicas dessa natureza são lançadas a cada ano, enquanto que as revistas por assinatura proliferam em uma velocidade muito menor. No entanto, mesmo as grandes casas de edição de revistas científicas estão lançando revistas de acesso aberto: 14 grandes editoras publicam mais de 50 revistas (com mais de 1000 artigos em 2010), que correspondem a 1/3 das publicações de acesso aberto.

Dentre as melhores revistas de acesso aberto, o destaque é para a revista PLoS ONE, para a qual os revisores de artigos avaliam os trabalhos com rigor científico, mas não se os artigos são de interesse geral.

Já tive a experiência de publicar um artigo em uma revista de acesso aberto. À época a revista me pediu 500 euros. Como não dispunha desta verba, o artigo ficou sob acesso restrito (somente para assinantes) durante 1 ano. A revista não é grande coisa, mas está ganhando importância, provavelmente por ser de acesso aberto. Um de meus artigos mais citados está disponível livremente pela revista  Natural Product Reports (veja aqui), que disponibiliza alguns artigos para serem baixados livremente.

Eu acho a idéia do acesso aberto muito boa. As revistas da Sociedade Brasileira de Química, Química Nova e Journal of the Brazilian Chemical Society, são de acesso aberto e de boa qualidade (considerando-se o universo das revistas de acesso aberto). Porém, há que se escolher criteriosamente em quais revistas deste tipo vale a pena publicar, para o artigo não cair no ostracismo. A revista PLoS ONE, por exemplo, está cada vez melhor conceituada. Como se diz por aí, quando a oferta é muito grande, pouca coisa se salva.

ResearchBlogging.orgVogel, G. (2011). Open Access Gains Support; Fees and Journal Quality Deter Submissions Science, 331 (6015), 273-273 DOI: 10.1126/science.331.6015.273-a



Categorias:publicações científicas

Tags:, ,

5 respostas

  1. Com tudo, com tudo, ainda assim creio que vale muito a pena.

    Agora, esta pesquisa foi nos States, né? “Parte significativa (40%) dos pesquisadores entrevistados diz não ter apoio financeiro para publicar em revistas de acesso aberto, enquanto que 30% diz não conhecer qualquer revista desse tipo que seja de boa qualidade“.

    Não deve ser a realidade do Brasil. Para publicar-se nas ótimas revistas da base SciELO, por exemplo, não é necessário desembolsar nenhum tostão. E todas as revistas ali são de excelente qualidade, como a citada Química Nova. O problema é que os pesquisadores brazucas só querem publicar em revistas internacionais, e aí são outros quinhentos.

  2. Prezada Sibele

    As revistas brazucas publicam papers sem cobrar 1 tostão pois quem as financia é o contribuinte. Nao existe almoço gratis…

    E sim, de fato os brasileiros preferem as revistas do 1o mundo pois elas, em geral, têm mais tradiçao que as locais. Mas isso nao é problema apenas do Brasil. Pesquisadores do Canada só publicam em suas revistas quando o paper nao é de qualidade top (exceto no caso da zoologia, pois a a revista canadense é top no mundo). No caso da Itália, os italianos só publicam em suas revistas quando o artigo vai de mal a pior. No caso dos franceses, eles só tem 1 revista realmente de qualidade (em bioquimica), q obviamente nao é suficiente para dar vasao as publicaçoes locais.

    Como pode ver, o problema nao é só do Brasil…. E posso dar muitos outros exemplos… (dos russos, dos iranianos, dos chineses, … etc)

    Marcelo Hermes
    (a Voz da Direita na UnB)

  3. Acredito que se a revista de acesso aberto for boa, por que não publicar nelas? Mesmo que tenhamos que pagar, pois afinal de contas essas revistas tem que obter verba de algum lugar para custeá-las. Não nos esqueçamos de que não pagamos nada para publicar na maioria das revistas boas “fechadas”. Porém quem nos paga o acesso (ao menos no Brasil) a elas é o governo, e a conta sai cara. Talvez as grandes editoras não estejam interessadas na proliferação das revistas abertas porque podem perder dinheiro e isso não é nada positivo para elas. Na área de informática, pode-se fazer aqui uma analogia aos softwares de código aberto e os proprietários. Na área de química, segundo o pesquisador Stephen R. Heller, um dos divulgadores do projeto aberto InChi da IUPAC para representação de estruturas químicas, existem revistas de acesso aberto de qualidade elevada (http://www.hellers.com/steve/pub-talks/).

  4. Carissimo MHL,

    As revistas brazucas publicam papers sem cobrar 1 tostão pois quem as financia é o contribuinte. Nao existe almoço gratis…

    Não vejo problema algum de uma revista que está na base SciELO, por exemplo, receber recursos de agências como a FAPESP e o CNPq. É dinheiro de impostos? Vem do contribuinte? Então eu como contribuinte fico muito feliz de ver que esse dinheiro está sendo muitissimo bem aplicado. Mas isso é inadmissível para a direita, não é mesmo?

    Quanto ao problema mencionado, que segundo você é corrente no mundo todo, de autores publicarem em revistas estrangeiras em detrimento das suas nacionais, então só posso dizer que o sentimento pátrio deles anda bem em baixa. Se as revistas estrangeiras têm mais tradição que as locais, não é rejeitando as locais que elas vão, algum dia, conseguir ser “top”.

Trackbacks

  1. Tweets that mention Acesso aberto – vale a pena? « Química de Produtos Naturais -- Topsy.com

Deixe um comentário